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ECONOMIA Sábado, 10 de Outubro de 2026, 16:03 - A | A

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INSTABILIDADE CLIMÁTICA

El Niño ameaça lavouras, mas adesão ao seguro rural segue baixa em MT

Fenômeno ameaça a janela de semeadura da soja no Centro-Oeste com estiagem severa; nova legislação busca blindar verbas federais de subvenção

Leticia Avalos

Diante da instabilidade provocada pelo El Niño e os riscos para o agronegócio mato-grossense, o seguro rural surge como uma estratégia financeira para assegurar parte da produtividade das lavouras e resguardar os produtores de dívidas. No entanto, mesmo com a ocorrência cada vez mais frequente de fenômenos climáticos com potencial destrutivo para o setor, a adesão a esse tipo de mecanismo ainda é baixa em Mato Grosso.

Marcos Vergueiro - Secom/MT

safra de soja plantio semadura lavoura

Dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) mostram que, até setembro deste ano, apenas 90 produtores haviam sido atendidos pelo Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) no estado — política pública que arca com parte dos custos de contratação do seguro para atividades agrícolas. No período, foram contratadas 99 apólices, que cobriram 15,7 mil hectares.

A baixa cobertura ganha relevância diante da perspectiva de um novo período de forte instabilidade climática. Na região Centro-Oeste, o El Niño costuma provocar estiagem, calor intenso e aumento do risco de incêndios florestais. A escassez hídrica durante a janela de semeadura e desenvolvimento da soja, entre outubro e janeiro, já provocou quebras de safra em anos anteriores e aumentou o endividamento de produtores rurais que, segundo o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), ainda tentam equilibrar as dívidas.

Para 2026, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), agência responsável pela medição das águas do Pacífico, projeta 97% de probabilidade de o fenômeno atingir alta intensidade até o fim do ano. A agência estima ainda uma chance de 75% de que o episódio supere a força de todos os eventos registrados desde 1950 entre outubro e dezembro, trazendo elevado potencial de destruição.

Segundo o superintendente do Imea, Cleiton Gauer, uma das razões para a baixa adesão é o custo elevado das apólices, que ainda são consideradas pouco atrativas por parte dos produtores. O cenário, conforme o especialista, também afeta a competitividade internacional dos produtos mato-grossenses.

“Nós temos uma participação muito baixa no seguro rural em Mato Grosso, os produtores são pouco adeptos. Isso até tem mudado um pouco, mas ainda está muito distante, por exemplo, dos Estados Unidos. Hoje a aplicação de recursos é infinitamente menor; nós estamos muito abaixo dos Estados Unidos, que é o nosso principal concorrente”, declarou ao .

Annie Souza

Cleiton Gauer, IMEA, Famato

O superintendente do Imea, Cleiton Gauer

Cleiton ponderou que, recentemente, os valores dos seguros têm se tornado mais adequados à realidade dos produtores de Mato Grosso. Ainda assim, a forma como as seguradoras distribuem os custos dos sinistros ocorridos em diferentes regiões do país alimenta a resistência entre agricultores do estado.

Segundo ele, produtores mato-grossenses avaliam que acabam absorvendo parte dos custos gerados por indenizações pagas na região Sul, onde eventos climáticos severos são mais frequentes.

“O produtor mato-grossense acha que paga o custo do seguro do Sul. Se fossem analisar pura e exclusivamente a realidade de Mato Grosso, essa estrutura teria um valor menor. Mas, como a probabilidade de um evento climático severo impactar o acionamento de seguros no Sul é maior, a estratégia das seguradoras para diluir esse risco é trazer um custo adicional para cá. Por isso, o agricultor daqui sente o peso de pagar essa conta”, explicou.

Para o superintendente, o avanço da cobertura também depende de uma mudança de percepção entre os produtores, que precisam incorporar o seguro como instrumento de proteção do próprio negócio.

“É uma questão de segurança e de perpetuidade do negócio, para que ele consiga atravessar esses períodos mais turbulentos”, afirmou.

Cleiton acredita que esse cenário deve mudar ao longo dos próximos anos, à medida que os agricultores se tornem mais conscientes da necessidade de proteção diante do aumento da instabilidade climática. Segundo ele, “a exposição ao risco desnecessário se torna cada vez mais prejudicial”.

O especialista também chamou a atenção para os impactos que uma quebra generalizada de safra pode provocar fora das propriedades rurais. Sem cobertura suficiente, perdas severas no campo podem atingir outros setores da economia, com reflexos sobre o comércio, a arrecadação pública e diferentes segmentos da cadeia produtiva.

Nesse contexto, Cleiton defende a implementação e a modernização de políticas públicas que estimulem a contratação do seguro rural. Para ele, ampliar mecanismos de prevenção tende a ser mais eficiente e menos oneroso aos cofres públicos do que socorrer o setor depois de períodos de crise.

Ele avaliou ainda que o seguro rural pode reduzir a necessidade de novas injeções de recursos públicos sempre que o setor enfrenta períodos de crise.

“Esse tipo de estratégia é muito mais salutar do que adotar medidas de financiamento ou injeção de recursos no setor, porque garante, realmente, a diluição de riscos em alternativas que não estão postas no dia a dia do produtor. Prevenir para não precisar remediar”, declarou.

Nova lei

Na última terça-feira (29), foi sancionada a Lei nº 15.526/2026, que estabelece novas regras para o seguro rural no Brasil. A nova legislação altera a subvenção federal ao prêmio do seguro, a regulação de sinistros, a integração das apólices às operações de crédito rural e as regras do Fundo de Catástrofe.

A legislação consolida uma conquista histórica para o setor produtivo ao blindar o PSR contra tesouradas orçamentárias. Ao classificar os recursos da subvenção ao seguro como despesa obrigatória, a medida impede que a União congele ou parcele verbas por meio de contingenciamentos e limitações de empenho.

Como contrapartida, os agricultores contemplados pela subvenção federal terão de abrir dados operacionais de suas lavouras. As informações vão abastecer um banco de dados público sob gestão do Executivo, com a finalidade de aprimorar os parâmetros técnicos do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) e, a partir de métricas mais precisas, baratear o custo das apólices no mercado.

Segundo a Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT), em 2026, o bloqueio de R$ 461,7 milhões destinados ao PSR reduziu o orçamento inicialmente previsto para o programa e reforçou a necessidade de previsibilidade na execução das verbas voltadas à política de seguro rural. Para a entidade, a regulamentação da nova legislação e a efetiva disponibilização dos recursos serão determinantes para que as mudanças se convertam em aumento na contratação de apólices pelos produtores.

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