Cuiabá, 04/10/2026

MT é o 1º do país em aplicação de agrotóxico e isso impacta a saúde, diz pesquisador

Doutor em Saúde Pública e pesquisador na área de meio ambiente, Wanderlei Pignati diz que o uso do o uso do 2,4-D, de alta potência, quadriplicou no estado

Rodinei Crescêncio/Rdnews

O uso dos agrotóxicos e seus impactos voltou a ser discutido com atenção após o desastre provocado em Barão de Melgaço, com um desmate químico de 80 mil hectares, investigado pela Polícia Civil e autuado pela Sema. Segundo o doutor em Saúde Coletiva e pesquisador dos impactos do agronegócio na saúde e no meio ambiente, Wanderlei Pignati, os produtos químicos nocivos têm sido cada vez mais usados em Mato Grosso, que é o maior usuário de agrotóxicos no país, e têm causados sérias doenças em quatro regiões do estado, como câncer, distúrbios neurológicos e até casos de malformação. Em entrevista especial ao #rdnews, Pignati fala sobre o forte impacto desses defensivos agrícolas e defende que existe um modelo sustentável de produção em grande escala suficiente para suprir a demanda sem impactos devastadores.

Confira, abaixo, os principais trechos da entrevista:

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Como o uso dos agrotóxicos, em especial o 2,4-D, envolvido no último grande desmate químico no Pantanal, impacta a longo prazo na saúde da população?

Nossos estudos mostram que nas regiões que mais produzem e usam agrotóxicos, há maior incidência de câncer infantil, juvenil, casos de malformação, distúrbios neurológicos e endócrinos. Há uma intoxicação aguda, pois a pessoa respira aquilo, tem asma, alergia na pele, diarreia, vômito, pode até desmaiar e, em casos mais graves, ir a óbito. Hoje Mato Grosso é o maior usuário de agrotóxico do país, por ser o maior produtor de soja, milho e algodão. Cerca de 20% dos agrotóxicos usados no Brasil são utilizados em Mato Grosso. Na safra de 22/23 foram usados cerca de 1 bilhão de litros de agrotóxicos no Brasil e 200 milhões de litros foram só em Mato Grosso. O 2,4-D, que é extremamente nocivo, é hoje o segundo mais usado em Mato Grosso, depois do glifosato. Nos últimos dez anos o uso do 2,4-D quadriplicou no estado. E nas regiões em que são usados esses agrotóxicos a incidência dessas doenças que eu citei é até cinco vezes maior. Hoje isso acontece em quatro regiões: região de Sorriso, que abrange Sinop, Lucas do Rio Verde e Nova Mutum;  região de Rondonópolis, Primavera do Leste e Campo Verde; região do Araguaia, que pega Querência, Água Boa e Canarana, e a região de Diamantino, Sapezal e Campo Novo do Parecis.

Com tantas pesquisas e debates sobre esse assunto, avançou-se algo nos últimos anos no Estado?

“Nos últimos anos foi liberado só com o parecer da Agricultura, que vê apenas a eficiência agronômica, o preço mais barato. Um exemplo, foi o paraquat, que era muito usado na soja transgênica e foi proibido em 2017 por causar lesão renal e mal de Parkinson. Aí o Bolsonaro liberou para usar de novo”

Ressalta o doutor Wanderlei Pignati

Eu acho que piorou. Nos quatro anos passados, no Governo Federal passado, foi liberado muito agrotóxico só passando pelo Ministério da Agricultura. A lei mudou agora em dezembro e voltou a responsabilidade também para o Ministério do Meio Ambiente e do Ministério da Saúde através da Anvisa. Mas nos últimos anos foi liberado só com o parecer da Agricultura, que vê apenas a eficiência agronômica, o preço mais barato. Um exemplo, foi o paraquat, que era muito usado na soja transgênica e foi proibido em 2017 por causar lesão renal e mal de Parkinson. Aí o Bolsonaro liberou para usar de novo. Agora estão usando o diquat para dissecar, maturar e secar a soja transgênica, e o diquat é um derivado do paraquat, inclusive sendo proibido na União Europeia. Fizeram essa manobra, mas não adiantou. Estão usando cada vez mais. Hoje como o glifosato já não está matando todo o mato que nasce no meio da soja, porque a “erva daninha” está nascendo resistente a ele, estão usando muito o 2,4-D. Em algumas regiões estão usando um ainda mais tóxico, o dicamba, porque o 2,4-D já não é suficiente para matar. É um crescente de toxicidade, glifosato, 2,4-D, dicamba e me questiono aonde a gente vai parar.

