Cidades

Quarta-Feira, 01 de Maio de 2019, 07h:58 | Atualizado: 01/05/2019, 07h:59

CAMPO MINADO

Trabalhador rural vive sob constante risco com novo governo, diz ativista de pastoral

CONFLITOS RURAIS

Faixa em caminhada-protesto de trabalhadores rurais aponta que em 2018 28 mil pessoas foram atingidas pela violência e conflitos do campo em MT

O trabalhador rural da baixada cuiabana é idoso, tem baixo nível de escolaridade e envelheceu no campo. Já aqueles que vivem em assentamentos no interior do Estado são jovens de 18 a 35 anos, que buscam iniciar ou recomeçar a vida por meio de produções rurais. As informações constam em levantamento da Pastoral da Terra em Mato Grosso.

É o fenômeno do retorno ao campo (...) Essa volta ao campo acontece por falta de oportunidades na cidade, em razão do aumento no número de desemprego

Elizabete Flores, ativista da CPT

O perfil do trabalhador rural foi sofrendo modificações ao longo dos anos. “Houve mudanças, por exemplo, na forma de produzir, pela chegada de novos equipamentos. Percebemos também uma mudança forte na retomada da agroecologia, que é uma forma de respeito ao meio ambiente, utilizando sementes crioulas e sem agrotóxicos”, explica Elizabete Flores, coordenadora da Pastoral da Terra no Estado.

“Hoje, assentados e pequenos produtores rurais de Mato Grosso têm se preocupado com a preservação do cerrado, que é a caixa d’água do Brasil”, completa.

Segundo Elizabete, não é possível traçar um perfil homogêneo do novo homem do campo. “Em comum, podemos perceber a baixa escolaridade, tanto nas comunidades tradicionais como nos assentamentos”, diz. Ela explica que em assentamentos da região Sul ou Norte, há mais pessoas jovens. “É o fenômeno do retorno ao campo”, explica.

“Essa volta ao campo acontece por falta de oportunidades na cidade, em razão do aumento no número de desemprego”, justifica a ativista.

Em Mato Grosso, conforme levantamento de movimentos sociais, em 2017 havia 96 novas famílias em acampamentos, em busca de terra. No ano passado, o número de famílias saltou para 474. “Esse avanço de assentados cresceu por conta da miséria nas cidades”, diz Elizabete.

Uma das características que tem sido observadas por estudiosos é a constante presença de famílias com forte presença feminina. “Temos várias mulheres, sozinhas ou com crianças, em assentamentos, sem a presença da figura masculina. Comumente, elas foram abandonadas ou decidiram deixar uma vida na qual eram vítimas de violência”.

Assentamentos

Os grupos que buscam terra esperam que a Justiça Federal entregue a eles propriedades da União, que estão em desuso. “Essa retomada das terras depende de uma decisão judicial e também do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Só depois é que existe uma dinâmica de divisão de terra das famílias na região”, pontua Bete, como é conhecida a ativista.

No ano passado, ela conta que um acampamento teve início com oito famílias. Em menos de um mês, mais de 70 famílias já estavam no local. “Eles têm uma ânsia para conquistar terras, em razão das dificuldades em que vivem”, relata. Em contrapartida ao aumento daqueles que buscam terra, os casos de reforma agrária têm sido cada vez mais raros.

Conforme o atlas de conflitos no campo, da Pastoral da Terra, divulgado em abril, o número de famílias despejadas por ordem judicial cresceu de 336 em 2017 para 633 no ano passado. Um número que chama a atenção é que foram registrados quatro casos de famílias expulsas por jagunços há dois anos, enquanto o número subiu para 550 em 2018.

“Isso mostra que todo contexto da campanha eleitoral passada fez com que fazendeiros se sentissem livres para exercer arbitrariedade de expulsar famílias sem ordem judicial”, relata Bete.

Casos envolvendo pistolagem, segundo o levantamento da pastoral, também aumentaram. Em 2017, 578 famílias foram alvos do crime. No ano seguinte, o número dobrou: foram 1.174 famílias. “Essa dimensão da violência contra a ocupação e posse demonstra que o ano passado foi muito violento. E agora, o que nos espera em 2019?”, questiona.

Entre os conflitos no campo em todo o Brasil no ano passado, 49% ocorreram na Amazônia Legal, região da floresta amazônica que envolve parte de Mato Grosso, além dos estados Acre, Amapá, Pará, Amazonas, Rondônia, Roraima, Tocantins e Maranhão. “Esse número da Amazônia Legal reflete a realidade de violência em Mato Grosso”.

CONFLITOS RURAIS

Na madrugada de 5 de janeiro, assentado é morto em confronto com seguranças na fazenda de ex-deputado Riva 

Mato Grosso começou o ano com o título infeliz de primeiro Estado em que houve morte no campo em 2019. O fato aconteceu na madrugada de cinco de janeiro, quando um assentado foi morto em um confronto com seguranças de uma propriedade rural do ex-deputado José Riva, em Colniza (a 1006 km de Cuiabá). Além dele, outras nove pessoas ficaram feridas no conflito agrário.

O Governo Bolsonaro

Os trabalhadores rurais buscam sobreviver em meio a um período tido como um dos mais complicados desde a redemocratização, em 1985, conforme as entidades que representam a categoria. O maior temor da categoria é o presidente Jair Bolsonaro (PSL), inimigo declarado de movimentos sociais.

Uma das proposições do presidente é isentar punição a proprietário rural que atirar em pessoas que invadirem suas terras. A medida é considerada por ativistas como uma forma de legalizar assassinatos de ativistas no campo.

“A gente não espera desse governo atual. Não aguardamos nenhuma sensibilidade ou que ele olhe para o povo do campo, a não ser olhar para incentivar o ódio e a violência. São momentos difíceis, mas a gente percebe no povo uma esperança”, acrescenta a ativista.

Bete cita que uma das maiores dificuldades enfrentadas no ambiente rural do Estado é a possível extinção da Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo, analisada pela gestão Bolsonaro. Isso porque Mato Grosso sempre figura entre uma das regiões com mais casos de trabalho escravo.

“Isso impacta no trabalho no campo e no trabalho escravo. Dentro dessa realidade, também não podemos esquecer que há milhares de trabalhadores escravos em todo o Brasil”, declara.

Sobre quais medidas devem ser tomadas pelos movimentos sociais para tentar reduzir os impactos de decisões de Bolsonaro, Bete é enfática. “Para este momento, não há outro caminho a não ser pela organização e resistência, na terra ou luta pela permanência nela. O povo camponês sempre resistiu até hoje e vai continuar resistindo”.

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Comentários (1)

  • Hélio Augusto Gomes | Quarta-Feira, 01 de Maio de 2019, 08h55
    2
    4

    Minha solidariedade com Pastoral da Terra, com perfil sustentável e bença Mãe Terra!

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