Cuiabá, 17/09/2026

Quando cuidar de si também é cuidar do seu relacionamento ou de quem amamos

 

Annie Souza/Rdnews

 

Depois de anos atendendo mulheres, comecei a perceber algo que se repetia com uma frequência que não podia ser ignorada. Muitas pacientes chegavam ao consultório para falar sobre o próprio corpo, mas, em algum momento, a conversa chegava ao casamento.

“Eu amo meu marido, mas parece que alguma coisa mudou entre nós.”

Às vezes, ela estava atravessando o climatério, dormindo mal, sem a mesma disposição, percebendo mudanças na libido ou sentindo desconforto durante a relação sexual. Em outras, estava preocupada porque o marido havia mudado. Estava mais cansado, menos interessado em sexo, com dificuldades que não queria admitir ou simplesmente adiando há anos uma consulta médica.

Nem todo problema conjugal tem origem hormonal ou médica, evidentemente. Relações são muito mais complexas do que isso. Mas também não podemos ignorar que a saúde física e emocional influencia diretamente a maneira como nos relacionamos

Do outro lado dessa história estava o consultório do meu marido, o Dr. Rafael, urologista. Ele ouvia homens que procuravam ajuda para questões relacionadas à saúde masculina e à sexualidade, mas que, ao contar o que estavam vivendo, revelavam também o impacto dessas mudanças dentro de casa.

Foi então que nós dois percebemos uma coisa muito simples: atendíamos lados diferentes de uma mesma história.

Depois dos 40 anos, o corpo muda. E muda para os dois.

Na mulher, a transição para a menopausa pode trazer alterações hormonais que repercutem no sono, na energia, no humor, na composição corporal, na saúde íntima e no desejo sexual. No homem, também podem surgir mudanças metabólicas, hormonais e sexuais, além de questões urológicas que merecem investigação.

O problema começa quando ninguém entende exatamente o que está acontecendo.

Ela pode interpretar a falta de iniciativa dele como desinteresse. Ele pode entender a redução da libido ou o desconforto dela como rejeição. Um se fecha. O outro também. E aquilo que começou no corpo passa a aparecer na convivência.

Nem todo problema conjugal tem origem hormonal ou médica, evidentemente. Relações são muito mais complexas do que isso. Mas também não podemos ignorar que a saúde física e emocional influencia diretamente a maneira como nos relacionamos, sentimos desejo, demonstramos afeto e vivemos a intimidade.

Foi dessa percepção que nasceu a decisão de unirmos nossos olhares profissionais.

Eu continuo cuidando da mulher. Rafael continua cuidando do homem. Cada paciente tem sua história, sua consulta, seus exames, suas necessidades e sua individualidade. Mas passamos a enxergar também aquilo que existe entre os dois.

Não se trata de fazer uma “consulta de casal” no sentido convencional. Trata-se de compreender que, em determinadas fases da vida, cuidar apenas de um dos lados pode deixar parte da história sem resposta.

E talvez essa percepção tenha se tornado ainda mais forte porque Rafael e eu não somos apenas dois médicos trabalhando com saúde feminina e masculina. Somos marido e mulher.

Também estamos construindo uma família, envelhecendo juntos e atravessando as mudanças que o tempo inevitavelmente traz. Sabemos que um casamento não permanece saudável apenas porque existe amor. Ele precisa de presença, diálogo, intimidade e de duas pessoas que também estejam dispostas a cuidar de si.

Gosto de pensar em uma casa sustentada por dois pilares. Quando um deles está cansado, fragilizado ou desconfortável com o próprio corpo, inevitavelmente alguma coisa se modifica na dinâmica daquela casa. Isso não significa responsabilizar uma pessoa pelo bem-estar da outra. Significa reconhecer que aquilo que acontece conosco também alcança quem divide a vida conosco.

Por isso, cuidar da saúde depois dos 40 não deveria ser encarado apenas como uma preocupação individual.

Quando uma mulher volta a dormir bem, recupera seu conforto íntimo e compreende as transformações do próprio corpo, isso repercute na vida dela inteira. Quando um homem vence o constrangimento, procura ajuda e passa a cuidar de questões que vinha adiando, também muda a maneira como ele se relaciona consigo mesmo e com quem está ao seu lado.

Ela cuida dela. Ele cuida dele. E, quando os dois entendem que saúde também faz parte da vida a dois, passam a cuidar melhor daquilo que construíram juntos.

Talvez esse seja um dos significados mais bonitos da longevidade: não apenas viver mais, mas ter saúde para continuar compartilhando a vida com quem escolhemos amar.

Bruna Ghetti é ginecologista, especialista em mulheres 40+, e escreve neste espaço quinzenalmente às quintas-feiras