Existem outras áreas que acontecem situações semelhantes a essa do Pantanal?

Várias. Entre Diamantino e Alto Paraguai existe um Área de Preservação Ambiental Estadual que está toda desmatada. Ali existiam oito lagoas e hoje só sobraram três, plantaram em cima delas, usaram agrotóxico, sementes transgênicas. As nascentes do Xingu, sem nenhuma exceção, nascem dentro das plantações de soja, de milho, de algodão, e de pastagens. No Xingu, hoje tem muitas doenças causadas por esses agrotóxicos. O Rio Juruena e o Teles Pires também sofrem e vão formar o Tapajós, que vai sair no Amazonas. O Rio Paraguai também está sendo impactado e agora desce, passa no Pantanal e se junta a contaminação de 80 mil hectares, indo sair lá na Argentina.

Rodinei Crescêncio/Rdnews

Existe um limite de distância que o despejo desses agrotóxicos precisam respeitar?

Sim, tem a lei federal e a Lei Estadual do Agrotóxico, de 2006. Entre os vários artigos, um deles estabelecia que você tinha que deixar essas plantações a 300 metros longe de casas, centros de abastecimento de água, áreas de preservação e criação de animais. Não podia passar nem com trator, nem com avião e nem com bomba costal. Só que em 2013 o ex-governador Silval, pressionado pelo agronegócio, baixou isso para 90 metros. O Ministério Público recorreu, mas o agronegócio recorreu, derrubou a liminar e voltou para 90 metros. Mesmo assim não respeitam. A maioria não respeitava com 300 metros e não respeita com 90. Mesmo se respeitar, 90 metros é uma distância insuficiente, se passar com um avião, ele esparrama para outros lugares e com o trator o vento leva.

O senhor citou bastante a questão da União Europeia, que não aceita alguns dos agrotóxicos que utilizamos aqui. No entanto, Brasil é um grande produtor e Mato Grosso também, não se comparando com a produção da União Europeia. Há um modelo viável de produção em grande escala que atenda a nossa demanda e não seja tão devastador?

Claro, temos a Lei da Agroecologia e Produção Orgânica no Brasil e a lei estadual, em Mato Grosso, que é a Lei 11.242, aprovada em 2020. Então, se o governo quiser investir nesse outro modelo de produção, pode. Tem também controle biológico, tem fábricas de insumos biológicos, inseticida, fungicida, herbicida, que já estão produzindo de maneira biológica, em vez de ser feito com produto químico. Eu visitei em Tangara da Serra, há uns 6 anos, 200 mil hectares de soja orgânica que exportava para o Japão. Produzia até mais em termos de tonelada do que o outros. Eu visitei também uma fazenda de produção de cana de açúcar em Sertãozinho, no interior de SP, com 17 mil hectares, é o maior produtor de açúcar e álcool orgânico do mundo e tem mais de 20 anos que ele não usa nem uma gota de agrotóxico, nem fertilizante químico.

Mas seria o suficiente pra sustentar nossa demanda?

Sim, desde que o governo invista nisso. Tem que investir muito em pesquisa. A Embrapa está há muito tempo só fazendo pesquisa para o agro, soja transgênica, agrotóxicos, tem que investir em outras. Até existem na Embrapa pesquisas mais antigas de controle biológico, mas as indústrias não se interessam, porque a indústria química é uma das maiores do mundo e quer vender cada vez mais. Se a semente transgênica é resistente ao glifosato, você usa mais o glifosato, se é a 2,4-D, usa mais ele, se é a dicamba, usa-se mais a dicamba. Isso mostra que é preciso começar a produzir também semente para esses biofertilizantes, para competir com essas indústrias.

Rodinei Crescêncio/Rdnews

Esse não seria um modelo mais caro?

Não. No início, os orgânicos eram mais caros, hoje uma boa parte dos supermercados tem gôndolas de orgânicos e não é muito mais caro do que o outro. Mas se fizer em uma larga escala, o preço conseguirá ser mais competitivo. Por exemplo esse que eu visitei em Sertãozinho produtividade é muito maior que o normal. Isso os agrotóxicos esterilizam o solo, então é preciso usar mais fertilizantes. No biológico não.

Então é possível fazer em larga escala uma produção sustentável, desde que haja investimento do Governo Federal, do Estadual, e desde que haja interesse, que o agronegócio comece a botar a mão na consciência.