VELHO OESTE PANTANEIRO

Sábado, 08 de Setembro de 2018, 06h:53 | Atualizado: 08/09/2018, 09h:59

DESCALVADOS

Em pleno século 19, terra do rei da Bélgica atraiu muitos "gringos" a MT - veja fotos

As águas do rio Paraguai são um paradoxo. Em contraponto à calmaria no leito, às margens dele, há muitas histórias de tormentas em disputas territoriais. Águas que se turvaram junto às lágrimas dos povos indígenas deram também passagem às navegações a vapor e que, com os mesmos navios, estremeceram os barrancos, alargaram as margens e abasteceram chaminés do extremo oeste brasileiro, das fábricas de charque e extrato de carne para exportar ao mundo. Tudo isso faz parte da história da fazenda Descalvados, a mesma que hoje é, em parte, ruínas do que foi seu ápice comercial no século 20.

Galeria: Descalvados, no coração do Pantanal

Rodinei Crescêncio

Especial C�ceres

Historiador Domingos Sávio, da Unemat, conhece a região e afirma que havia interesse belga em tomar o país por ali

Após 40 minutos em um barco no sentido norte-sul, a reportagem desembarca no cais à direita do rio. Na secular fazenda, é iniciada uma caminhada para ver os casarões de 1874. Entre as antiguidades, tem uma pequena igreja com santos quase intactos e em tamanho real, ruínas de uma fábrica com equipamentos enferrujados e de origem belga, um correio, um imenso armazém de alimentos e outras estruturas construídas para morada dos operários que ali trabalharam, naquele momento, já de forma livre.

"Na documentação nós não encontramos população escrava. O processo de escravatura no Brasil estava em crise e, aparentemente, já começou com trabalhadores livres. Muitos imigrantes de diferentes regiões do mundo vieram para Descalvados trabalhar na fábrica, entre eles, americanos, indianos e até chineses, sul-africanos e belgas", pontua o historiador Domindos Sávio.

Apesar do nome ser uma alusão ao Monte Descalvado, atual Morro Pelado, a terra é plana. No início, a propriedade era de João Pereira Leite, herdeiro nascido na Fazenda Jacobina. 

Em 1882, a Descalvados foi vendida a um imigrante conhecido como Jayme Cibils Buchareo, que conduzia uma fábrica de extrato de carne no Uruguai. Registros apontam que em determinado momento era possível contar 200 mil cabeças de gado ali. Desta quantidade, 20 a 30 mil chegavam a ser abatidos anualmente e transformados em extrato de carne, caldo e conservas para serem exportadas via fluvial à Europa, especialmente para Bélgica.

Veja vídeo

Rei da Bélgica comprou a fazenda Descalvados

Até 1895, o uruguaio vende Descalvados para um grupo de capitalistas belgas. Sávio, que se aprofunda no tema desde os anos 90, constatou mais do que o interesse comercial dos estrangeiros e a propriedade foi adquirida de forma secreta pelo rei Leopoldo II.  "Rapidamente a fábrica se estrutura e importam equipamentos da Europa. Dá para ver entre as ruínas tanques de extrato de carne. Equipamentos hoje enferrujados produziam embalagens, com todo serviço de serralheria ou carpintaria. Isso porque. como estava muito longe do litoral, essa fábrica precisava ser o mais autônoma possível, mais do que isso, autosustentável", explica o historiador. 

Caso algo se quebrasse, tinham condições de arrumar. Contava com um cais para receber os navios de exportação e também toda a matéria prima.

O pesquisador é autor da tese de doutorado, que se transformou em livro Os Belgas na Fronteira Oeste do Brasil e constata na obra que a aquisição caracterizou-se através de uma nova etapa da expansão colonialista, algo que para o Rei Leopoldo II era comum, pois possuía uma colônia iniciada da mesma maneira no Congo. Por isso, pretendia fazer o mesmo no Brasil, mais precisamente através da fazenda Descalvados.

No início, a busca aparentou ser por matérias-primas de baixo custo e de mercados para os produtos industrializados, mas foi além. O objetivo era repetir no Brasil o que foi feito na África. “Muito mais do que uma simples fábrica, era uma cabeça de ponte pra tentar fazer dessa região uma colônia belga”, frisa.

O Rei e a estratégia de dominação

Alguns pesquisadores comparam a crueldade de Leopoldo II com a de Mussolini ou Hitler no decorrer da história, isso porque ele matou mais de 10 milhões de pessoas no Congo, além de ter torturado muitos outros, mesmo sem nunca ter visitado o país.

