Saúde íntima também é saúde
Annie Souza/Rdnews
Durante muito tempo, nós, mulheres, aprendemos a procurar o ginecologista quando alguma coisa não estava bem. Uma dor, uma infecção, um sangramento diferente ou a necessidade dos exames de rotina. A região íntima quase sempre entrou na nossa vida pelo caminho da preocupação.
Mas saúde não significa apenas tratar uma doença quando ela aparece.
Ao longo dos anos acompanhando mulheres em diferentes fases da vida, percebi quantas conviviam em silêncio com ressecamento, desconforto durante a relação sexual, escapes de urina, perda de elasticidade ou mudanças provocadas pela menopausa. Muitas acreditavam que precisavam simplesmente aceitar essas alterações porque envelheceram ou tiveram filhos.
A intimidade feminina não precisa continuar sendo um território de silêncio. Quando uma mulher conhece melhor o próprio corpo, ela também ganha liberdade para perceber suas mudanças, procurar ajuda quando necessário
Existe, porém, uma diferença entre uma mudança ser comum e ela precisar ser suportada sem ajuda.
Foi essa percepção que ampliou minha maneira de exercer a ginecologia. Saúde íntima também envolve conforto, funcionalidade, sexualidade, autoestima e qualidade de vida. E começa quando a mulher consegue falar sobre o próprio corpo sem vergonha e encontra um profissional disposto a ouvi-la.
A tecnologia trouxe novas possibilidades para esse cuidado. Hoje temos recursos como o laser íntimo, que pode integrar protocolos para ressecamento, alterações de elasticidade e determinados desconfortos. O Emsella atua no fortalecimento da musculatura do assoalho pélvico, relacionada ao controle urinário. Também desenvolvi o Lift HD Íntimo, uma técnica que combina diferentes recursos para atender necessidades funcionais e estéticas de maneira individualizada.
Mas nenhum aparelho substitui uma boa avaliação médica. Não existe um protocolo que sirva para todas. Cada mulher tem uma história, uma queixa e uma relação diferente com o próprio corpo.
Essa mudança de olhar também passa pelo autocuidado. Nós aprendemos a observar o rosto, a pele e os cabelos, mas ainda conhecemos pouco sobre nossa própria região íntima. Muitas mulheres chegam à vida adulta sem saber identificar mudanças, entender o que é natural ou reconhecer quando determinado desconforto merece atenção.
Não se trata de criar um novo padrão estético. Vulvas são diferentes, corpos são diferentes e o envelhecimento provoca mudanças naturais. Cuidar significa reconhecer quando algo provoca desconforto, interfere na sexualidade ou afeta a qualidade de vida e saber que é possível conversar sobre isso.
Na menopausa, essa atenção se torna ainda mais necessária. As alterações hormonais podem provocar ressecamento, ardência, dor nas relações e mudanças urinárias. Algumas mulheres sentem pouco. Outras têm sua rotina e sua vida sexual profundamente afetadas.
As mulheres estão vivendo mais e querem viver esses anos com autonomia, conforto, saúde e prazer. Por isso, precisamos falar de longevidade incluindo também a intimidade.
Talvez uma das maiores mudanças que estamos vivendo na ginecologia seja justamente essa. A saúde íntima deixa de ser lembrada apenas diante de uma doença e passa a fazer parte de uma visão mais completa da mulher, que considera prevenção, função, conforto, sexualidade e envelhecimento.
A intimidade feminina não precisa continuar sendo um território de silêncio. Quando uma mulher conhece melhor o próprio corpo, ela também ganha liberdade para perceber suas mudanças, procurar ajuda quando necessário e decidir como deseja cuidar de si.
Saúde íntima é saúde da mulher. E falar sobre ela com naturalidade também é uma forma de cuidado.
Bruna Ghetti é ginecologista, especialista em mulheres 40+, e escreve neste espaço quinzenalmente às quintas-feiras