MÁQUINA DO CRIME

Segunda-Feira, 21 de Dezembro de 2020, 08h:25 | Atualizado: 21/12/2020, 11h:06

A HIERARQUIA

Com 10 mandamentos e hierarquia rígida, "exército" do CV cresce 1150% - conheça

Com a estrutura de uma máquina de poder paralelo, a facção criminosa Comando Vermelho conseguiu, de 2014 a 2020, elevar o número de integrantes em 1150%, chegando a 10 mil batizados. Na Operação Grená, deflagrada em 2014, eram apenas 800.

Anos se passaram e, em 2016, o Estado teve que reconhecer a existência da facção, quando os atentados, também denominados “salve geral”, ordenados de dentro dos presídios, pegaram Mato Grosso de surpresa e apavoraram a população.

Dois anos depois, em 2018, com uma operação intitulada Red Money, a segurança pública descobriu que o antes insignificante CV já era uma corporação com pelo menos 6 mil faccionados. A escalada continuou e, atualmente, este número saltou para 10 mil, conforme apurou o .

Neste cenário de crescimento, a facção mantém a hegemonia no controle de bairros e ruas em mais de 95% das cidades. Menos no Nortão, onde ainda não está bem estabelecida, uma vez que certas regiões de lá sofrem influência do rival PCC, o Primeiro Comando da Capital.

Mas, como um grupo inicialmente tão pequeno conseguiu crescer tanto e ter o domínio do tráfico de drogas em Mato Grosso e, inclusive, o controle terrestre da fronteira entre o Estado e a Bolívia?

Com uma "ética própria", o CV vem expandido negócios e, no momento, em Mato Grosso, usa de "diplomacia" para não confrontar tanto com as Forças de Segurança.

Nos últimos meses, a reportagem analisou, criteriosamente, documentos sobre esta organização criminosa, alguns deles históricos. Conversou com familiares de faccionados, integrantes deste poder paralelo e policiais para mostrar como é a estrutura do Comando Vermelho em Mato Grosso. Nacionalmente, são 136 membros detidos em presídios federais, destes 2 são oriundos do Estado - veja quadro sobre a estrutura.

Dayanne Dallicani

02 - Estrutura da Alta C�pula

 

 

Veja vídeo

 

Quando começou

O Estatuto do CV foi redigido no antigo presídio do Pascoal Ramos, a atual Penitenciária Central do Estado (PCE), em 2013. Foi a partir de julho daquele ano, que ficou proibido "batismos" em solo matogrossense de outras facções. Quem confirma isso é o promotor Lincoln Gakiya, promotor de Justiça do Gaeco de São Paulo, em entrevista à série exclusiva da UOL - PCC: Primeiro Comando da Capital.

Trecho do estatuto do Comando Vermelho

 

Com a intenção de não serem "controlados por facções paulistas e nem cariocas”, faccionados se organizaram aqui de forma independente do CV do Rio de Janeiro. A "fundação" se deu no mesmo momento da "globalização do crime", com uso expressivo de celulares, WhatsApp e outros recursos da internet. O Conselho Final foi instalado com pelo menos 14 membros da alta cúpula para que não precisassem prestar contas ao Comando no Rio de Janeiro. Consta que quatro detentos são os fundadores da filial em Mato Grosso.

documento fundação comando vermelho

Lei própria

Um conjunto de leis dita o comportamento de faccionados dentro e fora do sistema prisional. O “documento” prevê roubos, para financiar o grupo, e morte violenta aos membros que descumprirem as regras.

O estatuto diz que o conselho da organização criminosa estabelece regras cruciais para o funcionamento da mesma. No primeiro artigo, o texto traz o lema: paz, justiça e liberdade. "Apesar de todas as lutas, também somos de paz". Já o segundo artigo elenca os "cinco pilares" da facção: liberdade, respeito, luta, justiça e união.

Outra anotação registra os "10 mandamentos do Comando Vermelho". Entre as orientações estão "eliminar nossos inimigos" e "falar a verdade mesmo que custe a própria vida". Há, inclusive, semelhanças entre os “10 mandamentos” do CV e os dos cristãos - veja quais são os mandamentos.

