PADRE NAZARENO - MARTÍRIO DO MITO

Quarta-Feira, 27 de Fevereiro de 2019, 07h:45 | Atualizado: 27/02/2019, 09h:27

BIOGRAFIA DA VÍTIMA

Da Itália a Jauru, padre se transforma em mito até ser assassinado - fotos históricas


Enviada Especial a Jauru

Arquivo Pessoal

Padre Nazareno Lanciotti

Padre Nazareno Lanciotti, com o Papa João Paulo II em MT

selo investiga��o criminal

 

Era o ano de 1983, época em que se acirraram conflitos de terra em Jauru (a 450 km de Cuiabá). Em disputa, 29,8 mil hectares, sendo 22,8 mil, em áreas devolutas, na fazenda Agropecuária Mirassol. Uma massa de famílias sem-terra, diante da urgente necessidade de sobreviver, resolveu invadir 7 mil ha. O número de posseiros cresceu, chegando a 1,1 mil pessoas, que fecharam a entrada da cidade.

Esta era a cena em Jauru no início dos anos 80. O governador do Estado à época, Julio Campos (DEM), enviou policiais militares para controlar os ânimos. Um ônibus cheio de PMs seguiu da Capital para o interior. O dono da fazenda também arrumou jagunços para defender o que julgava ser dele. A tensão aumentou.

O embate foi inevitável. Iniciou-se então um estado de guerrilha entre as partes e, no meio de tudo isso, bem na entrada da cidade, surgiu uma figura, se colocando como escudo dos sem-terra, de peito aberto. O padre Nazareno Lanciotti chegou de carro, vindo de uma celebração em área rural, desceu apressado, deixando a porta aberta e se ajoelhou no meio do tiroteio na intenção de impedir uma carnificina.

Arquivo Pessoal

Padre Nazareno Lanciotti

Envolvimento com trabalhadores rurais sem-terra seria um dos motivos de irritação de forças políticas locais com padre Nazareno

O tiroteio começou e ele ficou ali, ajoelhado e rezando. Testemunhas relatam que um sem-terra o retirou do local e, na calçada de uma casa, o padre seguiu rezando, enquanto outras autoridades da cidade conseguiram, efetivamente, garantir o cessar fogo. O saldo do embate foi quatro posseiros mortos e dois policiais militares feridos.

Parte da população jauruense aterrorizada acolheu e deu amparo a posseiros despejados.

Mais de 18 anos depois, a ocupação se consolidou como uma comunidade rural, chamada Mirassolzinho, que contribui efetivamente na base econômica do município. Mesmo que o processo de legalização das terras tenha demorado a sair, só foi possível com o apoio de Nazareno.

Este conflito marca a biografia da liderança católica, que se tornou, em mais de duas décadas de atuação, um mito na cidade, maior ainda após sua morte, com um tiro na nuca, em 22 de fevereiro de 2001.

Rodinei Crescêncio

jauru mirassolzinho

A ocupação de sem-terra, que gerou conflitos na década de 80, se consolidou, ao longo de 2 décadas, e hoje é a comunidade rural chamada Mirassolzinho

Veja vídeo



Galeria: ÁLBUM HISTÓRICO

Lar dos Idosos

Lar de Idosos, uma das obras do padre, foi fundada na década de 70 e abriga 40 hóspedes

O mito

Padre Nazareno Lanciotti nasceu na Itália e chegou no Estado na década de 70. Foi pároco da Diocese de Cáceres e passou a trabalhar na evangelização na Operação de Mato Grosso. Em seguida foi enviado para Jauru, onde fundou o Asilo “Coração Imaculado de Maria”, que abriga cerca de 40 idosos da região. Na gleba, que ajudou a estabelecer, atualmente moram mais de 60 famílias que vivem da agropecuária.

Com personalidade forte, Nazareno construiu 42 capelas na zona rural e duas na cidade. Mas foi com o Movimento Sacerdotal Mariano, o MSM, que se tornou um dos padres mais conhecidos da América Latina, considerado um moderado na institutição, com inclinações conservadoras.

O MSM se difundiu de maneira silenciosa. Em quase todas as nações da Europa, América, Ásia, África e Oceania, há responsáveis nacionais encarregados de recolher as adesões, organizar e acompanhar os cenáculos - ritual de reza de terço, de grande importância para católicos, de reverência à Nossa Senhora. Lanciotti era a referência em MT.

Nos cinco continentes, Cuiabá é a cidade com maior número de cenáculos do mundo. Desta maneira Nazareno conseguia levar milhares de pessoas da Capital até Jauru, para retiro, e assim fortalecia o MSM local.

