Cuiabá, 30/09/2026

Propina para deputado federal com termelétrica poderia chegar a R$ 4 bi

Folhauol

Deputado Rocha Loures que teria intermediado propina via térmica de Cuiabá com dono da JBS

A colaboração premiada do dono da JBS, Joesley Batista, revela que os esquemas negociados com o deputado federal Rodrigo Rocha Loures sobre a termelétrica Governador Mario Covas, de Cuiabá, poderiam alcançar os valores de R$ 4 bilhões. No documento, Joesley afirma que receber um retorno financeiro da planta de energia seria importante para poder pagar a planilha do ex-deputado federal Eduardo Cunha e seu doleiro Lúcio Funaro.

A informação de que Mato Grosso fez parte do esquema de corrupção da JBS já havia sido publicada anteriormente pelo jornal O Globo. Os detalhes da negociação, porém, vieram à tona após a liberação, nessa sexta (19), do Supremo Tribunal Federal (STF) do pré-acordo de delação de Joesley, que foi feito junto ao Ministério Público Federal (MPF).

O empresário afirma que chegou a se encontrar com o presidente Michel Temer (PMDB) no porão do Palácio Jaburu e que entrou no local após se identificar como “Rodrigo”.  Depois do encontro com Temer, ele se reuniu com o deputado Rodrigo Rocha Loures em 13 de março, na residência do parlamentar, e a principal pauta do encontro foi a importância de se ter na presidência do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) um nome que tinha alinhamento com o Governo Federal.

O Cade era importante também porque poderia intervir sobre uma negociação de fornecimento do gás natural da Bolívia ao Brasil, que era um monopólio da Petrobras. Joesley gostaria de quebrar esse monopólio e receber uma parte do combustível para usar na termelétrica de Cuiabá, que é operada pela Empresa Produtora de Energia (EPE), pertencente ao grupo JBS. O empresário chega a afirmar na delação que já tinha um contrato com os bolivianos.

Lana Motta

Joesley diz que dinheiro da térmica de Cuiabá garantiria planilha de propina a Eduardo Cunha e doleiro

A questão era relevante para ele porque, segundo relata, o não funcionamento da planta de energia poderia lhe gerar um prejuízo de até R$ 3 milhões por dia. 

Caso o deputado Rocha Loures conseguisse intermediar a questão, a propina repassada para ele seria de 5% da produção energética da termelétrica. Joesley diz ao MPF que tentou surpreender o parlamentar afirmando que o saldo total da propina poderia chegar a R$ 3 ou R$ 4 bilhões, já que os repasses seriam pagos durante 25 anos, e que a termelétrica valia US$ 1 bilhão. 

Defesa

Nessa quinta (18), o Cade negou, por meio de nota, qualquer tipo de influência de Joesley para beneficiar a EPE. Para isso, o órgão citou como exemplo o fato de que a denúncia feita pela JBS dizendo que a Petrobras estaria se recusando a fornecer gás natural à termelétrica cuiabana caminha em ritmo normal.

“A EPE solicitou ao Cade a condenação da Petrobras por conduta anticompetitiva e requereu que, até a avaliação final do pedido, o Cade adotasse medida preventiva contra a representada, obrigando a Petrobras a, imediatamente, cessar a suposta infração”, diz trecho da nota. 

Ainda conforme a resposta, a área técnica da superintendência-geral do Conselho recomendou a instauração de procedimento preparatório e, posteriormente, de inquérito administrativo, procedimentos padrão para apurar as denúncias.

 “Note-se que o Cade não deferiu a instauração, no caso, de processo administrativo, procedimento mais avançado que inaugura acusação formal contra uma empresa denunciada, após serem reconhecidos indícios robustos de infração”, diz outro trecho.

O Cade ainda destacou que a empresa pediu medida preventiva seis vezes, mas que não foi deferido pelo Conselho e que não houve qualquer parecer ou decisão em favor da EPE.