ENTREVISTA ESPECIAL

Quinta-Feira, 25 de Julho de 2019, 12h:58 | Atualizado: 26/07/2019, 08h:05

O que eu passei não tem como apagar, diz agente inocentado por fuga de pistoleiro

Augusto Alexandre conta sobre os anos que passou até provar sua inocência na fuga de Célio Alves

Rodinei Crescêncio/Arte/Rdnews

Augusto Alexandre de Barros Santa Rita

 

O ex-agente prisional Augusto Alexandre de Barros Santa Rita, de 45 anos, condenado por dar fuga ao pistoleiro Célio Alves, viveu um inferno de 12 anos. Foi acusado, preso e exonerado do serviço público. Quando deu entrada no plantão naquele 24 de julho de 2005, na Penitenciaria Central do Estado (PCE), não imaginava que sua vida viraria um turbilhão. Célio, apontado como matador de João Arcanjo Ribeiro, escapou, após o horário de visita. Um ano e meio depois, Augusto estava preso. Em julho de 2007, exonerado. Só 4.380 dias depois conseguiu provar inocência, sendo absolvido em última instância. Não cabe mais recurso. Ao , relata lembranças cruéis de tudo que passou pela falsa acusação. Era um jovem de 27 anos, quando se sentiu “livre” pela última vez. No dia 15 deste mês, voltou a sentir a mesma sensação. A Terceira Câmara Criminal do Tribunal de Justiça, por unanimidade, acatou o recurso de Augusto e o inocentou.

Veja os principais trechos da entrevista:

Como foi e o que sentiu quando descobriu que era suspeito de ajudar na fuga do Célio Alves?

No dia do ocorrido, relatamos aos nossos superiores tudo o que tinha acontecido. A partir do momento que aconteceu, a forma como tudo ocorreu na fuga. Mas imaginávamos que passaríamos por uma investigação. Tanto nós, os agentes a trabalho, como os policiais militares que na época eram responsáveis por fazer a segurança fora do presídio. Quando ocorre uma fuga deste nível, é isso que sempre acontece. Entretanto, somente eu e mais três companheiros meus é que fomos investigados.  Dois dias depois da fuga, nós já éramos acusados de facilitar a vida do reeducando. Na sequencia, fomos afastados. No plantão seguinte, já não trabalhamos. Mas isso é de praxe para que ocorra com lisura o processo de sindicância. Ficamos à disposição da Justiça. Foi tudo muito rápido. Em um ano e dois meses passei por sindicância, Processo Administrativo Disciplinar (PAD) e demissão.

A primeira noite (na cadeia) foi muito depressiva, pois tinha passado quase oito anos trancando pessoas e de repente me vi atrás das grades

Augusto Alexandre

Como foi todo o processo?

Até a minha prisão fui ouvido duas vezes. Uma delas em sindicância, sem a presença do meu advogado. Ele atrasou e, como o presidente da sindicância, um militar, não sei por qual motivo, decidiu começar a audiência, sem respeitar meus direitos. Fui o primeiro a ser ouvido. Quando os meus colegas estavam sendo ouvidos,  meu advogado já tinha chegado e me questionou o que eu tinha falado. Respondi que apenas ratifiquei o que eu já tinha dito na delegacia. Fiquei muito revoltado pela forma como fui tratado.  Depois disso, nunca mais reencontrei o presidente da sindicância. Atualmente é tenente-coronel na PM. Dois anos depois, me ligaram perguntando onde eu estava. Quem é da área de segurança sabe como funciona. Entendi, na hora, que tinha um mandado de prisão para mim. Liguei para o meu supervisor na época que me deu emprego de segurança e contei que estavam indo me buscar. Lembro que disse a ele: estou te avisando, porque a qualquer momento podem me prender aqui. Foi o tempo de desligar o telefone, a polícia de capturas chegou. A viatura encostou no mercado em que eu estava trabalhando em Várzea Grande.

Como foram os 44 dias na Cadeia Pública de Santo Antonio do Leverger?

