PARREIRAIS NO CERRADO

Terça-Feira, 22 de Maio de 2018, 08h:22 | Atualizado: 22/05/2018, 09h:16

Primavera perde título de Capital da Uva e 4 parreirais sobrevivem ao tempo quadro


Enviado especial a Primavera do Leste

Mário Okamura

gr�fico cronologia da produ��o de uva em Primavera

Cronologia da produção de uva mostra declínio e perspectiva de retomar cultura para atender mercado em MT

A planície no meio do Cerrado hoje é tomada por lavouras de soja e milho. Mas entre os produtos cultivados nas terras de Primavera do Leste (a 230 km de Cuiabá), a produção de uva já ocupou grande espaço.

A cidade chegou a ser reconhecida como Capital da Uva em Mato Grosso, mas o título não conseguiu ser sustentado. As adversidades causadas pela falta de mão de obra especializada e sequência de escolhas erradas precipitaram o fim de um ciclo que durou pouco tempo.

O produtor rural Líbero Favarin, 60 anos, está há 35 anos em Mato Grosso, vindo de Foz de Iguaçu (PR). Ele relata que o pai, Mário Favarin, falecido há dois anos, começou a plantar uva em Primavera do Leste em 1994. A primeira produção ocorreu dois anos depois, em 1996.

Em apenas 3 anos após o primeiro plantio, já em 1997, Primavera do Leste conta com 44 parreirais. Era de perder de vista a cultura que ocupava cerca de 100 hectares da região. Mas nem tudo eram flores... ou uvas... Favarin aponta que a mão de obra especializada era escassa. A dificuldade se impõe e o desânimo toma conta dos pequenos produtores. Aos poucos vão se acabando as plantações. Em 2004, restam cinco parreirais. 

A luta persiste. Quatorze anos mais tarde, a vontade de produzir ainda desafia tempo, clima, cansaço e se sustenta em quatro plantações de videiras que se mantêm produtivas e resistem às adversidades.

Vinho

Entre as diversas testadas pelos produtores de uva, chamados viticultores, as variedades Vitória, Patrícia e Isabel, classificadas como uva de mesa, chegaram a ser produzidas e transformadas em vinho em Primavera. A vinícola Goellner & Goellner, que surgiu em 2002, chegou a produzir 20 mil litros de vinho em 2006. A vinícola, que havia começado suas atividades vinificando uvas de mesa, passou a cultivar espécies mais nobres como a cabernet sauvignon, tannat e chardonnay. À época, a iniciativa ganhou as manchetes dos veículos de comunicação locais e nacionais. Afinal, até então, a produção de vinho no Cerrado era praticamente impensável, principalmente por causa da hostilidade provocada pelas altas temperaturas e o clima seco.

Mario Okamura

uvas - parreiral Primavera do Leste

Cacho de uva da variedade Niágara Rosada, em estágio de maturação, cultivada em parreirais de Primavera do Leste 

Relatos colhidos pela reportagem do na cidade apontam que a produção de vinho foi interrompida porque a proprietária da vinícola ficou impossibilitada de dar continuidade ao empreendimento por motivo de doença. O fato coincide com o começo do declínio da produção de uva em Primavera, a partir de 2007.

Declínio

O status de “Capital da Uva” virou memória do período no qual a cidade cultivou 100 hectares de parreirais com diversas espécies de uvas. Hoje, a estimativa é de que apenas oito hectares sejam cultivados com a espécie Niágara Rosada, classificada como uva de mesa.

Com uma média de produção de 25 toneladas por parreiral, Primavera produziu, em 2017, cerca de 100 toneladas da Niágara rosada. O produto é transformado em suco ou consumido in natura.

Vindo de Santa Catarina, o produtor rural Itacir Antônio Gatti, 61 anos, chegou na cidade há sete anos. Ele havia sido convidado para trabalhar na plantação de uma das famílias que cultivam uva na cidade. Nascido e criado em meio às videiras, Itacir é técnico agrícola habilitado no cultivo de uvas.

Ao chegar à propriedade de Alcebi João Soldera, 60 anos, cita que encontrou as parreiras em estado degradante. Os varais feitos de arame liso, apoiados sobre uma estrutura de madeira, estavam todos caídos. As condições climáticas haviam enferrujado os arames, que servem de sustento às ramas da videira que espalham os cachos de uva sobre o meticuloso varal.

Itacir relata que teve que empenhar um árduo trabalho até conseguir colocar em pé o parreiral, de modo que pudesse novamente dar frutos. Dos sete anos trabalhando para fazer o a plantação ser produtiva, apenas nos últimos dois a rentabilidade cresceu a ponto de tornar o negócio novamente atrativo.

