Cuiabá, 09/10/2026

Quase 70 anos depois da 1ª eleita, mulheres ainda são minoria na AL - veja cronologia

De Oliva Enciso às deputadas eleitas em 2026, trajetória feminina na política mato-grossense é marcada por avanços, desigualdades e barreiras para chegar ao poder

Quase 70 anos depois da eleição de Oliva Enciso, primeira mulher a conquistar uma cadeira na Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT), a presença feminina ainda é pequena no Parlamento estadual. A partir de 2027, Samantha do Abilio (PL) e Alessandra Ferreira (Podemos) ocuparão duas das 24 vagas da Casa, enquanto os homens seguirão como ampla maioria.

O número, entretanto, é superior ao da atual legislatura, que teve apenas Janaina Riva (MDB) eleita para um mandato titular. Outras mulheres também passaram pela Assembleia durante o período, por meio da convocação de suplentes. Entre os marcos está a posse de Eliane Xunakalo (PT), primeira mulher indígena a assumir uma cadeira na história da ALMT.

Eleita em 1958, Oliva Enciso chegou à Assembleia para a 4ª Legislatura, entre 1959 e 1963, quando Mato Grosso ainda não havia sido dividido. Professora, ela atuou na educação e na assistência social e também foi vereadora de Campo Grande.

Helder Faria

Oliva Enciso (à esquerda) - 4ª Legislatura (1959-1963).

A presença das mulheres na política mato-grossense, porém, começou a se desenhar antes disso. Segundo a historiadora Dejenana Keila Oliveira Campos, a participação institucional feminina ganhou espaço nas décadas de 1920 e 1930, influenciada pelo movimento nacional pelo sufrágio feminino. Em Mato Grosso, organizações de mulheres, a educação e a imprensa contribuíram para ampliar a presença feminina na vida pública.

A conquista do direito ao voto, contudo, não significou acesso imediato aos cargos eletivos. Dejenana aponta que a estrutura política estadual foi historicamente marcada pelo coronelismo, pelas relações familiares e por uma organização patriarcal. Enquanto a participação dos homens na política era tratada como algo natural, as mulheres precisaram construir reconhecimento público por outros caminhos, como a educação, a escrita e a atuação social.

Diferentes caminhos

Ao longo das décadas, as mulheres chegaram à política por diferentes trajetórias. Dejenana aponta que, em Mato Grosso, uma das portas de entrada foi o capital político familiar, com candidaturas construídas a partir da trajetória de pais, maridos ou outros homens da família. Educação, movimentos sociais e sindicais, atuação profissional e mandatos municipais também se consolidaram como caminhos para a vida pública.

A ex-deputada estadual Vera Araújo, a Verinha, construiu uma trajetória ligada à educação e ao movimento sindical. Professora e dirigente do Sindicato dos Trabalhadores no Ensino Público de Mato Grosso (Sintep-MT), foi eleita vereadora de Cuiabá em 2000 e, dois anos depois, conquistou uma cadeira na ALMT, sendo a única mulher entre os 24 deputados estaduais eleitos naquele pleito.

Helder Faria

Vera Araújo

Verinha relata que ocupar um espaço predominantemente masculino significava conviver com cobranças sobre sua capacidade. “Se você faz essa opção, essa decisão de disputar o poder, você tem que provar que você dá conta, que você é competente. Senão eles vêm, dizem: ‘Ah, não deu conta porque é mulher’”, afirma.

Mãe de três filhos, ela também se preocupava com a possibilidade de problemas familiares serem associados à decisão de entrar na política. “Eu sempre me preocupei muito com isso, porque eu percebo que, quando a mulher faz essa disputa de poder, ela acaba carregando com ela essa culpa de que nada dê errado com seus filhos, com a sua casa, com a sua família. Porque, se alguma coisa dá errado, ela vai ser culpada porque saiu para o espaço público”, relata.

Mesmo dividindo os cuidados com os filhos e as tarefas domésticas com o companheiro, Verinha afirma que a preocupação permanecia. “Quando a mulher faz essa opção de sair para disputa do espaço de poder, ela acaba sendo responsabilizada duplamente”, acrescenta.

Da candidatura à permanência

A cientista política Christiany Fonseca avalia que a maioria feminina no eleitorado não se traduz automaticamente em presença equivalente nos espaços de representação. O caminho até o mandato envolve acesso aos partidos, recursos de campanha, redes políticas, apoio e condições efetivas de competição. “É preciso conseguir entrar, competir, vencer e depois permanecer na política”, resume.

Para Christiany, analisar apenas o número de candidaturas não é suficiente. Estar registrada na disputa não significa necessariamente ser tratada pelo partido como uma candidatura prioritária e competitiva. A divisão das responsabilidades de cuidado, a disponibilidade de tempo e as redes construídas ao longo da trajetória também interferem nesse processo.

Nas eleições gerais de 2026, as mulheres corresponderam a 34% das candidaturas registradas em Mato Grosso, mesmo percentual de 2022. Entre as 24 cadeiras da próxima legislatura estadual, duas serão ocupadas por mulheres.

A eleição de Samantha do Abilio e Alessandra Ferreira ocorre 16 anos depois do último pleito em que duas mulheres foram eleitas simultaneamente para mandatos titulares na ALMT. Em 2010, Luciane Bezerra e Teté Bezerra foram escolhidas para a 17ª Legislatura, entre 2011 e 2015.

Quase sete décadas depois da eleição de Oliva Enciso, a chegada de Samantha e Alessandra acrescenta um novo capítulo a uma trajetória marcada pela ampliação das formas de participação feminina e pela permanência de obstáculos ao acesso das mulheres aos espaços de poder e à sua permanência neles. (Com Assessoria)

Mulheres que ocuparam cadeiras na ALMT

4ª Legislatura (1959–1963)
Oliva Enciso

9ª Legislatura (1979–1983)
Sarita Baracat

11ª Legislatura (1987–1991)
Thaís Bérgo Duarte Barbosa

12ª, 13ª e 14ª Legislaturas (1991–2003)
Serys Slhessarenko

12ª Legislatura (1991–1995)
Malba Varjão — suplente

13ª Legislatura (1995–1999)
Zilda Pereira Leite — suplente

15ª Legislatura (2003–2007)
Vera Lúcia Araújo
Ana Carla Muniz

16ª Legislatura (2007–2011)
Chica Nunes
Vilma Moreira — suplente

17ª Legislatura (2011–2015)
Luciane Bezerra
Teté Bezerra

18ª, 19ª e 20ª Legislaturas (2015-2027)

Janaina Riva

20ª Legislatura (2023–2027)

Marildes Ferreira — suplente
Profa. Graciele — suplente
Valdeníria Dutra — suplente
Sheila Klener — suplente
Sandy de Paula — suplente
Priscila Dourado — suplente
Edna Sampaio — suplente
Eliane Xunakalo — suplente e primeira mulher indígena a assumir temporariamente uma cadeira na história da ALMT.

*Os períodos indicados correspondem às legislaturas, não necessariamente ao tempo de exercício de cada parlamentar.