Vale do Rio Claro tem trilhas com vista plena e relaxante flutuação em Chapada
Junia Belfort
Na Cidade de Pedra são 350 metros de desnível com formações rochosas esculpidas pelo vento e tempestades. Horizonte é espetacular e traz tranquilidade
A vista dos paredões do Parque Nacional de Chapada dos Guimarães, inclusive a de cima da Cidade de Pedras, dá espaço para imaginação divagar até onde a vista alcança. O horizonte é “infinito”, e não custa lembrar que há milhões de anos atrás o mesmo solo que a reportagem pisa foi também deserto, outrora geleira, e oceano. Oportuno mencionar que os dinossauros também viveram na região. Hoje, a memória dos pré-históricos são apontadas aos lagartos, supostamente, como seus parentes, apesar da ciência ainda discutir a proximidade de parentesco com os répteis. O que não impede que eles façam pose na ponta do precipício, hora ou outra, se recolhendo em buracos.
Antes dessa sensação e para iniciar as trilhas, antes de qualquer visitação, a equipe entregou na guarita próxima ao Véu das Noivas, ainda no parque, um voucher com as informações das pessoas que fariam a trilha para o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), só assim a chave de algumas porteiras são “liberadas”. A autorização do ministério do Turismo junto ao Parque Nacional de Chapada dos Guimarães é uma das leis do parque. E, por isso, algumas informações como nome completo, e-mail e CPF são solicitadas previamente.
Cidade de Pedras
Maior parte do caminho foi percorrido de carro, cerca de meia hora de trilha até a vista para os paredões. Daquele ponto, ao todo, são 350 metros de desnível que, com formações rochosas esculpidas pelo vento e tempestades que lhe moldam, lembram ruínas de uma cidade e, por isso, foi nomeada Cidade de Pedra. Lugar que, além de todas as ciências que estudam o parque nacional, também dá origem às lendas que se mantêm gerações após gerações. Elas variam de portal místico a parada de alienígenas, assim como vários outros pontos de Chapada dos Guimarães, e ali não seria diferente.
“As formações rochosas permitem que visualizemos um guardião ou outras paisagens, cada um vê uma coisa, vai da sua imaginação”
Junia BelfortAs araras vermelhas fazem ninhos entre os paredões vermelhos, mas acima das cabeças dos guias e quem visita o local sobrevoa um gavião. Júnia Belfort, que faz as honras sobre a saga do Vale do Rio Claro, com direito à três paradas e trilhas diferentes, é quem faz breves intervenções sobre a paisagem. “Esses paredões são de arenito, muito sensíveis e sempre modificam com o tempo. As formações rochosas permitem que visualizemos um guardião ou outras paisagens, cada um vê uma coisa, vai da sua imaginação”, comenta Júnia.
A Cidade de Pedras compõe parte das trilhas acessadas pelos turistas no Vale do Rio Claro, no Distrito Água Fria. Além desta trilha, costumeiramente é visitada a Crista do Galo. E há ainda o Poço Verde e Poço das Antas, ambos com a possibilidade de flutuação com águas cristalinas e com até quatro metros de profundidade.
Vista de 360º na Crista do Galo
É possível ver a Crista do Galo no Vale do Rio Claro, muito de perto, e a vegetação é mais densa até que a vista de 360º, ou seja, completa. No local, é possível ouvir os rios que são próximos ao local, ver o Morro do São Jerônimo e também Cuiabá. Este nome foi escolhido para o ponto porque as formações de arenito, que se estica em ambos os lados, lembram essa parte da anatomia do animal.
A cor desta estrutura é avermelhada e pode ser vista de quilômetros de distância. A estrada é de difícil acesso, mas a trilha até a Crista dura em média 20 minutos com pequenas escadas.
Junia Belfort
Maior parte do caminho foi percorrido de carro, cerca de meia hora de trilha até a vista para os paredões da Crista do Galo. Percursso é tranquilo e com 360º
Flutuação no Poço Verde e Poço Encantado
Com as águas cristalinas, nesta época do ano, após o período de chuva, tanto o Poço Verde, quanto a piscina natural chamada Poço Encantado são ideais para a flutuação. Cerca de 20 minutos são percorridos mata adentro, sem escaladas, para chegar à primeira parada. Segundo Junia, as águas são próximas a algumas nascentes e, por isso, a temperatura da água é mais amena.
