Cuiabá, 15/10/2026

Seu chefe pediu o print. Será que ele quis dizer não confio em você?

Rodinei Crescêncio/Rdnews

Rodinei Crescêncio/Rdnews

Existe uma conversa que você já teve dezenas de vezes e que nunca aconteceu.

Foi isso que percebi ao acompanhar, em uma sessão de psicologia executiva, um gestor que chegou incomodado com o próprio chefe. Era um profissional competente, responsável por um setor importante, e que contava com a confiança declarada da diretoria. Mesmo assim, havia algo que o tirava do eixo. O chefe era enérgico, direto, sem rodeios, e tinha o hábito de acompanhar o trabalho com evidências. Quando o gestor dizia que havia falado com um cliente, vinha a pergunta seguinte: abriu o registro do atendimento? Então envie o número e o print da conversa.

Para o gestor, aquilo tinha um significado só. "Ele quer me confrontar. Quer provar que eu não fiz." A partir dali, cada pedido de comprovação virava mais um tijolo na mesma parede: o chefe não acredita em mim.

Eu o escutei até o fim e fiz algumas perguntas. Quis saber se aquele chefe já tinha lhe dado algum feedback. Tinha, e muito positivo, inclusive antes de ele assumir o setor. Perguntei se os elogios haviam desaparecido. "Não", respondeu, e acrescentou, quase de passagem, que o chefe tinha lhe dado carta branca para conduzir a área. Fiquei em silêncio e deixei que ele ouvisse o que acabara de dizer. Um chefe que confia a ponto de dar carta branca e, ao mesmo tempo, quer provar que o gestor mentiu? As duas coisas não cabem na mesma pessoa.

Cada pergunta que não fazemos vira uma pequena certeza falsa. Com o tempo, passamos a viver cercados delas, nos relacionando com versões que nós mesmos escrevemos das pessoas, e é com essas versões que discutimos, nos afastamos e nos calamos

O que cabia era uma descrição bem mais simples, e foi o próprio gestor quem a deu no começo da conversa: um chefe de estilo direto, que gosta de acompanhar de perto. O que não cabia era a história que ele vinha contando sobre isso. E foi então que enxerguei o que estava acontecendo. Havia algum tempo, aquele gestor mantinha uma conversa com o chefe. Só que o chefe não sabia. O gestor escrevia as duas falas: a dele, defensiva, e a do chefe, desconfiada. E, como em toda conversa em que nós mesmos escrevemos o roteiro, ele perdia todas.

Arrisco dizer que isso acontece com mais gente do que imaginamos. Diante de um tom, de um silêncio, de um pedido seco, a mente corre para preencher a lacuna e costuma preenchê-la com o pior cenário, porque o medo é um bom roteirista. Interpretar parece mais seguro do que perguntar. Mas PERGUNTAR custa uma frase, e ADIVINHAR custa a semana inteira. E ainda há um efeito colateral: passamos a agir de acordo com a conclusão, não com os fatos. Mudamos o tom, nos afastamos, respondemos com certa distância, e o outro, que não sabia de nada, começa a reagir à nossa distância. É assim que o que guardamos vai crescendo até transbordar, quase sempre em uma conversa que nada tinha a ver com o começo da história.

Vale também olhar para dentro. Às vezes a frase de hoje acorda uma história antiga. Aquele tom seco pode lembrar alguém de outro tempo, uma cobrança que doeu, e a gente responde a esse alguém, e não à pessoa que está na nossa frente. Perceber isso é autoconhecimento na prática.

Para sair desse ciclo, existe uma ferramenta simples. Na próxima vez que alguém mexer com você, pegue papel e caneta e divida a folha em duas colunas. Na da esquerda, escreva só o que a pessoa disse e fez, como se uma câmera estivesse filmando. Na da direita, escreva o que você concluiu. Repare no tamanho de cada uma. Depois, escreva uma pergunta honesta para testar a sua conclusão, sem acusação e sem defesa: quando você me pede isso, o que você precisa de mim? A conclusão é sua. A confirmação, só o outro pode dar.

Repare no que costuma acontecer quando a gente pergunta. Muitas vezes a pessoa que construímos na cabeça desaparece, e no lugar dela surge alguém menos assustador e mais humano, com um jeito próprio de trabalhar, de cobrar, de se preocupar. Em outros momentos, a resposta confirma o que sentíamos, e então a conversa difícil finalmente existe, com o outro presente, e não mais com um personagem que inventamos.

Cada pergunta que não fazemos vira uma pequena certeza falsa. Com o tempo, passamos a viver cercados delas, nos relacionando com versões que nós mesmos escrevemos das pessoas, e é com essas versões que discutimos, nos afastamos e nos calamos. O outro, enquanto isso, segue a vida sem saber que está sendo julgado.

Talvez, então, a conversa mais difícil não seja a que temos com o chefe, com a família ou com o colega. Talvez seja a que precisamos ter conosco: aquela em que admitimos que a história que vínhamos contando pode estar errada. Isso exige coragem, mas uma coragem menor do que parece. Cabe em uma frase, que começa com uma pergunta e termina com a disposição de ouvir a resposta.

Qual é a história que você vem contando sobre alguém e ainda não teve coragem de confirmar?

E se a pessoa que você tem evitado for apenas uma pergunta que você ainda não fez?

Expanda sua consciência e gere ações transformadoras!

Cynthia Lemos é psicóloga e empreendedora, fundadora da Grandy Psicologia Empresarial, e escreve neste espaço quinzenalmente, às quintas-feiras