Cuiabá, 15/10/2026

Para voltar a ser Capital da Uva, Primavera testa variedade sem semente e mais doce

Embrapa

Cachos de uva BRS Vitória, variedade de mesa sem semente desenvolvida e testada por pesquisadores da Embrapa

Primavera do Leste tem potencial para retomar o título de Capital da Uva, mas os viticultores dizem não acreditar que a cidade volte a produzir uva como há 20 anos. Isso porque a falta de mão de obra especializada ainda é escassa.

Em relação às variedades de uva cultiváveis na região, o problema já foi superado. Além da Niágara Rosada, cultivada nos quatro parreirais que sobraram na região, duas novas variedades - a BRS Vitória e a BRS Isis - estão sendo testadas em Primavera e deverão ganhar mais espaço de cultivo já no próximo ano.

Com coloração preta, a BRS Vitória é uma variedade de uva de mesa sem semente que foi desenvolvida por pesquisadores da Embrapa Uva e Vinho, de Bento Gonçalves (RS), em conjunto com o campo experimental da Embrapa de Jales (SP), de onde vieram as mudas que já estão sendo testadas em Primavera do Leste.

De acordo com o engenheiro agrônomo João Dimas Garcia Maia, que coordenou o desenvolvimento das pesquisas que resultaram nas uvas BRS Vitória e BRS Isis, as duas qualidades de uva que estão sendo testadas em Mato Grosso possuem diversas vantagens em relação às uvas da família Itália e em relação à Niágara.

Nas duas variedades, a produtividade média pode chegar a 25 toneladas por hectare, o dobro da alcançada com a Niágara atualmente, e a cultivar foi adaptada para regiões tropicais. De acordo com o pesquisador, as duas variedades adaptadas para clima seco possuem maior resistência ao míldio, que é a principal doença que atinge as videiras. O míldio causa um fungo em baixo das folhas e a queda dos cachos.

Com a tolerância à doença, as variedades de BRS chegam a ter um custo de produção até 50% menor com fungicidas, se comparadas com a Niágara Rosada ou com as uvas da família Itália. Fator positivo em comum nessas 3 variedades é a vantagem em relação à mão de obra. Parreirais com uvas BRS ou Niágara precisam de apenas um trabalhador por hectare, enquanto que a uva Itália precisa de quatro trabalhadores nessa mesma área de produção.

Uva mais doce

Maia explica que outra vantagem que a RBS Vitória possui é elevado teor de Brix – açúcar/ doçura – que se situa em 22º, em uma escala que varia entre zero e 32º. O teor desenvolvido na BRS Vitória é o maior entre as 25 variedades de mesa e para suco mais cultivadas no Brasil. Nas demais variedades, esse indicador de açúcar se situa em 17º.

Mário Okamura

Para o viticultor Itacir Gatti, 61, a uva sem semente deverá marcar uma nova fase para sua produção em Primavera

Para o viticultor Itacir Gatti, 61, a uva sem semente deverá marcar uma nova fase para sua produção. Nos próximos dois anos, o parreiral será ampliado em 1,6 hectares, com a cultivar BRS Vitória.

O engenheiro da Embrapa explica que, para se começar uma produção de uva, o investimento necessário varia entre R$ 80 e R$ 100 mil por hectare. Isso porque é necessário fazer a correção do solo, abertura de sulcos, estruturação das parreiras, aquisição das mudas e implantação do sistema de irrigação.

Alguns detalhes são importantes para se iniciar a produção, como por exemplo, comprar as mudas de viveiros credenciados e licenciados pela Embrapa, cujo valor por muda é de R$ 6. Maia ressalta que os riscos de se comprar mudas de locais não credenciados, é que as mudas podem vir com viroses que causam danos ao parreiral, como a perda do vigor da planta, má formação dos cachos, queda na produtividade e queda na qualidade dos frutos.

Cumprir os passos corretos de implantação de um parreiral é fundamental para se obter as vantagens de preço ao consumidor das uvas BRS Vitória e Isis. A primeira pode ser até 70% mais cara, no preço de venda, em comparação com a Niágara Rosada, enquanto que a BRS Isis pode ser até 30% mais cara nessa mesma comparação.

Sistema de Produção

Itacir também implantará na nova área produtiva o sistema “Y”, no qual as videiras crescem no arame esticado sobre uma estrutura de madeira em formato de “Y”. De acordo com o viticultor, essa forma de produção é 50% mais econômica que no sistema latada, no qual os arames onde se espalham as ramas da videira ficam no formato de varal.

Entre as desvantagens do sistema Y está a queda na produtividade, que chega a ser de 20% menor se comparada ao rendimento no sistema latada. “Mas a vantagem é que na hora da colheita, os cachos ficam na altura ideal, dando menos trabalho”, explica Itacir.

Assessoria

Engenheiro agrônomo João Dimas Garcia Maia coordenou desenvolvimento das pesquisas que resultaram nas uvas BRS Vitória e BRS Isis, testadas em MT

 Produtividade

De acordo com Itacir, a produtividade da uva depende muito de como a videira é tratada. O tempo de vida útil da planta é de 25 anos. Um hectare pode começar produzindo em torno de 10 toneladas de uva e chegar a 25 toneladas, em função do tratamento que se dá à planta.

Entre os cuidados que as videiras exigem está a poda correta, a adubação adequada e o cuidado para não estressar a planta, com manuseio que force a videira a produzir mais do que sua capacidade. Querer que um parreiral, em um hectare, por exemplo, produza 25 toneladas de uva com apenas dois anos de idade, é considerado algo que pode causar estresse nas plantas.

Outra forma de estresse na videira é quando a irrigação acontece de forma incorreta. No parreiral de Itacir, o sistema de irrigação é totalmente calculado. Cada conjunto com quatro fileiras de videira recebe a irrigação adequada e, em tempos separados, de acordo com a fase pós-poda.

Para isso, Itacir conta com a água que extrai de um poço artesiano e que enche uma caixa de 20 mil litros. Para o próximo ano, quando começará a expandir o parreiral por mais 1,6 hectare, Itacir contará com a água de uma nascente que possui na propriedade, já que o poço artesiano não conseguirá abastecer toda a demanda da fazenda. Além de uva, Itacir produz mamão, figo e laranja, entre outros tipos de frutas.