A estória se repete. A indignação é generalizada. Mas a nossa capacidade de adaptação é fenomenal. Passado o momento inicial, tudo é esquecido. O caso de Brasília é o clímax inédito na história de nosso país. Muito embora o líder maior tenha dito que as imagens que mostram o governador Arruda recebendo a propina não querem dizer muita coisa e que é necessário esperar mais tempo para examinar melhor, a coisa atingiu um patamar nunca antes visto. Todo mundo está revoltado, está estarrecido, e na capital federal os protestos perduram. Mas por quanto tempo? Quem ainda fala no mensalão? Os dólares na cueca, o "montão" de dinheiro encontrado com os aloprados do PT, que pretendiam montar um dossiê contra o candidato José Serra, quem ainda se lembra disso?
Assim, a tática do governador Arruda de resistir ao máximo está corretíssima. Se ele agüentar por mais algum tempo, um novo escândalo surge, o seu é esquecido e tudo volta ao normal. Ademais, ele conta, aliás, todos contam, com a "desmemória" do povo e também com a morosidade do Judiciário. Vejam que só agora, onze anos depois, o Supremo Tribunal Federal (STF) aceitou a denúncia contra o senador Azeredo, do PSDB de Minas. Se até o Judiciário é lento, imagine então a lembrança do "povão". E há mais: a quase totalidade dos envolvidos no escândalo do mensalão foi reeleita. O José Arruda, que enrolado na violação (também inédita) do painel de votação do Senado renunciou ao mandato, retornou menos de um ano depois como o deputado federal mais votado e, pouco tempo depois, como governador. Então, o que esperar?
O enredo da corrupção é sempre o mesmo. A reação é que muitas vezes difere. Na época do mensalão praticamente não houve protestos populares. Agora a Câmara Distrital de Brasília está ocupada pelos estudantes. Você se sente atordoado diante da evidência inquestionável dos fatos e se indaga o que pode fazer. Mas me arrisco a dizer que dois fatores estão eliminando qualquer possibilidade de reação. Um, a banalização do mal; o outro, a impunidade, a certeza de que o crime não será punido.
O incrível é que a própria população, a maior prejudicada com a criminalidade política, com a desfaçatez absoluta, com a cretinice generalizada, já não reage mais. E o exemplo vem de cima. Nenhum dos responsáveis pelos grandes escândalos recentes – o monte de dinheiro encontrado com Roseana Sarney em sua pré-campanha presidencial de 2002, o caso Valdomiro Diniz, a propina dos Correios, que deflagrou o processo do mensalão em 2005, aqueles que foram chamados por Lula de “companheiros aloprados”, o episódio do dinheiro encontrado na cueca do assessor petista do irmão do presidente nacional do PT, enfim a lista é grande – foi preso. Ninguém sabe de nada, é como se nada tivesse existido.
Então, o que fazer? Esta a grande indagação. Você que trabalha quatro meses por ano só para pagar impostos, deve refletir: o que fazer? Você que assiste bestificado a essas torcidas de futebol ensandecidas praticarem atos de vandalismo, tanto quando o time perde como quando ganha, mas que é incapaz de levantar a voz contra um governo – nos três níveis, diga-se – que lhe tira o couro nos impostos sem lhe dar em troca saúde, educação de qualidade e segurança pública, você leitor deve (será?) estar se indagando, que futuro nos espera?
Sebastião Carlos Gomes de Carvalho é escritor e advogado






