Cuiabá, 01/11/2026

Weber: a capacidade de avaliar a realidade com equilíbrio

Rodinei Crescêncio/Rdnews

 

Em 4 de novembro de 2008 o senador John McCain perdeu a eleição presidencial dos Estados Unidos para Barack Obama. Reconheceu a derrota, com a elogiada e civilizada frase: “Quaisquer que sejam nossas diferenças, somos compatriotas americanos.” Em seguida pediu aos seus eleitores que cumprimentassem Obama e se mostrassem dispostos para construir entendimentos e cooperar para superar as diferenças em benefício do país.

A senadora eleita Michele Bolsonaro, em mensagem publicada e dirigida aos seus correligionários diz que o ex-presidente Jair Bolsonaro ressalta que o momento é de união e que seus apoiadores não devem cair nas enganações daqueles que sempre semeiam o ódio e a mentira e busca de ‘likes’ e engajamento nas mídias sociais.

Não controlo o resultado das urnas, mas controlo a coerência com que sustento minhas convicções, com civilidade e empatia.

A democracia pode não ser perfeita e a liberdade ter muitas dificuldades, porém, os impulsos agressivos, que vão desde a humilhação e exposição de uma criança de 9 anos, ameaças de demissões de quem não votou como o patrão e listas de boicotes de empresas, cujos donos votaram em Lula não podem ser contemporizados ou naturalizados. E isso não é favor ou tolerância, está previsto no artigo 1º da Constituição Federal, que consagra como fundamento da República, a dignidade da pessoa humana e estabelece como objetivo fundamental do Estado, promover o bem de todos, sem preconceitos ou qualquer forma de discriminação. Nenhuma pessoa, mas acima de todos, nenhuma criança deve ser humilhada por preferencias políticas de seus familiares, como foi o menino Matheus, em Fortaleza.

A sociologia nos ensina que não somos inteiramente donos do nosso destino. Nascemos dentro de estruturas que não escolhemos, como classe, instituições, normas e correlações de forças. A estrutura não depende de mim, mas a forma como me encaixo nela, sim. Não controlo o resultado das urnas, mas controlo a coerência com que sustento minhas convicções, com civilidade e empatia. Não controlo a reação do outro, tampouco tenho compromisso com a omissão e silêncio.

Epicteto, filósofo grego, dividia o mundo entre o que depende de mim e o que não depende. O que depende de mim são meus julgamentos e escolhas e minhas intenções diante dos acontecimentos. Não depende de mim: a opinião dos outros, o reconhecimento. Ainda assim, usando minha liberdade, posso escolher como agir dentro das estruturas que mudam, mas mudam devagar, pela soma de gestos pequenos de pessoas que não desistem nos períodos de refluxo.

O momento convida a reler o texto do sociólogo alemão, Max Weber, sobre o que é de fato, a política, proferido numa conferência para estudantes em 1919, diante da Alemanha abalada pela derrota na Primeira Grande Guerra, forte radicalização na política e o romantismo dos jovens que acreditavam que poderiam mudar o mundo em poucas semanas. Em “A política como vocação”, Weber fala das formas legítimas de dominação e da distinção das autoridades entre autoridade tradicional, que se baseia nos costumes; a carismática, baseada na confiança no líder; e a legal, sustentada por leis e regras. Em Weber, a política por vocação exige perseverança e maturidade para enfrentar frustrações sem abandonar o compromisso com a atuação política.

É a política, como um esforço paciente e persistente de superar obstáculos e só tem vocação aquele que consegue dizer "apesar de tudo, eu sigo" diante de um momento não corresponde ao que se esperava.

Olga Lustosa é socióloga e cerimonialista pública. Escreve com exclusividade para esta coluna aos domingos. E-mail: olgaborgeslustosa@gmail.com