As obras dele estão firmes, como a construção da Igreja Matriz envolta por um bosque que abriga animais. Entre os mais barulhentos, estão às araras. É de se impressionar com as construções desenvolvidas pelo missionário e o amigo pessoal de Nazareno, o sueco Vittório Fasani. A arquitetura e o paisagismo lembram a Roma antiga. Ao fundo uma arena construída para encontros de jovem parece inspirada no Coliseu. Em cada canto da cidade em que ele pôde, Nazareno colocou uma imagem de Nossa Senhora.

Rodinei Crescêncio

Igreja matriz

Igreja Matriz, idealizada e construída pelo padre Lanciotti e o amigo Vittório Fasani é envolta por bosque, com animais, e lembra construções romanas

Dia do crime

No dia 11 de fevereiro de 2001, padre Nazareno celebrou a missa da noite na Matriz, com o evangelho de Lucas, 14, 25 a 33. Falou sobre renunciar a tudo para seguir Jesus, como qualidades de um verdadeiro discípulo. “Ele disse e repetiu: pobre do homem que confia em outro homem. Este trecho é o que muitos ainda se lembram da última homilia”, memora Simone Coelho Filho, que estava com o padre no dia do atentado.

Ao fazer a homilia, mal sabia o padre que criminosos assistiam à missa e minutos depois, com um tiro na nuca, encerrariam a sua biografia.

Terminou a missa. Após a celebração, Nazareno convidou um grupo de oito pessoas - voluntários envolvidos com as questões da paróquia - para jantar na casa das irmãs, que fica exatamente ao fundo da igreja. Antes de se assentarem à mesa, ficaram conversando em uma varanda, com árvores e plantas, entre elas flores do deserto e orquídeas. Para chegar lá é necessário passar um portão, no qual só cabe uma pessoa por vez. Não é de fácil acesso.

Depois do bate-papo, entraram mais para dentro da casa paroquial, passando por anexos e chegando à terceira sala, em um espaço que conta com um quarto e uma capela.

O grupo assentou-se à mesa na seguinte ordem. Na ponta, o padre Nazareno. Na esquerda, ao seu lado, Franca Pinni - uma religiosa francesa que veio para Mato Grosso ajudá-lo na obra cristã. Além dela, o casal Isaura de Brito e Giancarlo Della Chiesa, além do médico Antônio Ferdinando Aurélio de Magalhães, que estava chegando para atuar na cidade. Do outro lado da mesa, à direita, o braço direito Jorge Moreira, Alair Davi e Simone Coelho e ainda um outro médico, Laerte Petrônio de Figueiredo.

disposi��o das pessoas a mesa

“Era por volta de 21h30, estávamos no fim do jantar, quando dois homens com capuz cor cinza escuro, camisa de manga longa e cor preta entraram. Um deles aparentava ter aproximadamente 1 m e 67 de altura, moreno escuro, vestia calça jeans nova, verde escuro, sapato kildare. Não conheço muito de arma, mas parecia que portava uma pistola cromada. Já o segundo (homem) media um pouco mais de 1 m e 70, magro, moreno claro, vestia uma calça de brim, verde-escura, sapato de camurça preto, este empunhava um revólver, cor de cobre envelhecido”, detalha Jorge, amigo pessoal do padre.

Segundo relatos das vítimas que sobreviveram ao crime, os criminosos foram, a princípio, muito educados. Pediam a todo tempo para que ninguém ficasse nervoso, garantindo que não ia acontecer nada. Pediram também que fechassem as duas janelas que dão para a rua. O médico Laerte levantou e fechou as janelas. Um dos bandidos mandou que Jorge se levantasse e o revistou. Depois, mandou assentar. Na sequência, perguntou quem era o padre. Ele respondeu e um dos bandidos disse: "Reza bonito". Comentou que assistiu à missa e depois reivindicou a chave do cofre.

O padre explicou que não existia cofre, mas eles insistiram. O padre, então, voltou atrás, confirmou a existência do compartimento, mas alegou que, anos atrás, um seminarista o abriu e fechou com a chave dentro e ninguém mais sabia a senha. Sendo assim, nunca mais foi aberto. Mas eles não acreditaram.

Enquanto um estava na porta, o outro ficou perguntando sobre o cofre. Foi então que Nazareno ofereceu um cheque de três mil reais, dinheiro este que ele tinha recebido da família que mora na Itália. Ofereceu também o carro (uma Hilux), mas não aceitaram.