Dayanne Dallicani

02 - 10 mandamentos da fac��o

"Ela (a facção) permite que os filiados e filiadas ganhem seus próprios recursos vendendo drogas, gerindo biqueiras ou lojinhas em troca de mensalidades. Enfim, a máquina burocrática faz essa mediação. Esta é a organização da cena do mercado do crime”, conta uma fonte, que pediu para ser mantida anonimamente.

As crises internas são resolvidas com base no que diz o estatuto e, se considerarem que houve traição, também. Dependendo do grau das faltas, são pagas com a morte. Neste último caso, entra em cena o Tribunal do Crime.

De forma leiga, o CV no Estado compra armas e fornece empréstimos como mostra diálogo entre dois integrantes feito em 3 de dezembro de 2013, quando um deles liga na PCE para pedir dinheiro. Nos dias atuais, esse mecanismo financeiro ainda funciona.

comando vermelho sandro louco

“Quando um associado quer assaltar e não tem arma, o CV oferece esse material em troca de parte do pagamento daquela empreitada. Muitas vezes, aluga a um valor fixo menor. Mas, se o indivíduo perder, vai ter que ressarcir. O CV dinamiza essa rede criminal”, explica a fonte. “Isso também acontece dentro dos presídios, quando têm batidas e celulares 'emprestados' são apreendidos. Essa dívida fica e o associado tem que arrumar um jeito de pagar”.

Estado paralelo

Além das lideranças de alto escalão, a facção ainda se divide em responsáveis regionais, municipais e por bairros. Cada filial é autônoma. Neste contexto, o grupo possui um linha direta, um disciplina de bairro, disciplina de rua, madrinha de batismos, entre outros. Assim, segue criando um outro Estado, um Estado paralelo.

Essa estrutura também ocorre dentro dos presídios. Cada raio tem o seu "disciplina", que acolhe as demandas dos filiados. Mas, para fazer a "voz" de dentro se valer do lado de fora, cada bairro, cidade do interior, tem o chamado "sintonia".  É ele quem passa as ordens de dentro dos presídios para fora deles.

Dos 27 estados, o CV possui hegemonia total apenas em Mato Grosso e no Distrito Federal. Conforme dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública do Fórum Brasileiro de Segurança de 2017, boa parte dos homicídios no Estado cometidos entre 2007 e 2017 são relacionados a facções criminosas. O que influenciou na taxa de mortes nessa década foram às punições, os famosos “salves” por não cumprimento ao estatuto do CV.

Rodinei Crescêncio

Naldson Ramos

Naldson Ramos é professor da UFMT, doutor em sociologia com foco em violência policial e segurança pública e estuda a criminalidade há mais de 30 anos

O professor da UFMT, Naldson Ramos, é doutor em sociologia com foco em violência policial, segurança pública e práticas civilizatórias. Há cerca de 30 anos ele pesquisa a criminalidade. Diz que, em Mato Grosso, a situação é diferente dos estados do Norte e Nordeste. Aqui o CV tem o controle majoritário dos presídios.

A população carcerária cresceu muito na década de 90, por conta de uma política de criminalização crescente e de segurança. Isso fez com que surgissem lideranças ligadas a facções que se organizaram de dentro das celas

Naldson Ramos

"A população carcerária cresceu muito na década de 90, por conta de uma política de criminalização crescente e de segurança. Isso fez com que surgissem lideranças ligadas a facções que se organizaram de dentro das celas. A primeira experiência foi a do Rio de Janeiro e, a partir daí, se propagou para o restante do país. Aqui em Mato Grosso foi exatamente assim que aconteceu. Depois dos anos 2000, começaram a surgir lideranças ligadas a comandos e facções criminosas", explica.

Para o professor, não foi somente a globalização da economia que aconteceu nos anos 90. Também se deu a globalização  do crime.  "Deu-se a circulação de mercadorias e informações, com o advento do celular, das redes sociais e principalmente com as prisões que se faziam nos diversos estados", diz.

