Cuiabá, 15/10/2026

Familiares choram, lembram de como souberam das mortes e pedem justiça

Rodinei Crescêncio

Comunidade de indígenas bolivianos, chiquitanos, chamada de San José de La Frontera, localizada em San Matías, Bolívia, e local onde as vítimas moravam

O impacto das mortes dos 4 chiquitanos - Arsino Sunbre García, 53 anos, Pablo Pedraza, 38, Yona Pedraza Tosube, 26, e Ezequiel Pedraza Tosube, 18 - nos membros das famílias que moram na comunidade San José de La Frontera, em San Matías, na Bolívia, é profundo. A reportagem do #rdnews esteve na localidade que abriga pelo menos 10 famílias bolivianas e está localizada bem próxima à fronteira de Mato Grosso com o país vizinho.

O local é berço de nascimento das vítimas bolivianas mortas com 29 tiros em um suposto confronto com policiais de Mato Grosso. Seis meses após o episódio, os militares continuam trabalhando normalmente e o inquérito ainda está em andamento.

Cada uma das viúvas sofre à sua maneira. Ao conversar com Meire Pedrosa Choré, 48, Fábiola Blanco Oliveira, 22, e Cristiane Martine Ramos, 23 , rodeadas dos filhos órfãos, sogros, tias avós e até bisavôs, é nítido que o luto é uma realidade mais que cruel em San Matías, cidade boliviana fronteiriça a Cáceres (a 248 km de Cuiabá), local onde moram há mais de 50 anos.

Veja imagem aérea da comunidade San José de La Frontera

Um dos maiores pedidos destes familiares é saber o que de fato aconteceu em 11 de agosto de 2020, considerada a terça-feira negra para comunidade chiquitana.

Apenas os cães de guarda Preto, Piloto, Pretinho, Chocolate e Bela, cachorros vira-latas que sempre acompanhavam o grupo em caças, presenciaram o crime, mas estes não podem falar.

O suposto confronto envolveu os sargentos Anderson dos Santos Mello, de 39 anos, e José Silvio Cardoso de Oliveira, além dos soldados Cristiano Kozen, 32, e Marcos Aurélio Espindola Pereira, 35, que fazem parte do Grupo Especial de Fronteira (Gefron), onde por pelo menos 9 anos, Meire, viúva de Arcino, trabalhou como serviços gerais.

Como a notícia chegou

Rodinei Crescêncio

Meire Choré, 48, viúva de Arcino, trabalhou 9 anos de serviços gerais em posto do Gefron

Com cinco filhos e seis netos, Meire conta que o marido gostava de caçar e que isso aumentou ainda mais durante a pandemia. Diz que antes Arcino trabalhava na região instalando cercas, pois ele tinha motosserras; limpava pastos; e roçava áreas. Com isso, ganhava diárias em reais.

A mesma coisa acontecia com ela, que trabalhava como serviços gerais no posto Corixinha, situado na fronteira do Brasil com a Bolívia, por este motivo conhece a maioria dos policiais que passam pelo local quando estão em escala de serviço.

“Conhecia a maioria. Muitas vezes chegam agentes da Polícia Federal, do Gefron, Força Tática e até chegava de vir (sic) a Militar, a Rotam. Todo tipo de polícia chegava aí (posto policial). Trabalhei por 9 anos. Mas não sei se conheço os policiais envolvidos, porque neste dia eu não estava lá trabalhando. Pois trabalhava 15 dias e os outros 15 dias era a minha nora. Mas, eles não chegaram aqui no posto. Porque quem estava aqui neste posto (Corixinha) não estava sabendo. Esse foi o problema”, conta.

Meire detalha que a notícia da morte não chegou rapidamente, a comunidade só tomou ciência no dia seguinte, 12 de agosto. Porém, a demora no retorno do grupo preocupou familiares. Segundo eles, os chiquitanos costumavam sair às 13h para caçar e às 17h já estavam de volta. Mas dessa vez isso não aconteceu.

“Quando foi no outro dia, eu liguei para meu filho que estava lá em Cáceres, falando que o pai não tinha voltado da caçada. Ele foi lá (IML) e achou eles mortos”, disse.

A peregrinação da família começou com um dos filhos de Arcino e uma das irmãs de Yona, que estavam em Cáceres. As famílias na comunidade não sabiam do paradeiro dos quatro que saíram para caçar.

