Cuiabá, 19/09/2026

Nunes sustenta família com a arte e tem quadros espalhados pelo mundo afora

Com 61 anos de idade, cuiabano conta como se desenvolveu na arte e quais características dominantes

Gilberto Leite

Renomado artista cuiabano, Benedito Luiz Nunes tem 61 anos e hoje consegue sustentar  família apenas com a arte

Renomado artista cuiabano, Benedito Luiz Nunes, que assina em suas telas, desenhos, esculturas ou em suas xilogravuras como Nunes, começou a se expressar no universo da arte desde muito jovem, por influência dos pais que eram desenhistas. Aos 61 anos, tem postura e linguajar simples, não economiza nos sorrisos e fica tímido ao responder a reportagem do #rdnews. Para populares e apreciadores de outras partes do mundo, ele é um impressionista, além de apelidá-lo como "o Van Gogh cuiabano", devido a semelhança dos traços e pinceladas a da arte do holandês do século XIX. Benedito recebeu a equipe na Casa Cuiabana, onde tem muitos amigos e estendeu algumas de suas telas e esculturas no piso de madeira do tradicional casarão. Respondeu como se iniciou e quais as principais coisas que o tornou um amante do cerrado e cotidiano mato-grossense, apresentando-o mundo a fora, de forma sincera e bastante singular. Confira as melhores partes da entrevista.

Quando você começou a "arteirar" houve influências? Como você descobriu seus talentos?

Eu sempre gostei de desenhar e meus pais eram bons desenhistas. Sempre tinha um papel e um lápis em mãos e assim fui praticando. Comecei a tomar tento no Salão Jovem Arte, em meados de 1977. Eu deveria ter de 19 para 20 anos e conheci outros artistas na época. Éramos um grupo de curiosos e estudiosos, fui conhecendo outros lugares do Estado e outros artistas assim.

Sempre amei a arte, o que fiz e continuo fazendo. Já participei de diversos projetos por todo Brasil. Fui jurado de outros artistas, sempre quis ser um incentivador porque acho que a arte pode mudar o mundo.

Você tem murais espalhados por toda a cidade, em departamentos públicos, além de várias galerias. Tem ideia de por que as pessoas gostam tanto do seu trabalho?

Eu pinto o que eu vejo, sempre foi assim. Quando eu era mais jovem nos diziam para pintar nossa verdade, nossos bairros, que víamos, e assim eu comecei a pintar muito o cerrado, por exemplo, ou muitas árvores lixeiras (que era o que havia no bairro naquela época). Aos poucos, além de desenvolver o cotidiano, pessoas, fui detalhando melhor as plantas, o cerrado, e assim consecutivamente. Eu pintava o que via nos lugares, pois ainda não havia tantas encomendas. Acho que as pessoas se identificam com as telas, as que não conhecem a cuiabania, compram porque acham diferente de tudo que já viram.

Tem uma técnica de pintura definida? Como você aprendeu a pintar?

Eu aprendi bastante com a prática, muitos me diziam antes que eu era um perfeito impressionista, mas as pessoas vão se desenvolvendo de acordo com o que vivem. Não posso dizer que criei algum estilo, talvez uma pessoa em outra parte do mundo faça o mesmo que eu e eu não tenho conhecimento. Pratico muito.

Qual sua paleta de cores preferida? Acredita que tem um porquê em escolhê-las?

As paisagens e o clima daqui me influenciam muito. Quando o sol bate forte no concreto, nas ruas, nas flores ou na natureza, ficam em cores vivas. Podemos perceber que os artistas de São Paulo, por exemplo, pintam na maior parte das vezes cores mais opacas. Eu uso muito verde e cinza na natureza por conta do cerrado, laranjado e azul para cidades.

Gilberto Leite

Benedito Nunes diz ser um artista impressionista e não se incomoda em ser comparado com o renomado Van Gogh 

Você é comparado há alguns anos com o impressionista Van Gogh. Como se sente em relação a isso? Acredita que há mesmo semelhança nos trabalhos de vocês?

Não me incomodo, o admiro, ele é conhecido mundialmente e eu também sou um impressionista. Por muito tempo obras minhas ficaram expostas em uma galeria na Espanha em 1985, chamada Brazilian Arte. Fora isso, há sempre quem vem de fora para comprar as minhas obras e gosta do estilo. Acredito que, talvez, o que nos aproxime seja isso, essa verdade no que pintamos e no estilo. Dizem muito isso, se acham, devem sentir uma sensação parecida quando olham as telas.

Como você se sente como cuiabano e apresentando mundo afora a cuiabania com teus olhos?

Sinto-me grato e orgulhoso. Sempre amei a arte, o que fiz e continuo fazendo. Já participei de diversos projetos por todo Brasil. Fui jurado de outros artistas, sempre quis ser um incentivador porque acho que a arte pode mudar o mundo. Eu amo Cuiabá, amo a cultura e tudo que sempre vivi aqui. Então tenho que agradecer a Deus por todas as oportunidades que já tive e continuo tendo, tenho obras na Europa, nos Estados Unidos, mundo afora e em outros lugares que nem sei, pois as pessoas compram e levam para vender ou presentear os outros e é difícil mensurar isso.

Gilberto Leite

Benedito Nunes durante entrevista concedida à repórter Mirella Duarte

Acredita que talvez falte incentivo e reconhecimento aos artistas em Mato Grosso?

Posso dizer que já vivemos tempos melhores com a arte. Nos últimos anos vejo pouco incentivo aos artistas. Penso que eu já tive muito apoio, mas existem jovens que precisam do mesmo suporte e não estão tendo. É triste. Espero que isso mude. Temos muita gente com potencial aqui.

Se você pudesse passar uma mensagem a artistas que estão começando e desejam ser reconhecidos, assim como você é hoje, o que diria?

Eu diria para praticar e seguir em frente. Não é um caminho fácil, mas precisamos ser sérios e trabalhar com amor. Hoje a arte é meu único sustento. Já dei aulas e participei de projetos. Eu mantenho a minha família com a venda dessas telas. Sou eu e mais quatro filhas, uma delas agora se casou. Todos sempre me apoiaram e acho que isso é importante, o segredo é ter fé e muito amor.