“De repente o telefone celular do padre tocou, o indivíduo se posicionou atrás dele, apontando o revólver na cabeça da Franca e ameaçou: Não faça gracinha, senão acontece alguma coisa com ela. Na mesma hora, o padre disse que a linha tinha caído”, relembra Jorge.

Na sequência o bandido perguntou se algumas das pessoas que estavam jantando tinham seus quartos ali no prédio e Franca e Jorge responderam que sim. Eles então pegaram as chaves dos quartos e os revistaram, voltando novamente para a sala. “Como sabiam que um dos médicos, o doutor Laerte, morava próximo um dos bandidos pegou a chave do quarto dele, mas não conseguiu abri-lo. Ele voltou e, desta vez, o Laerte foi junto. Conseguiu roubar dele mil reais. O mais baixo, enquanto isso, ficou com a gente na sala”, detalha Jorge.

Quando voltaram, o comparsa começou a exigir mais dinheiro e ambos ficavam repetindo que eram ladrões de banco. “Então oferecemos mais 240 reais de Franca e a chave do quarto do Giancarlo, onde tinha mais 800 reais dentro do guarda-roupa. Ele foi até lá, mas não trouxe nada. Ficava insistindo que não era bandido de pequenas quantias e de forma brusca jogou o dinheiro em cima da mesa. Queria a senha. O padre levantou e pediu misericórdia, pois não sabia a senha e não ia colocar a vida dos outros em risco e que, se fosse matar ou ferir alguém, que essa pessoa fosse ele”, relata Simone.

Me lembro como se fosse hoje, o padre Nazareno disse que era um sacerdote e que não mentiria, mas o bandido se aproximou do ouvido esquerdo dele e cochichou algo em voz baixa e nós vimos a face dele palidecer. Era medo, desespero, sabe? Aí ele levou as mãos ao rosto e baixou a cabeça

Jorge Moreira, braço direito do padre

De acordo com as testemunhas, Lanciotti ofereceu o cofre inteiro para que fosse levado dentro de qualquer um dos carros e mais o cheque. Mas parecia que não era isso que eles queriam. Um deles voltou a gritar para que todos ficassem assentados e anunciou uma roleta russa. “Me lembro como se fosse hoje, o padre Nazareno disse que era um sacerdote e que não mentiria, mas o bandido se aproximou do ouvido esquerdo dele e cochichou algo em voz baixa e nós vimos a face dele palidecer. Era medo, desespero, sabe? Aí ele levou as mãos ao rosto e baixou a cabeça”, conta Jorge, emocionado.

O bandido então se afastou e falou baixo com o comparsa e começou a tirar as balas do 38. “Ele gritou: todo mundo de cabeça baixa. E iniciou por mim. Eu nem sabia o que era essa tal de roleta russa naquela época. Senti o revolver gelado na minha nuca, e pensei, morri! Mas o só ouvi um tec (sic). Depois ele foi até a Alair, que estava do meu lado esquerdo, e ouvi o mesmo barulho, mas nada.. somente o tec”, detalhou Simone.

O próximo seguindo a ordem seria o Jorge, mas eles interromperam a sequencia. “Achei que eu quem iria, mas ele deu a volta ao contrário e foi atrás do padre. O seu Laerte levantou a cabeça e eu também, pois tudo ficou em silêncio. Ele colocou a cabeça do padre de lado e atirou. O padre caiu bem devagar no colo da Franca que estava do lado dele direito e o sangue jorrou nela e nas paredes. Eles fugiram deixando o restante do dinheiro em cima da mesa".

Os bandidos fugiram descendo o bosque que cerca a igreja, sem os carros, pela avenida Marília, que anos depois ganhou o nome do Padre Nazareno.

Diante do desespero, o pessoal pegou um lençol e o levaram para o hospital, uma quadra acima e o colocaram no chão. O médico boliviano Oscar Hallens Adolfo, que ainda atua na unidade, chegou perto dele, viu que o tiro tinha atingido a quarta cervical e perguntou. “Está sentindo dor? Ele me sussurou: tô - impossibilitado de se mexer”.

Diante da ocorrência, Jorge saiu correndo do hospital, se dirigiu até o sino da Igreja Matriz e começou a tocar os sinos para avisar à população. Em poucos minutos a frente do hospital ficou lotada com pessoas de pijamas, desesperadas, enquanto o sino badalava insistentemente.

Veja vídeo

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Comentários (1)

  • Claudiana Pilar | Quinta-Feira, 28 de Fevereiro de 2019, 09h36
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    Tem umas legendas nas fotos que estão erradas

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