Cidades

Domingo, 16 de Fevereiro de 2020, 14h:43 | Atualizado: 17/02/2020, 07h:48

SOFRIMENTO EMOCIONAL

Em 3 anos, mais de 7,7 mil professores não aguentam pressão e pedem licença

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Professores com depressão e outros transtornos emocionais recorrem à licença para fazer tratamentos: rotina de muita pressão e dificuldades estruturais

A frustração com a sala de aula em uma escola da rede pública fez com que a professora Maria Conceição, de 33 anos, pedisse afastamento do trabalho por 4 meses em 2019. Há apenas um ano no cargo passou a enfrentar crises de choro, tristeza sem explicação, falta de disposição para levantar da cama e tonturas graves. O diagnóstico, como o psiquiatra viria a lhe dizer, seria o mesmo mau que boa parte dos profissionais da educação enfrentam nos dias de hoje: ansiedade, síndrome do pânico e o início de uma depressão.

Maria Conceição, que é um nome fictício para preservar a identidade dela, está entre 7.759 professores afastados nos últimos três anos em todo o Estado em sofrimento emocional.

Segundo dados da Secretaria de Planejamento e Gestão (Seplag), são maioria os casos de transtornos mentais e comportamentais. Houve aumento no número de laudos emitidos de 29,8%, em 2015, para 33,3% em 2018 para profissionais da educação básica; já da superior, a porcentagem saltou de 30,8% para 35,2%.

Rodinei Crescêncio

Quadro professores licenças afastamentos

Triste relato

“Não achei positivo o afastamento. Preferiria estar com minha saúde ‘ok’, trabalhando e produzindo, do que de licença e minha saúde péssima. Eu, com problemas emocionais aos 30 anos de idade? Não tinha motivos para estar com esses problemas, mas a realidade na qual estou inserida não me trouxe outra opção”, comenta.

Vivia à sombra do medo. Você não sabe o que as pessoas podem fazer contra você

Professora que pediu afastamento - não quis se identificar

Ao entrar na rede pública, em meados de 2018, ela enfrentou resistência da direção e demais servidores por ser efetiva. Isto porque, para dar aula na escola, tiveram que demitir uma outra professora contratada que trabalhou anos por lá. “Existe toda essa situação de que você está tomando o lugar de alguém. No primeiro momento, profissionais não falavam comigo e estou saindo sem falarem comigo até hoje”.

Depois disso, o relacionameno com os demais servidores, principalmente a direção, segundo ela, era marcado por embates e discussões. Como exemplo, cita que chaves de salas não lhes eram entregues e o acesso a espaços lhe era dificultado, como as bibliotecas. Nesses conflitos, disse que sempre aparecia uma ou outra ameaça velada, do tipo para “tomar cuidado com que fala ou faz porque está em estágio probatório”.

“Não aceitei determinados tipos de tratamento. Mas sempre saía da escola muito nervosa, passava dia mal pelos desgastes e discussões. Vivia à sombra do medo. Você não sabe o que as pessoas podem fazer contra você", assegura.

Na escola onde ela trabalha não tem estrutura para executar o que planeja, o que gera frustração. Enfrenta também o desinteresse dos alunos, que são indisciplinados, têm a consciência de que não serão reprovados, pois somente é necessária a presença e não a avaliação, além da falta de preocupação das famílias em acompanhá-los ou apoiá-los.

“O menor problema da escola pública, hoje, é o professor”, sentencia.

Maria compara sua atuação na rede pública com os dez anos que passou na rede privada, passando por colégios de elite e classe alta na Capital. Disse que nunca pediu afastamento neste período. Conta também que, nas particulares, tinha suporte para aulas e apoio pedagógico. Por isso, não tem dúvidas de que os embates com a direção, a falta de estrutura e o desinteresse dos alunos é que lhe levaram a ter os problemas emocionais.

Após lhe conceder o laudo para licença remunerada, o psiquiatra indicou remédios para tontura e sono, que deveriam ter sido tomados apenas no período do afastamento, mas ela continua com eles até hoje. Recomendou também atividade física e, hoje, Maria corre, pedala e faz muay thai (luta tailandesa). Mesmo após a época em que ficou afastada, sente tristeza e angústia, além de comentar que vai mudar de escola no ano letivo de 2020 por conta do mau relacionamento com a direção.

“Psiquiatra falou que é o mau dos professores da rede pública. Entram com muita vontade de fazer, mas existe uma série de fatores que não nos possibilitam trabalhar como gostaríamos. Não estou do mesmo jeito que antes, quando entrei na escola. Eu ainda luto contra a depressão. Não é todo dia que estou bem”.

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Número de afastamentos é maior para professoras de 41 a 50 anos

Mulheres da faixa etária entre 41 e 50 anos são maioria entre professores afastados por transtornos mentais, os chamados CID-F, segundo os dados da Seplag.

No total, contando com homens, 2.744 profissionais se afastaram em 2019 por este motivo. Em 2018, foram 2.535 casos.

Segundo a Seplag, o número representa uma redução por conta do chamamento de novos professores aprovados em concurso público. O que aumentou o número de efetivos mais jovens e com menos de tempo trabalho e que, consequentemente, sofrem menos por doenças ou seqüelas do trabalho.