Leopoldo II iniciou sua trajetória no Congo após tentar, sem sucesso, se apropriar de territórios coloniais na Ásia e na África. Por lá ele também comprou algumas terras e, depois, escravizou a população. Para mascarar suas transações, usava a Associação Internacional Africana com medidas filantrópicas e científicas. Permaneceu no comando do Congo de 1885 a 1908, e depois cedeu o controle do país ao parlamento belga. Na fazenda Descalvados, três anos após os investimentos na fábrica, as reais intenções começaram aparecer.  

A tentativa passou despercebida

Segundo Domingos, outros pesquisadores se dedicam a estudar a formação do território brasileiro no período colonial, como quando os portugueses expandiram domínio para o Oeste. Entre estas fases, se ignorou muitas revoltas separatistas das províncias no período também conhecido como A Era dos Impérios, entre 1875 e 1914.

Por isso, no meio das articulações comerciais, a Bélgica tentou estabelecer uma colônia a partir da região pantaneira, e também possuir terras como fez no Congo. “O alvo estabelecido foi do território mato-grossense ao rondoniano. Todos eles distantes da supervisão do Governo Federal na época”, salienta.

O historiador se baseou em análises de documentos disponibilizados em relatórios de arquivos públicos, jornais e livros. Uma das maiores evidências foi uma solicitação, feita em 1897, de instalação de um consulado da Bélgica em Descalvados, por meio de representações no Rio e em São Paulo como tentativa de resguardar os interesses do rei no local. O pedido foi negado pelo Brasil. Enquanto isso, toda a área era devidamente guardada por militares belgas que atuaram no Congo.

Abortando a missão

Em 1903, os belgas começaram a se desmobilizar e deixar o Oeste brasileiro. A meta de colônia estava mais complicada e os lucros com as exportações e produtos da fábrica na Descalvados não eram mais os mesmos.

Atualmente, a fazenda Descalvados se constitui em propriedade agrícola particular no município de Cáceres. Pela importância histórica e patrimonial, foi tombada pelo Patrimônio Histórico Estadual e se encontra em processo de restauração.

Barranco Vermelho

Rodinei Crescêncio

Especial C�ceres

Ana Gilza é herdeira e dona da fazenda, uma senhora divertida que ama pescar e bater papo

A Descalvados dividida deu origem a outras fazendas. Uma delas é a Barranco Vermelho, também às margens das águas do rio Paraguai. Fica do lado esquerdo. Na volta do percurso de barco, uma placa indica a outra fazenda histórica.

Antes, também era parte dos territórios da Descalvados, mas com o tempo ganhou nova administração e sediou a Cooperativa Pastoril Barranco Vermelho Ltda, uma indústria rural composta por fazendeiros locais, que, ao sentir necessidade da continuação da comercialização da carne bovina e seus derivados, criaram uma cooperativa para escoar o gado de suas terras.

A equipe de reportagem observou as construções arquitetônicas que demarcaram diferentes épocas e estilos, como a de galpões, charqueadas, olaria, marcenaria com maquinário também importado da Europa. No início do século XX, ainda investia na comercialização do charque, da farinha de osso e do couro vacuns.

Ana Gilza, uma das herdeiras da fazenda, conta que cresceu pelas terras e se lembra das reuniões realizadas pelos membros da cooperativa na casa. “Tinham muitos operários aqui. Mais de 100 pessoas que trabalhavam na fazenda ou nas indústrias. Aos poucos, as estruturas foram caindo. Todavia, o que foi fábrica e ainda resiste ao tempo. Quando algumas casas caíram resgatei azulejos, coloquei na minha cozinha, são de origem francesa e eu quis resguardar um pouco dessa memória para mim”, conta.

Só cavar um pouco que você acha. Tudo isso aqui é sitio arqueológico

Ana Gilza, herdeira da Barranco Vermelho

Hoje, a fazenda Barranco Vermelho é uma pousada e recebe turistas do mundo todo, inclusive em período do Festival de Pesca em Cáceres, pois a sede do local tem uma parada para barcos.

Outro ponto que Gilza ressalta é que, no barranco do rio é possível encontrar cerâmicas antigas, que ela acredita serem de indígenas. O local permite a vista do rio Paraguai com um colorido por do sol, além da brisa fresca da natureza que já começa ecoar sons do pantanal. O dia vai escurecendo. Ao preparar um café e um bolo recém saído do forno para a equipe, ela recorda um pouco das suas histórias na Barranco Vermelho. “Só cavar um pouco que você acha. Tudo isso aqui é sitio arqueológico, tudo também foi habitado por índios. Toda esta região de Cáceres foi”, finaliza.

 

 

Galeria: Barranco Vermelho, pousada às margens do rio Paraguai

 

 

 

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