Foi algo muito marcante em minha vida. Mexeu muito com meu psicológico. Era muito novo, com três filhos ainda muito pequenos. Passei quase sete anos dedicados ao serviço do sistema prisional e, quando perdi o emprego, fui para o chão. No dia da prisão, no mercado onde trabalhava, fui conduzido por policias civis sem alarde. Me chamaram no canto. Chamei o gerente e informei que estava sendo preso. Não entrei em mais detalhes com ele. Depois disso me recolheram na viatura e me levaram até a delegacia, onde fui formalmente informado da minha prisão. Não me permitiram entrar em contato com ninguém, nem com a minha família ou advogado. A sorte é que já tinha avisado ao gerente onde trabalhava e ele ligou para a minha família que acionou o meu advogado, Carlos Frederick, que me representa até hoje. Fiquei preso por pelo menos 3 horas na delegacia até prenderem os outros dois colegas meus. Fomos levados para a cadeia de Santo Antônio do Leverger. Passei momentos angustiantes da minha vida lá.

Você chegou a imaginar passar por algo parecido?

Até o acontecido, sempre gozei de boa admiração pelos colegas de serviço. Sabemos que nessa carreira isso pode acontecer, mas nunca imaginei que ia acontecer com a gente. A primeira noite foi muito depressiva, pois tinha passado quase oito anos trancando pessoas e de repente me vi atrás das grades. Com a certeza de que não devia nada. Várias pessoas te acusam, pois ninguém é obrigado a ter a mesma opinião que você. Foram várias noites sem dormir. Consegui contato com a minha família 48 horas depois da prisão, quando meu advogado levou a minha esposa para me ver. Mesmo preso, meus companheiros de trabalho acreditaram em mim. Meus filhos que eram pequenos, de 8, 6 e 5 anos, foram me visitar somente uma vez. Depois, pedi à minha esposa que não fosse mais. Nunca fui muito a favor de crianças dentro de unidades prisionais.  E foi uma situação muito constrangedora, pois eram muito pequenos e não entendiam bem o que estava acontecendo. Questionaram e queria saber o motivo da prisão. O meu mais velho tinha um sonho de trabalhar na Segurança Pública, mas, ao acompanhar tudo o que passei, não quis mais.

Rodinei Crescêncio

Augusto Alexandre de Barros Santa Rita

Absolvido por suposta facilitação de fuga na PCE, Augusto Alexandre durante entrevista exclusiva à repórter Bárbara Sá, na sede do Rdnews

Como foi o recomeço?

Fiquei 44 dias preso e, quando saí, tive que recomeçar a minha vida do zero. Comecei a fazer alguns “bicos”. Não estava preparado para o que aconteceu comigo. Cheguei a trabalhar 14 horas para ganhar R$ 50 reais. Foram com esses bicos que criei meus filhos. Quando fui solto, comecei todo o processo de novo. Aproveitei que a cidade estava em amplo crescimento por conta da Copa do Mundo, então fui trabalhar nessas obras. Fiz muito trabalho braçal, de motorista, mas não conseguia nada de carteira assinada. Nesse meio tempo fui ajudando a categoria a criar o sindicato. Isso foi o combustível para que conseguisse continuar lutando para provar a minha inocência. Precisei me virar para trabalhar e sustentar meus filhos e amparar minha mãe, idosa, a passar por toda a situação. Cheguei a pensar em vários momentos que ela poderia morrer sem ver minha inocência provada. Quando começou o processo eu jurava que seria absolvido em primeira instância, mas, quando saiu a minha condenação, apesar de ter ocorrido há alguns anos atrás, mexeu mais ainda comigo do que quando fui preso. Tinha plena convicção de que seria absolvido, até por conta da maneira como foi conduzido o meu processo. Uma ação como essa, repercute muito. Creio que as pessoas se deixam levar muito pela opinião pública, porque realmente não conhecem o trabalho de um agente. Têm uma noção de que o presídio é algo intransponível, entretanto existe falhas de segurança sim, do ser humano, e de quem gere isso. Estou faando do alto escalão, governador, secretário, pois precisam investir mais na área.

Estava viajando e fora da área. Quando consegui sinal, tinha várias ligações. Quando cheguei em casa, por volta das 22h30, tinha mais de 500 mensagens no whats e a do meu advogado me informando: você foi absolvido (...) minha mãe chorou

Pretende voltar ao cargo?

