Vídeo mostra visita inesperada de policiais e testemunhas denunciam suposta coação
Rodinei Crescêncio
“Depois que aconteceu o crime na fronteira, o Gefron começou a me perseguir. Esta semana veio e ameaçou até de morte, de bater. Invadiu até o sítio e tenho as filmagens aqui. Não sei o que eu faço mais. E agora me disseram que se me pegar na estrada vão me bater e fazer eu falar as coisas, sendo que eu não sei de coisa nenhuma”. Os relatos são de testemunhas que denunciam o comportamento dos policiais que atuam na fronteira depois que a reportagem do #rdnews esteve em propriedades próximas à fazenda onde ocorreu o suposto confronto entre policiais e quatro indígenas bolivianos da etnia Chiquitano.
O enfrentamento entre os militares de Mato Grosso e moradores do país vizinho ocorreu em 11 de agosto de 2020 e culminou na morte do grupo de chiquitanos. A juíza de direito Helícia Vitti Lourenço, de Cáceres, classificou o ocorrido como um “suposto crime de homicídio”.
A Rede de Proteção aos Direitos Humanos da Fronteira Brasil-Bolívia em Mato Grosso já denunciou ao Ministério Público Federal (MPF) as ameaças sofridas por pessoas que têm alguma informação sobre fatos envolvendo as mortes de Arsino Sunbre García, de 53 anos, Pablo Pedraza, 38, Yona Pedraza Tosube, 26, e Ezequiel Pedraza Tosube, 18. A organização solicitou ainda a habilitação da denúncia no inquérito da Polícia Federal, que corre sob sigilo.
No total, a rede é composta por 10 órgãos diferentes. Entre eles, a Defensoria Pública da União, o Conselho Nacional de Direitos Humanos, a Comissão de Direitos Humanos da 3ª Subseção da OAB-MT e a Ouvidoria Geral de Polícia do Estado de Mato Grosso.
Visita inesperada
De acordo com relatos e filmagem de câmeras de segurança, que o #rdnews teve acesso com exclusividade, os supostos agentes do Gefron têm aparecido constantemente em propriedades rurais de pessoas que colaboram com as investigações da Polícia Civil.
As imagens mostram quatro homens uniformizados entrando em uma fazenda que fica a poucos metros da área em que os chiquitanos foram mortos. Ao adentrar, os supostos militares são “recepcionados” por dois cachorros. Eles caminham tranquilamente até a casa da chácara. O caso ocorreu no dia 5 de fevereiro, uma sexta-feira.
Veja as imagens
É possível ainda ver nas imagens que um dos homens vai na frente, seguido do segundo e o terceiro, o quarto aparece mais distante, próximo à porteira. Todos fortemente armados.
Em seguida, uma outra filmagem mostra três supostos policiais no terreno da casa. Enquanto um sai da área da residência, um segundo também se afasta e o terceiro aponta os dedos, gesticula e fala com o dono do sítio.
Não é possível ouvir o conteúdo do diálogo, mas ele continua se aproximando do proprietário da área rural. Em dado momento, chega a apontar em direção à porteira da chácara, enquanto um homem de camisa vermelha acompanha um dos ditos militares para fora do alcance da câmera.
Incômodo
Conforme o depoimento do padre Aloir Pacini, que acompanha e estuda os povos chiquitanos, as testemunhas do caso incomodam, principalmente aquelas que ainda não foram ouvidas pela Polícia Civil. Isso porque os relatos delas divergem da versão apresentada pelos policiais no boletim de ocorrência.
Um dos principais pontos de divergência refere-se aos tiros. Testemunhas, que estavam em propriedades vizinhas à fazenda onde ocorreu o crime, revelam ter ouvido vários disparos no local em três momentos distintos após a abordagem dos policiais, no intervalo entre às 12h e 17h do dia 11 de agosto.
Os chiquitanos foram mortos dentro da Fazenda São Luiz, que fica a 10 km da comunidade San José de La Frontera, em San Matías, na Bolívia. Eles receberam 29 tiros, sendo 27 de fuzil e outros dois de pistola.
Rodinei Crescêncio
Uma outra questão apontada por testemunhas em seus relatos é que a ação policial, que culminou na morte de quatro indígenas bolivianos, contou com a presença de um número maior de militares do que o descrito no BO.
“Não eram só quatro. Tinham entre quatro e cinco viaturas do Gefron no local”, disse uma pessoa que pediu para não ser identificada, por medo.