Pondera que, além disso, Mato Grosso passou a ser o corredor do tráfico, o que fez com que alguns desses presos, que estavam em São Paulo ou no Rio de Janeiro fazendo esse trajeto do tráfico de drogas e armas, fossem presos em nossos territórios.

"E aqui foram ficando essas lideranças ou essas pessoas ligadas à facções criminosas presas aqui e organizando suas estruturas. Foi assim que circulou e passou a ter 'células' desses grupos em Mato Grosso", detalha.

Postar um novo comentário

Comentários (5)

  • Ângelo | Terça-Feira, 22 de Dezembro de 2020, 15h03
    4
    4

    E o presidente e sua família que tem ligações com milícias? Não vão fazer uma reportagem sobre isso?

  • Batman | Segunda-Feira, 21 de Dezembro de 2020, 22h37
    10
    8

    Parabéns ao PT!

  • Chico Bento | Segunda-Feira, 21 de Dezembro de 2020, 13h18
    31
    7

    A matéria ia bem até incluírem a entrevista com o tal sociólogo., diz que a população carcerária cresceu por uma política de criminalização crescente e de segurança. Errado! A população carcerária cresceu devido ao aumento de criminosos, em função das leis que as favorecem. Esta é a verdade.

  • DE OLHO | Segunda-Feira, 21 de Dezembro de 2020, 12h59
    20
    6

    TODOS SABEM ONDE TEM BOCAS DE FUMO....MENOS A POLÍCIA !

  • Luciano | Segunda-Feira, 21 de Dezembro de 2020, 08h54
    1
    2

    Luciano, Há expressões agressivas, ofensas e/ou denúncias sem provas. Queira, por gentileza, refazer o seu comentário

Extremista vai ter que se explicar na PF

Marcelo Stachin 400   O barulhento militante de extrema-direita Marcelo Stachin (foto) tem perdido o palco desde que teve um pífio desempenho nas urnas e acabou com apenas 0,8% dos votos para prefeito de Sinop. Em sua busca incessante por aparecer, o bolsonarista, que é investigado pelo STF por espalhar fake news, decidiu ironizar e...

Prefeitos, MPE e afastamento do cargo

jose antonio borges 400 Prefeitos de MT que descumprirem as diretrizes do decreto estadual que impôs o toque de recolher em todo o território podem até mesmo ser afastados do cargo. O alerta é do procurador-geral de Justiça, José Antônio Borges Pereira (foto), e reforçada pelo procurador Domingos...

Prefeito se rebela e é enquadrado

vander masson 400 curtinha O prefeito de Tangará da Serra Vander Masson (foto), do PSDB, bem que quis ser rebelde, mas acabou enquadrado pelo MPE. Vander fez um decreto mais ameno que o do governo do Estado, impondo toque de recolher a partir das 23h, mas teve de recuar após ser notificado pelo MPE. Nas redes sociais, para evitar desgaste com...

AL realiza lockdown de faz de contas

Funcionários da AL se mostram revoltados com o lockdown de “faz de contas” promovido por deputados. Isso porque, apesar de estar com as portas fechadas, funcionários estariam sendo obrigados a ir trabalhar e entrando por outras portas. Atendem parlamentares que preferem trabalhar presencialmente. Pelo menos 36 funcionários estariam infectados e os servidores temem que mais pessoas sejam contaminadas pelo coronavírus. O pânico ficou ainda maior...

EP na batalha por vacinas e insumos

emanuel pinheiro 400 O prefeito de Cuiabá Emanuel Pinheiro (foto) entrega nesta segunda (8) PL para a aquisição de vacinas para combate à Covid-19, medicamentos, insumos e equipamentos. O documento foi elaborado pela Frente Nacional dos Prefeitos (FNP) e será votado na Câmara. Esse é mais um movimento...

Fúrio volta à carga contra secretário

celio furio 400 curtinha Depois de se enganar ao abrir investigação contra o secretário de Saúde Gilberto Figueiredo e ter de pedir desculpas, o promotor Célio Fúrio (foto) voltou à carga. Fúrio entrou na Justiça para que Gilberto seja condenado à perda da função...