Snorkel e coletes são disponibilizados para que a flutuação seja segura. Além do banho refrescante, é possível dar a volta em um dos poços com direito a “obstáculos” para desviar de troncos de árvores e pedras. A correnteza ajuda no percurso, só é preciso ter cuidado para não esbarrar ou se rebater nos desvios. “É relaxante, e os guias vão auxiliando o caminho, um na frente e outro atrás do grupo”, comenta Junia sobre o funcionamento dos mergulhos.
Arquivo pessoal
Mergulho dura em média meia hora e banho permite desvio de troncos, pedras e contato com peixes. Aos turistas, são oferecidos equipamentos próprios
Os valores para esta ou outras trilhas no Parque Nacional de Chapada dos Guimarães variam um pouco, mas quanto mais pessoas no grupo, mais tendem a baratear. A média é de R$ 150 por pessoa em um grupo de seis. Além da feita pela reportagem, mais de dezoito passeios são disponibilizados pela empresa Eco Turismo Cultural. Entre as trilhas, as mais famosas ainda são a do Caminho das Águas, com início da subida passando pelas cachoeiras da Prainha, dos Degraus, do Pulo e da 7 de Setembro. Passa também pela Casa de Pedra, que tem uma mini caverna. Opções diferenciadas com vôo panorâmico com paraglider ou uma parada para massagem terapêutica também estão entre as opções de integração com a natureza.
Eco Turismo Cultural
Arquivo pessoal
Casal Belfort se apaixonou por Chapada dos Guimarães, ambos pioneiros na área, e família segue com empresa hoje.
O primeiro guia de Chapada dos Guimarães foi Jorge Belfort Mattos Junior, um paulistano professor no início da década de 80. Ainda jovem, ele ouviu falar daquela região e se encantou.
Atuou também como professor de geografia e história, talvez porque se interessasse cada vez mais em conhecer com sua moto todos os lugares, antes mesmo da criação do Parque Nacional.
Hoje, deixa seus sucessores como Júnia (que conduziu a equipe de reportagem), Lui e Reggie Belfort (esposa viúva).
Por isso, Jorge se especializou em história chapadense e defendeu a tese “A Ocupação de Chapada dos Guimarães na época colonial”, defendida pela UFMT. Participou também da equipe que encaminhou o processo para o reconhecimento da Igreja de Sant Ana do século XVIII (único exemplar totalmente barroco de Mato Grosso) como patrimônio nacional ao realizar o relatório dos bens e móveis. “Ele viajou até Portugal para aprofundar suas pesquisas e localizou a planta arquitetônica da Igreja”, complementa Reggie, que administra a empresa familiar.
Arquivo pessoal
Jorge, como guia, inspirou personagem gravado na novela Pantanal. Recebeu o Globo Repórter e outros interessados em documentar o local.
Ela também menciona que no início da década de 90 eles receberam autores, diretores e roteiristas como Marcos Caruso que veio pesquisar para escrever seu mais novo trabalho da época, sua primeira e única novela, a Ana Raio e Zé Trovão.
“Quando a equipe da TV Manchete veio realizar esta produção, o Jorge foi contratado como produtor de locação. Segundo a produção, o personagem vivido pelo músico e ator Evandro Mesquita como guia de turismo, profissional que não existia na cidade naquele tempo, foi criado depois que os autores conheceram o Jorge”, detalha um dos ocorridos.
Segundo Reggie, foi essa novela que mudou os rumos de Chapada dos Guimarães. Antes, o local equilibrava sua economia baseada na agronomia e extração. Após a telenovela, recebeu impulso no turismo. "Estes personagens se apaixonaram aqui, por isso brinco que eu e Jorge somos filhos da Ana Raio e Zé Trovão, e meus filhos os netos", conta Reggie.
Além disso, a equipe de reportagem como a do Globo Repórter, outras emissoras vieram e foram recepcionada por Jorge.
Em 1991, o casal criou a Eco Turismo Cultural, empresa que acolheu o #rdnews em sua sede e contou a história para a reportagem. Reggie lembra que na sequência o local recebeu outras equipes para mais algumas novelas e minisséries que ganharam pano de fundo e cenário chapadense.