Imediatismo

Ao longo dos cerca de 20 anos de produção de uva em Primavera, alguns percalços transformaram os parreirais em locais abandonados. Os produtores rurais, que nos anos de 1990 enxergavam a uva como fonte de oportunidades, começaram a perder interesse pela produção da fruta, que exige árduo e contínuo cuidado para não fragilizar a videira.

“O grande problema é que os produtores rurais acabam sendo muito imediatistas. Essa é uma realidade em Mato Grosso motivada pelas plantações de soja e milho, que apresentam um lucro mais imediato, por ter um período de produção mais rápido”, explica Itacir.

Mário Okamura

consumo de suco de uva dos parreirais de Primavera do leste

Uvas frescas colhidas são lavadas para posterior venda ao consumidor local e visitantes em Primavera do Leste 

Outro fator que prejudicou a produção de uva foi a falta de mão de obra especializada. Itacir conta que até hoje tem dificuldades de encontrar pessoas aptas para o trabalho de cultivo e manutenção da videira.

Acima de tudo, esse trabalhador precisa ter olhar e mãos treinados para fazer uma poda precisa, um enxerto correto e a colheita manual, sem danos aos cachos ou à planta. “Eu cuido sozinho dos cinco mil pés de videira que cultivo na fazenda. Apenas em período de colheita é que contrato mais um funcionário para auxiliar nos serviços de transporte”, detalha.

Por volta de 1997, quando a produção de uva ficou mais intensa em Primavera do Leste, Itacir relata que também houve escolhas erradas em relação à variedade de uva que foi cultivada. À época, os viticultores apostaram na Uva Red Globe que, apesar de possuir elevado teor de açúcar e coloração roxa que atrai qualquer apaixonado pela fruta, não se adaptou bem às condições hostis do Cerrado e acabou ficando menos doce do que as uvas produzidas na região Sul do país. Perdeu, com isso, competitividade.

Ciclo

A uva mato-grossense é produzida entre julho e dezembro, períodos mais secos e quentes, nos quais a Niágara se adaptou bem. O técnico agrícola, Luiz Antônio Mugnol, 39, que trabalha no parreiral de Líbero, explica que é possível produzir uva em todos os meses do ano em Mato Grosso. Para isso, no entanto, é preciso que o parreiral tenha uma estufa, que garanta o clima ideal para as videiras e proteja do excesso de umidade durante o período de chuva dos primeiros meses do ano.

Outra peculiaridade da Niágara é a produtividade média de 12,5 toneladas por hectare que geraram as 100 toneladas de uva no ano passado. O preço médio do kg da uva foi vendido a cinco reais, gerando uma receita bruta de aproximadamente R$ 500 mil na região, conforme estimam os produtores rurais.

Mario Okamura

uvas - parreiral Primavera do Leste

Em 1997, chamada Capital da Uva, Primavera do Leste tinha 44 parreirais e era de perder de vista a cultura que ocupava cerca de 100 hectares da região

No parreiral de Itacir, as 25 toneladas renderam R$ 120 mil de receita em 2017. Cerca de 40% desse valor ou R$ 48 mil serviram para custear o parreiral. De acordo com o produtor rural, pelo menos R$ 14,4 mil ou 30% desse custo foram aplicados em mão de obra e a diferença em gastos com defensivos agrícolas e fertilizantes.

Mas a produtividade também pode ser controlada, dependendo da poda que deve ser realizada entre abril e maio. No parreiral de Itacir, o sistema é dividido em etapas. Cada semana, ele realiza a poda de quatro carreiras do parreiral, de modo que a planta passa a obedecer um ciclo de produção contínuo e em etapas, na medida em que cresce e produz.

E 60 dias após a poda, começa a formação dos cachos da uva. Mais dois meses são necessários para o crescimento, quando os cachos chegam a dobrar de tamanho e amadurecem. A colheita é feita de forma manual.

Galeria de Fotos

Credito: Mário Okamura
Vinho tinto seco produzido na Cantina da Uva
Credito: Mário Okamura
Com média de 25 t por parreiral, Primavera produziu em 2017, cerca de 100 toneladas da Niágara rosada
Credito: Mário Okamura
“Cantina da Uva” inaugurada há 18 anos em Primavera do Leste
Credito: Mário Okamura
Estátua homenageia produtor na “Cantina da Uva” em Primavera do Leste
Credito: Mario Okamura
Uva mato-grossense é produzida entre julho e dezembro, períodos mais secos e quentes
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Em 1997, Primavera do Leste contava com 44 parreirais
Credito: Mario Okamura
Uvas produzidas em parreirais de Primavera do leste
Credito: Mario Okamura
Falta de mão de obra especializada prejudicou a produção de uva em Primavera do Leste

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