Quando foi a última vez que o seu melhor profissional questionou uma decisão sua ou trouxe uma ideia diferente da sua?
Se a resposta for "nunca", respire fundo antes de comemorar. E se for "faz tempo", cuidado redobrado: às vezes a pessoa que falava, criticava e questionava, de repente, fica mais em silêncio e para de ser crítica.
Nas sessões de psicologia executiva, ouço dos gestores uma pergunta que se repete, quase sempre com perplexidade: ele tinha tudo aqui, por que foi embora? Às vezes vem acompanhada de outra, ainda mais difícil: por que levou mais gente junto?
Quem me ajudou a entender melhor essa pergunta foi um jovem supervisor que atendo. Ele é o tipo de pessoa que qualquer gestor gostaria de ter no time: calmo, comunicativo, brincalhão com a equipe, firme na hora de cobrar. Em uma de nossas sessões, perguntei como tinha sido a saída do emprego anterior, e ele respondeu sem drama, como quem conta algo já resolvido.
O profissional que chega à decisão de partir muitas vezes não faz barulho. Fica mais quieto, mais educado, mais pontual. O pedido de demissão, nesses casos, é apenas a assinatura de uma decisão tomada semanas ou meses antes
A liderança direta tinha um jeito de fazer graça às custas dos outros. Eram comentários jogados no ar, para todo mundo ouvir, de modo que cada um entendia que a piada era com ele. Ele descreveu aquele ambiente como um campo minado. Certo dia, relata ter chegado ao limite e num ato de desabafo à um par seu (líder da mesma faixa de cargo da área), que não conseguia trabalhar mais com uma pessoa assim, decidiu sair e saiu, "tranquilamente", palavra dele. Aprendeu muito ali, chamou o lugar de escola, sentia falta dos colegas. Mas já não conseguia se ver naquele lugar.
Perguntei se tinha dado algum retorno à liderança. A resposta veio sem hesitação: sabia que aquela pessoa não ia sair dali, e sabia o próprio valor. Em outras palavras, avaliou que falar não mudaria nada e, em vez de falar, foi.
Alguns meses depois, a liderança que causava o desconforto também deixou a empresa. Aquela casa perdeu primeiro quem se incomodava com o desrespeito e só depois perdeu quem o praticava.
Então ele me disse algo que eu pediria a qualquer gestor para ler duas vezes. Contou que guarda muito para si, que todo mundo tem um limite, e que o limite dele não é explodir. É ir embora. E que já avisou quem trabalha com ele: se um dia me virem calado, é porque não estou bem.
O profissional que chega à decisão de partir muitas vezes não faz barulho. Fica mais quieto, mais educado, mais pontual. O pedido de demissão, nesses casos, é apenas a assinatura de uma decisão tomada semanas ou meses antes, enquanto o gestor via as entregas em dia e concluía que estava tudo bem. Muitas vezes, a pessoa não sai da empresa. Sai de um jeito de ser tratada.
Duas atitudes ajudam. A primeira é convidar em voz alta: pode me procurar, pode me mandar uma mensagem curta quando algo incomodar, eu quero saber. Não basta deixar a porta aberta. As pessoas só falam quando acreditam que serão ouvidas, e essa crença se constrói a cada vez que alguém fala e é escutado com respeito. A segunda é para quando a saída já aconteceu: uma entrevista de desligamento conduzida por alguém neutro, que não seja o chefe direto. Ela transforma a perda em informação, e informação é o que evita a próxima perda.
Aquele supervisor me entregou, sem perceber, um manual de uso de um bom profissional, e a primeira página diz que o sinal não é o grito. É a quietude.
Talvez você tenha no seu time alguém com um manual parecido, escondido entre a pontualidade e a boa educação: aquele que entrega tudo, não pede nada e já ri um pouco menos do que ria. Nenhuma ata registra esse sinal, e nenhum indicador o mede. Só percebe quem lidera de perto, olhando para a pessoa e não apenas para o resultado.
Existem silêncios que são paz. E existem silêncios que já são despedida. Aprender a diferença é uma das tarefas mais importantes de quem lidera.
Olhe, ainda hoje, para quem anda quieto demais. Enquanto há conversa, há motivo para ficar.
Cynthia Lemos é psicóloga e empreendedora, fundadora da Grandy Psicologia Empresarial, e escreve neste espaço quinzenalmente, às quintas-feiras







