Cuiabá, 18/09/2026

Carnificina no CV levou à dissidência de grupo e crescimento do PCC em MT

Investigação da Polícia Civil apontou líderes do PCC no Estado e suas atribuições para garantir expansão de território

Imagem Ilustrativa

A indignação de um grupo dissidente com o número de execuções de companheiros do Comando Vermelho foi o que levou ao crescimento do número de faccionados do Primeiro Comando da Capital (PCC) em Mato Grosso. Atualmente, dados extraoficiais apontam que o PCC tem aproximadamente cinco mil faccionados no Estado.

Investigações que embasaram a Operação Kraken, deflagrada pela Polícia Civil em julho deste ano, apontam que membros descontentes com a violência do CV contra os seus próprios integrantes foram os primeiros a buscarem o apoio do PCC no Estado. De olho no gerenciamento do tráfico de drogas na região de Cáceres (a 220 km de Cuiabá), o grupo dissidente deu início à eliminação sistemática dos membros da facção rival.

"Apenas no primeiro semestre do ano de 2022, entre consumados e tentados, a cidade de Cáceres registrou 49 homicídios, a grande maioria decorrente da guerra de facções, e ainda a apreensão de 56 armas de fogo (dados oficiais da Secretaria de Segurança Pública de Mato Grosso)", salienta trecho do inquérito da PJC, ao qual o #rdnews teve acesso.

Arte: Rodinei Crescêncio/Rdnews

As investigações identificaram que Igor Oliveira de Campos, conhecido pela alcunha de "Iraque", é quem exerceria o comando estadual do PCC. Sob ele, encontram-se duas lideranças: Leandro da Silva Bernardes, vulgo 4E20, apontado como chefe da facção em Cáceres, e Antônio Duarte Rosa, o "Meio Crânio", identificado como comandante do PCC em Mirassol d'Oeste (a 296 km da Capital).

O grupo, conforme apontam as investigações, tem como meta executar o maior número de faccionados do CV na região.

"Pelos diálogos das partes, ficou evidenciado que todos que estão no grupo são membros ativos do PCC, e sob a liderança de Iraque a nível de estado e de Antônio Duarte Rosa, vulgo 'Meio Crânio' em Mirassol D'Oeste pretendem dominar a cidade, bem como matar o máximo possível de integrantes do Comando Vermelho", salienta o documento.

O comando de Iraque

Dados da investigação apontam que a extensão do braço do PCC não se limita a Mato Grosso, tendo um grupo responsável pela facção na Bolívia, comando do qual inclusive Iraque faria parte. Para provar esse ponto, em um trecho do inquérito é ressaltado o momento em que 4E20 pede autorização para levar uma pistola para o Brasil.

"Leandro pede para que 'Iraque' consiga que o PCC autorize ele a trazer a pistola 'PT' da 'família' para o Estado de Mato Grosso, argumentando que utilizaria a arma de fogo como 'ferramenta' para 'levantar terminal', terminologia utilizada para referir-se a matar alguém, bem como para a proteção deles", diz trecho da investigação.

A Polícia Civil descobriu ainda que a Iraque é dado poder de recrutar novos membros. Uma das ligações interceptadas ao longo das investigações mostra o suposto líder estadual questionando se há algum candidato a membro para ser cadastrado como "disciplina" em Mirassol. Além disso ele teria o poder de decidir acerca as demandas feitas pelos demais faccionados.

“Assim, resumidamente, Igor tem o poder de recrutar novos membros para a facção, autorizar o cometimento de crimes, ordenar o cometimento de crimes, além de decidir acerca de requerimentos formulados pelos demais membros principalmente sobre o fornecimento de armas, munições e drogas pela facção”, diz trecho do inquérito.

Ficou evidenciado que todos que estão no grupo são membros ativos do PCC, e sob a liderança de Iraque a nível de estado e de Antônio Duarte Rosa, vulgo 'Meio Crânio' em Mirassol D'Oeste pretendem dominar a cidade, bem como matar o máximo possível de integrantes do Comando Vermelho

Trecho do inquérito da PJC

PCC em Cáceres

Líder do PCC em Cáceres, segundo a Polícia, Leandro, o 4E20, está atualmente preso em Várzea Grande. O que, salienta o documento, não impede que ele continue disparando ordens aos faccionados. "[...] É notório que contraventores da lei, em especial os em posição de lideranca, exercem suas funçoes de dentro da cadeia, por meio de aparelhos celulares e cartas escritas à mão", pontua o documento.

A Polícia Civil ressalta que Leandro está no mundo do crime desde 2014, quando praticou o crime de furto qualificado em uma clínica em que estava internado em Chapada dos Guimarães (a 65 km de Cuiabá). Ele possui um longo histórico criminal e se declara membro batizado do PCC desde 2018. Naquele ano, aliás, estava preso na Cadeia Pública de Campo Novo dos Parecis e participou de uma rebelião com dezenas de outros detentos, todos do PCC.

Na ocasião os detentos organizaram um motim, ferindo diversos outros presos e tinham como principal reivindicação a transferência de todos os faccionados do PCC para o agora Complexo Penitenciário Ahmenon Lemon Dantas (antigo Capão Grande), em Várzea Grande, unidade que é apontada como "exclusiva" para recolher membros do PCC.

Popularmente conhecido como o recrutador para o PCC, entre suas atribuições está o envio do estatuto da facção aos novos membros - os batizados são inclusive apontados na investigação como os seus "afilhados". Ele também mantém contato com as altas lideranças da facção e tem o poder de requerer o envio de valores pelo PCC.

"Resumidamente, Leandro tem o poder de recrutar novos membros para a facção, autorizar o cometimento de crimes, ordenar o cometimento de crimes, além de poder pleitear recursos do alto escalão da organização criminosa", destaca trecho do inquérito.

PCC em Mirassol e adjacências

Apontado pela Polícia Civil como o líder do PCC em Mirassol D'Oeste, Antônio estende sua liderança para a Cáceres e municípios vizinhos. Hoje, está preso no antigo Capão Grande, em Várzea Grande, assim como o colega Leandro. 

A investigação aponta que, dentre as suas funções estabelecidas na facção, estão o compartilhamento de pedidos de compras para armas e munições, controle do tráfico de drogas, ordenação e execução de homicídios, planejamento de roubos e recrutamento e "batismo" de novos membros.

O inquérito salienta que os investigadores "receberam informações de pessoas que não quiseram se identificar por medo de represálias, que os integrantes da organização continuam praticando crimes de dentro dos presídios, atuando como líderes e dando ordens para integrantes em liberdade executar membros da facção rival e controlar o tráfico da região".

Operação Kraken

A Operação Kraken foi deflagrada no final de julho passado pela Polícia Civil de Cáceres. Na ocasião, R$ 1 milhão do PCC em Mato Grosso foi bloqueado judicialmente. Liderada pelo delegado Marlon Nogueira, a operação cumpriu oito mandados de buscas em celas do presídio do antigo Capão Grande, em Várzea Grande. 

Conforme a Polícia Civil, foram expedidos 21 mandados de prisão, 36 de busca e apreensão, 22 de quebras de sigilo de dados, três de sigilo fiscal, três de sigilo financeiro, além de três ordens de bloqueio de valores e três de sequestro de bens.