Em 2022, 565 pessoas morreram e outras 7.268 sofreram alguma lesão corporal em acidente de trânsito em Mato Grosso, uma média de 2 mortes e 20 acidentes com lesões culposas a cada 24 horas. Entre os 141 municípios, Cuiabá foi a cidade que mais registrou casos, com 76 mortes e 2.300 vítimas de lesões, conforme levantamento da Secretaria de Segurança Público (Sesp-MT). Para o titular da Delegacia de Delitos de Trânsito de Cuiabá (Deletran), Christian Alessandro Cabral, os acidentes graves estão ligados ao abuso de velocidade e embriaguez.
“A diferença entre os acidentes que acarretarão somente danos materiais e os que causam lesividade e/ou letalidade aos indivíduos envolvidos está associada, em especial, à questão da velocidade associada à embriaguez. Quanto maior a velocidade, maiores são os danos e consequências físicas”, alerta o chefe da Deletran.
Embora 2022 tenha registrado menos casos de mortes em comparação ao ano de 2021, época em que o estado contabilizou 574 óbitos, Christian Cabral alerta que problema estrutural do crescimento desproporcional de condutores em relação ao desenvolvimento das vias urbanas reflete diretamente na manutenção dos números elevados de ocorrências.
“Quanto maior a velocidade, maiores são os danos e consequências físicas”
Christian Cabral, titular da DeletranSegundo o delegado, as frotas de veículos nas cidades crescem a cada ano. Em paralelo, as empresas se especializam em equipamentos de segurança. Entretanto, a falta de estrutura viária continua sendo uma das causas principais de acidentes cotidianamente.
“Os ambientes viários não crescem na mesma proporção. A cada ano você tem mais veículos e mais pessoas ocupando espaços cada vez menores, porque as vias, quando crescem, são em proporções menores, e esses espaços ficam sufocados”, explica.
Ao encontro do que ressalta o titular da Deletran, os dados da Sesp-MT apontam que os índices mais elevados de ocorrências são justamente nas cidades mais populosas do estado, de acordo com Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), sendo elas Cuiabá, Várzea Grande e Rondonópolis.
Depois da Capital, o município com maior número de casos é Rondonópolis (a 218 km de Cuiabá), com 63 óbitos e 840 registros de lesões culposas de trânsito. Seguido por Várzea Grande, com 54 ocorrências de mortes e 733 lesões.
Carros e motos lideram casos
Ainda considerando o levantamento da Sesp-MT, automóveis (9.110 casos), motocicletas (7.076 casos) e caminhonetes (4.565 casos) são os veículos que mais aparecem na identificação dos acidentes.
Das três cidades destacadas, somente em Cuiabá os acidentes incluindo carros são mais frequentes do que as ocorrências envolvendo motos: foram 1.700 casos envolvendo automóveis e 1.323 com motocicletas. Já em Várzea Grande e Rondonópolis, o cenário muda. Enquanto a Cidade Industrial registrou 763 acidentes com motos e 754 com carros, na cidade mais ao Sul do estado foram 774 envolvendo carros e 517 ocorrências com automóveis.
“Hoje é muito comum encontrar uma pessoa que cometeu infrações graves de trânsito que não foi punida, e isso contribui para a falta de consciência da população”
Christian Cabral, titular da DeletranDe acordo com o chefe da Deletran, muitas pessoas assumem a direção sem possuir Carteira Nacional de Habilitação (CNH). Geralmente esse grupo escolhe a motocicleta pelo valor de compra e custo de manutenção. Uma combinação perigosa que aumenta as chances de acidentes fatais.
“O número de condutores não habilitados ainda é muito alto, principalmente na Capital. E esse número tem uma proporção muito maior em condutores de veículos de duas rodas, embora esse seja um fenômeno encontrado em todos os veículos. E acredito que um dos motivos é o alto custo do processo para um condutor se tornar habilitado”, destaca o Christian Cabral.
Considerando pesquisa realizada pela reportagem, ao somar taxas do Departamento de Trânsito (Detran) e custo de autoescola, uma pessoa em Cuiabá, investe cerca de R$ 2,5 mil para ter direito à CNH com autorização para conduzir moto, na categoria A, e aproximadamente R$ 3 mil na habilitação para carro, na categoria B.
“Para as pessoas que vão fazer uso de veículos de duas rodas, o processo de habilitação tem um custo muito significativo, inclusive se comparado ao custo do próprio veículo. E aí a pessoa acaba escolhendo ter o veículo do que direcionar o valor para o processo de formação para ser um condutor. E essa é uma questão social que tem que ser enfrentada”, detalha o delegado.
Sensação de impunidade e falta de consciência
Ao relatar a rotina das Blitz de Lei Seca, o chefe da Deletran também ressalta a falta de conscientização dos condutores sobre suas responsabilidades no trânsito. “Mesmo com quase 8 anos de Operação, a gente observa que os números não têm significativas melhoras, são quase que estanques. Embora sejam aplicadas multas e medidas administrativas, o condutor embriagado trafegando em alta velocidade considera que seu comportamento é socialmente aceito, mesmo oferecendo risco à vida da população”, frisa.
O delegado também explica que os órgãos responsáveis pela aplicação de penalidade sobre os crimes de trânsito enfrentam uma demanda burocrática elevada, com pouco tempo para execução. Logística, que muitas vezes, não consegue ser realizada e resulta na impunidade de determinadas infrações.
“Hoje é muito comum encontrar uma pessoa que cometeu infrações graves de trânsito que não foi punida, e isso contribui para a falta de consciência da população. Até porque uma das formas de mudar comportamento é a repressão, e quando essa repressão não acontece e paralelamente existem ações de educação muito tímidas, as pessoas acabam permanecendo no ciclo vicioso de comportamento irregular”, conclui Cabral.
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