“Eu liguei para meu filho que estava lá em Cáceres, falando que o pai não tinha voltado da caçada. Ele foi lá (IML) e achou eles mortos”

Meire, viúva de Arcino

Quem primeiro soube e viu os corpos destruídos foi o filho de Arcino. Ele e a prima buscaram informações na cidade. Mas foi o rapaz quem falou com uma conhecida do IML, que relatou que no local tinham dado entrada quatro bolivianos que chegaram mortos no Hospital Regional.

Ele entrou, abriram as gavetas e ele viu o pai. Perguntaram a ele: Esse é o seu pai? O filho somente respondeu que sim e pediu para ver os outros corpos e confirmou que os tios e primos estavam mortos. Depois disso, restou ligar para a irmã e contar a notícia. Do outro lado da linha, somente recebeu a resposta: “não fala isso”. Depois, gritos e choro.

Simultaneamente o pai de Ezequiel (18 anos), João Pedraza Choré, que estava trabalhando em uma propriedade rural da região, pois é tratorista e dormiu no trabalho, foi avisado. “O gerente da fazenda onde eu trabalho veio e me falou: Sinto muito aconteceu uma tragédia com seu filho”, lembra.

O gerente ajudou o pai de Ezequiel a ir para Cáceres. Quando ele chegou lá, precisou reconhecer o corpo do filho. Conforme seu relato, não teve tempo nem mesmo para chorar, pois precisou lidar com a liberação do corpo do jovem.

“O gerente da fazenda onde eu trabalho veio e me falou: Sinto muito aconteceu uma tragédia com seu filho”

João Pedraza, pai de Ezequiel

No dia seguinte ao crime, também teve de dar seu depoimento na Delegacia de Fronteira (Defron). Na sua narrativa à polícia, que tem apenas 21 linhas, disse que o filho que havia completado 18 anos, tinha saído no dia anterior para pescar com o tio e primos, mas que nunca teve conhecimento de que eles estivessem fazendo algo de errado.

Um dos maiores questionamentos dos familiares e traduzido em palavras pelo pai de Yona, José Pedraza Choré, é que se de fato eles estavam fazendo algo errado, porque não os levaram presos.

“Levassem presos, ou batido neles e mandassem vir embora. Onde estão aquela arma - calibre 22-, onde está a foice, onde está o facão (materiais levado com o grupo na caça)”, conta.

Rodinei Crescêncio

Fábiola Blanco,22, perdeu o marido Yona Pedraza, seu primeiro namorado, segundo ela

Ele lembra os últimos instantes com o filho, antes dele sair para caçar. Mas diz que quando Yona saiu, ficou triste. Que ele tinha comido pouco.

Enquanto isso, Fabiola que se casou Yona, seu primeiro namorado, viu o mundo desabar. Com a casa ainda em construção, o marido tinha ido caçar com esperança de encontrar um porco do mato para comemorar o aniversário do filho caçula. Ele fez 1 anos. Ela afirma que contar para os filhos (de 6, 3 e 1 ano) foi a coisa mais difícil.

“Para mim está sendo muito difícil, porque eles perguntam todos os dias pelo pai. Quando ele estava aqui, era ele quem me ajudava com eles. Estava trabalhando para fazer a nossa casa. Mas não terminou. Como vou fazer com três filhos? ”, questiona.

Já a Cristiane recebeu o #rdnews de forma firme e levou a reportagem até o cemitério onde o esposo Pablo está enterrado. Se lembrou como o conheceu e contou um pouco dessa história. “Foi em uma festa. Ele me viu e logo foi pedir para os meus pais para namorarmos. Hoje temos o Paulo, de 8 anos”, diz.

Rodinei Crescêncio

Cristiane Martine Ramos, 23, ao lado do filho de 8 anos, Paulo, que agora cria sozinha

No dia, se recorda tímida que o marido pediu para ela que queria caçar, pois o sobrinho tinha o convidado. Ele veio e pediu para mim ir para casa da irmã dele. Me arrumei e fui esperar. 

"E ele nunca mais voltou da casa. Eu e minha cunhada ficamos a noite toda esperando eles. E nunca mais chegaram. Só voltaram os cachorros”, conta.

Ela detalha que não teve forças para contar ao filho que o pai tinha morrido.  “Veio o tio dele logo cedo e contou que o pai dele estava morto. E ele ficou chorando”.

“ A única coisa que queremos é justiça. Que os filhos não cresçam achando que os pais eram traficas, mulas como eles dizem”.

Até hoje nenhum dos familiares das vítimas foi ouvido pela polícia de Cáceres.

Galeria: Comunidade de chiquitanos na Bolívia