O resultado da ação saiu na quarta. Estava viajando e fora da área. Quando consegui sinal, tinha várias ligações. Quando cheguei em casa, por volta das 22h30, tinha mais de 500 mensagens no Whatsapp e a do meu advogado me informando: você foi absolvido. Tinha uma mensagem da minha irmã contando que minha mãe tinha chorado muito de felicidade. Me emocionei, pois, depois todo esse tempo que passou, pude dar essa alegria para minha mãe ainda em vida. Recebi muitas mensagens me dizendo que agora vai ser tudo restituído. Mas, gente, o que eu passei não tem como apagar. Cheguei a viver dois anos com duas calças jeans, pois não podia comprar outras, pois tinha que guardar o dinheiro. Meus filhos eram pequenos e a prioridade era a alimentação deles. Agora não vejo a hora de voltar a trabalhar no cargo sim. Passei no concurso. Não vejo a hora de poder fazer os cursos que mesmo fora da ativa ajudei a categoria a conquistar. Quero fazer parte dessa história e estar junto com meus pares nesse trabalho. Lutar com eles para que muitos não passem pelo que passei. Não queremos que o Estado passe a mão na cabeça pelo erro. Mas que investiguem com idoneidade, com o direito da dúvida. Não se deixando levar pela opinião pública. Porque te digo, somente eu e meus colegas sabemos a forma como fomos tratados na condução do nosso processo de sindicância.

Foi descoberto o que realmente aconteceu durante a fuga?

Não tentaram descobrir o que houve. Apenas queriam que fizessemos uma confissão por escrito. Disseram-me que, se eu assumisse, daria para amenizar a situação. Mas aí eu pergunto: uma pessoa que está ali para investigar e faz essa fala, está mesmo com a intenção de investigar? A todo o momento o que ouvimos foi isso. Fui julgado por pessoas que nunca entraram em um presídio. Se perguntarem a elas qual a marca do cadeado usado no dia da fuga, não sabem.

Assista a outro trecho da entrevista de Augusto Alexandre:

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Comentários (7)

  • Gilmar | Sábado, 27 de Julho de 2019, 22h59
    4
    0

    Justiça foi feita. Sempre acreditei em vc, eu te rendi na segunda-feira após o ocorrido e vc tinha a expressão de um inocente. Parabéns por não ter "perdido a cabeça". Um grande abraço.

  • karlos | Sexta-Feira, 26 de Julho de 2019, 07h57
    12
    1

    deveriam agora fazer a justa justiça, punindo exemplarmente os responsáveis, iniciando desde aqueles que participaram da sindicância até o momento de sua INOCÊNCIA..........." não o conheço e nem trabalho na sua área, mais não FOLGO COM A INJUSTIÇA....boa sorte e bom recomeço pra vc e sua família.

  • Paulo lucas | Quinta-Feira, 25 de Julho de 2019, 19h06
    17
    1

    Nossa isso da um filme 🎥 👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻 Deus ele pode até demorar mais sempre é justo 🙏

  • ALDERI JOSÉ FEITOZA DA SILVEIRA | Quinta-Feira, 25 de Julho de 2019, 17h14
    16
    1

    Parabéns meu Companheiro de farda " Força e Honra" Esse é o nosso lema; que agora vc tenha uma vida de PAZ...

  • Graciliano Nascimento Filho | Quinta-Feira, 25 de Julho de 2019, 16h34
    13
    1

    Flz por vc, sua mana e familia, Augusto. Conheco-os da Escola Panarotto (CPA IV). ainda eram jovens , no ensino Fundamental. Aqui ´Biro Biro. PARABÉNS

  • Revoltante | Quinta-Feira, 25 de Julho de 2019, 14h13
    22
    2

    Cade a Corregedoria de fato. Para nossos colegas irmão agentes penitenciários serem julgados por pessoas que conhece a rotina, procedimentos e normais dentro do carcere...Nao temos corregedoria, temos uma uniscor com maos atadas, que a palavra final e da CGE...Um procurador qur nao sabe aonde fica o nariz....CORREGEDORIA PROPRIA JÁ...

  • Juliana | Quinta-Feira, 25 de Julho de 2019, 13h57
    24
    3

    Muito feliz por vc! Acompanhei os dias de luta e sei bem como é o julgamento pública. Ainda bem que a justiça foi feita!

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