Cuiabá, 31/10/2026

Paulo acertou pagamento de propina para manter contrato do Detran, diz delator

O esquema de pagamento de propina no Detran não aconteceu apenas na gestão Silval Barbosa. A revelação foi feita pelo novo delator da Bereré, José Ferreira Gonçalves Neto, dono da Eig Mercados LTDA. Segundo ele, ainda em dezembro de 2014, logo após a eleição do governador Pedro Taques (PSDB), que se preparava para assumir o cargo em 1º de janeiro, foi paga a primeira remessa de “retorno” ilegal, R$ 1,4 milhão, a Paulo Taques, primo do governador e futuro secretário da Casa Civil.

Gilberto Leite

Preso na Operação Bônus, Paulo Taques é ex-secretário da Casa Civil e primo do governador Pedro Taques (PSDB)

O valor teria sido entregue a Valter José Kobori, então diretor da empresa. O fato, segundo os autos, consta registrado no relatório técnico de análise bancária da Polícia Civil. Ainda segundo o documento, em 2015, Kobori teria solicitado, em nome de Paulo, o pagamento de R$ 1,2 milhão. O delator revela que o valor foi repassado por meio de 10 parcelas, já em 2016.

Segundo a delação, que deu sustentação à segunda fase da Bereré, toda a negociação foi feita pelos primos do governador, os advogados Paulo Taques e Pedro Zamar, juntamente com Kobori – de quem eram amigos há muito tempo. Os três foram presos nesta quarta (9), durante a deflagração da Operação Bônus.

O delator detalha que, após acertar o fim do pagamento das propinas através da empresa Santos Treinamentos - durante a gestão Silval -, autorizou Kobori a negociar o pagamento de vantagens ilícitas ao novo governo. Assim, planejava garantir a manutenção dos contratos de sua empresa com o Detran.

Na ocasião, Kobori teria revelado que, antes mesmo do resultado da eleição, teria acertado junto a Paulo Taques o pagamento do “auxílio” para manter a prestação do serviço. A ideia era fazer o repasse por meio do escritório de Paulo, que tem o irmão Pedro como sócio.

Justamente, por isso, em 6 de outubro, dia da eleição, foi assinado um substabelecimento em que o escritório D’ Almeida Cordeiro & Mesquita Advogados Associados, contratado pela EIG, repassava a Paulo e seu irmão os poderes para defender os interesses da empresa por meio de seu escritório.

Reprodução

 Trecho da decisão do desembargador José Zuquim que revela suposto pagamento de propina para Paulo Taques

Ferreira relata, no entanto, que não aceitou fazer o pagamento da propina daquela forma. Kobori então decidiu ser o “atravessador-dissimulador”, recebendo pessoalmente o valor a título de bônus pelos serviços prestados à EIG. Permaneceu à frente das negociações até agosto de 2016, quando foi demitido.

Quando foi dispensado, conforme a investigação, Kobori cobrou que José Ferreira pagasse um “bônus”, pois ele já havia assumido o compromisso com o Executivo. Com a suspensão do pagamento da propina, Pedro Zamar teria ligado para o delator, pedindo a manutenção de seu amigo na empresa, já que havia assuntos pendentes no Estado, a serem resolvidos.

Pedro Zamar ainda teria solicitado que José Ferreira viesse a Cuiabá para conversar, deixando claro que Kobori estava alinhado com ele e com seu irmão nos pagamentos dos bônus. O sócio da EIG afirma que Kobori lhe disse que apresentaria uma pessoa do Estado que poderia resolver todos os problemas relacionados ao contrato.

Esquema

Ainda segundo os autos do processo, foi criada uma engenhosa organização criminosa com “artimanhas para maquiar o recebimento de propina”. A delação do empresário embasou a prisão de Paulo, Pedro e Kobori. O caso segue sob sigilo, por isso, não se sabe ainda todos os detalhes acerca do suposto esquema.

Além de Pedro, Paulo e Kobori, foram presos o deputado estadual Mauro Savi, Claudemir Pereira dos Santos, o Grilo e Roque Anildo Reinheimer - que também participaram, segundo o MPE, dos esquemas de corrupção.