Seplag ressalta que, não passam pela perícia médica, os servidores com licença médica até 3 dias. “Logo, não foram contabilizados no relatório. Um mesmo servidor pode aparecer ao longo dos anos com cargos diferentes, sendo, dessa forma, contabilizado mais de uma vez quando no detalhamento por ano, até mesmo dentro do próprio ano”, explica a Assessoria da pasta.

Outro lado

Em entrevista exclusiva ao , em dezembro de 2019, a secretária de Educação Marioneide Kliemaschewsk disse que o Governo não tem dado conta de atender todos os casos como gostaria. “A área de recursos humanos tem feito alguns trabalhos, mas é muito incipiente pela logística do Estado e pelo número de servidores que têm”.

Com base na sua experiência como professora e diretora de escola pública, atribui a “vida muito atribulada” do ser humano como gatilho do problema. Entre os principais pontapés para os transtornos mentais estão as dívidas. “Comecei a verificar que uma grande parte dos servidores, com quem eu trabalhava, estava endividado. Aquilo estava os desestimulando ao trabalho e, ao mesmo tempo, estava deixando-os irritados, porque, podiam estar ganhando razoavelmente bem, mas era o pior salário. Descontavam em tudo e todos”.

Pontua que tem investido em programas de qualidade de vida, dando assistência, palestras e formações. Aponta também que tem buscado parcerias com instituições de saúde, como os CAPSI. Disse que casos envolvendo alcoolismo ou uso de drogas é chamada família do servidor.

Informa ainda que existe um programa de atenção à saúde mental, composto por uma equipe multiprofissional de psicólogos, assistente sociais e enfermeiros, nas escolas onde apresentam o maior índice de afastamento por doenças mentais. O objetivo deles é identificar os principais fatores no ambiente de trabalho que estejam provocando mal-estar ou sofrimento. Com isso, pode-se propor intervenções para redução ou eliminação do problema.

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Comentários (8)

  • antonio da silva | Segunda-Feira, 17 de Fevereiro de 2020, 08h33
    1
    15

    Tudo malandragem para não trabalhar, tem uns que pega atestado problemas na coluna que não pode nem andar, anda com dificuldade, na escola mais todo final de semana não perde uma pelada, corre o campo todo.

  • Helwecio lopes | Domingo, 16 de Fevereiro de 2020, 21h54
    6
    0

    https://forms.gle/7fGVKLEBzSBRd4BP7 Pesquisa sobre síndrome de burnout Copie e cole o link para responder.

  • Helwecio Lopes | Domingo, 16 de Fevereiro de 2020, 18h02
    7
    1

    Estou realizando uma pesquisa referente ao assunto. Mais especificamente sobre a síndrome de burnout. O link pode ser acessado no SIGEDUCA na funcionalidade do GED da própria SEDUC. Os dados serão tratados apenas pelo pesquisador do Instituto de educação da UFMT. Sigilo absoluto na participação. Ou ainda pode ser acessado pelo link https://forms.gle/7fGVKLEBzSBRd4BP7 Somente para professores da rede pública estadual de Mato Grosso. Grato https://forms.gle/7fGVKLEBzSBRd4BP7

  • Helwecio lopes | Domingo, 16 de Fevereiro de 2020, 17h57
    4
    0

    Ajudem-me a divulgar o link https://forms.gle/7fGVKLEBzSBRd4BP7 Pesquisa referente a síndrome de burnout em professores da rede estadual de educação de Mato Grosso. Pesquisa de mestrado pelo instituto de educação da UFMT

  • Márcia | Domingo, 16 de Fevereiro de 2020, 17h31
    4
    16

    Afastamento para licença para tratamento de saúde não deveria ser contada para fins de aposentadoria, pois se evitaria muita malandragem, principalmente esses atestado psiquiátricos. É muito subjetivo. Vc vai no médico diz que está sem dormir, pensamentos ruins, etc, pronto. Isso já ouvi uma secretária de escola contar.

  • Júlia | Domingo, 16 de Fevereiro de 2020, 17h28
    12
    7

    Tem uma professora da rede estadual de Cáceres que tem o costume de pegar atestado e ir pro litoral, posta até fotos no Facebook. Acho que falta maior fiscalização.

  • Davi | Domingo, 16 de Fevereiro de 2020, 17h26
    9
    12

    É muito fácil ir a um psiquiatra e alegar problemas. A maioria só pega o atestado, nem toma os remédios porque não têm nada. Os servidores da Educação precisavam ter previdência própria porque o excesso de afastamentos provoca um desequilíbrio na previdência de todos os servidores públicos. Nem a polícia militar que atua diretamente contra a criminalidade, acompanha desastres, mortes no trânsito possui índices semelhantes. Outro detalhe, se a pessoa não se adaptou ao árduo trabalho do magistério deve ter a boa-fé de pedir exoneração e buscar outro meio de vida.

  • Junior | Domingo, 16 de Fevereiro de 2020, 15h15
    14
    13

    Resultado de anos e anos da Pátria educadora onde se ensinou que a autoridade é do aluno, que bate no professor, é reprovado e os pais vão tirar satisfação com o professor e não com o seu filho. Ou seja, educação esquerdista de ensinar foi isso, tira a autoridade do professor, ensina ideologias, sexo em vez matemática, português e faz do aluno um pequeno revolucionário que não respeita mais a escola, quebram e picham tudo. Parabéns esquerda e sindicatos voces conseguiram. Acabaram com a educação brasileira.

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