ARAGUAINHA - A CIDADE DO METEORO

Domingo, 11 de Novembro de 2018, 07h:40 | Atualizado: 11/11/2018, 07h:47

PERSONAGENS LOCAIS

Aos 104 anos, moradora mais velha ama a cidade e o mais novo tem apenas 2 meses

Rodinei Crescêncio

Mais velha e mais novo

Dona Olinda Ferreira tem 70 anos e o João Miguel, apenas 2 meses. São moradores de Araguainha

Há 70 anos, a aposentada Olinda Ferreira chegou a Araguainha junto com o marido. Na época, a cidade era um distrito de Ponte Branca (a 491 km de Cuiabá). Eles foram atraídos pelo garimpo da região, que reunia milhares de pessoas em busca de diamante na área dos rios Araguaia e Araguainha.

Olinda e o marido vieram da Bahia e adquiriram uma propriedade rural no então povoado. Eles começaram a trabalhar no campo, pois não obtiveram sucesso no garimpo da região. Por ali, Olinda teve os três filhos e nunca mais deixou Araguainha. O povoado virou cidade, os filhos cresceram e a idosa, hoje com 104 anos, permaneceu no lugar. Afirma que não quer sair da cidade.

Gosto de morar aqui. Sempre achei um bom lugar. Nunca mais pensei em ir embora

Olinda Ferreira, moradora mais velha e já tem 104 anos

“Gosto de morar aqui. Sempre achei um bom lugar. Nunca mais pensei em ir embora desde que cheguei”, relata ao .

Quando estava grávida da filha mais nova, atualmente com 49 anos, Olinda perdeu o marido. Segundo ela, o homem morreu de mal súbito. Desde então, passou a criar os filhos sozinha. “A minha vida foi de muito trabalho na roça. Não foi fácil, não”, diz.

Hoje, ela passa os dias em casa, cuidando das diversas galinhas que possui no quintal. Por conta do amor aos bichos, nunca mais comeu frango nem ovo. A filha garante que Olinda ama os animais, mas a idosa a contradiz. “Antes gostava das galinhas, agora não gosto mais. É um inferno, porque elas ficam me atentando. Elas chocam e depois ficam com uma ‘piação’ o dia todo”, reclama.

Rodinei Crescêncio

Especial Araguainha, a cidade do meteoro

Este é o novo papagaio da dona Olinda. Veio para substituir Louro José, que foi roubado

Em sua rotina, ela também assiste televisão e vai a médicos, para tratar da saúde quando está com alguma dificuldade. “Mas eu quase não fico doente”, assegura. Ela mora sozinha, as duas filhas moram nas proximidades, e costuma fazer trabalhos em alguns dias. “Faço tudo. Não estou fazendo mais porque as meninas aparecem. Mas quando estou sozinha, faço tudo”, conta a idosa.

Mesmo centenária, Olinda mantém o caminhar rápido desde a juventude. Para provar, ela se levanta durante a entrevista e vai em direção à cozinha. Sem tropeçar, a mulher se locomove com extrema agilidade. “Ela é muito ativa”, explica a filha caçula da idosa.

Há três anos, Olinda teve um problema no olho direito e perdeu a visão nele. “Eu estava fechando o portão e uma folha acertou o olho dela com muita força”.

Há dois anos, a idosa passou a viver um quadro de depressão, desde que roubaram o papagaio Louro José, que a acompanhava há anos. “Ele falava tudo, era meu companheiro”, conta Olinda. Os filhos levaram um novo papagaio para a idosa, mas ela não teve o mesmo carinho pelo outro animal. “Não gosto dele, não. Olha aqui o que ele fez”, diz, mostrando os machucados nos braços, feitos por bicadas do bicho.

Eleitora assídua

Em todas as eleições, Olinda faz questão de votar, mesmo que seu voto não sendo mais obrigatório. Em 2016, a idosa se indignou quando a mesária perguntou se ela teria condições de ir sozinha à urna eletrônica. “A mamãe começou a gritar e disse os números de todos os candidatos que iria votar. A mesária ficou assustada e pediu calma”, relata a filha.

Neste ano, a idosa precisou do auxílio da filha para teclar os números, mas ainda assim fez questão de ir às urnas. No primeiro turno votou no petista Fernando Haddad. No segundo turno, repetiu o voto. “Eu assisti ele na tevê. Gostei das coisas que ele falou”.

Rodinei Crescêncio

Especial Araguainha, a cidade do meteoro

Giovana Moraes, mãe do pequeno João Miguel

O mais novo morador

Em contrapartida à moradora mais velha, o pequeno João Miguel, de dois meses, é a pessoa mais nova de Araguainha. O pequeno nasceu em Mineiros (GO), cidade vizinha, pois não há maternidade na menor cidade mato-grossense.

Ele é filho da jovem Giovana Moraes, 18 anos, que também nasceu em Mineiros, apesar de morar em Araguainha desde a infância. Casada com o pai do filho, que trabalha como atendente em um mercado da cidade, a jovem não planeja se mudar de Araguainha.

Giovana tem quatro irmãos, que deixaram a cidade para trabalhar ou estudar. Em contrapartida, ela acredita que seu futuro é na cidade. “Gosto daqui. Além disso, meus pais, que são servidores da Prefeitura, não querem ir embora, porque aqui é muito tranquilo”, diz.

Acho que ele vai querer ir embora assim que tiver que fazer uma faculdade, porque aqui não tem nenhum curso superior

Giovana, mãe de João Miguel, o mais novo morador da cidade

No braço direito, a jovem possui uma tatuagem com o nome de João Miguel. Para ela, é uma forma de homenagear o filho. A gestação, segundo Giovana, não era esperada. “Eu não imaginei que fosse engravidar tão cedo, mas aconteceu. No começo, meus pais não apoiaram, mas hoje em dia me ajudam muito e amam o netinho”.

A jovem, atualmente desempregada, parou de estudar no primeiro ano do Ensino Médio e afirma que voltará à escola no ano que vem. Ao comentar sobre o futuro, ela diz que acredita que o filho não seguirá os seus passos e deverá deixar a cidade logo que concluir o ensino médio. “Acho que ele vai querer ir embora assim que tiver que fazer uma faculdade, porque aqui não tem nenhum curso superior”.

Mesmo com a possibilidade de ver o filho indo embora quando se tornar adulto, ela não cogita deixar a cidade. “Apesar de tudo, quero passar a minha vida toda em Araguainha”.

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