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Olga Lustosa Domingo, 25 de Outubro de 2026, 05:00 - A | A

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Olga Lustosa

A República dividida em blocos irreconciliáveis

Olga Lustosa

Rodinei Crescêncio/Rdnews

 Nova arte Olga Lustosa - usar essa

O padrão comum, o ponto de virada para a afirmação acima acontece quando o adversário deixa de ser visto como adversário ou até mesmo, como rival legítimo e passa a ser tratado como ameaça existencial. A partir daí, cada lado justifica quebrar regras civilizatórias, agredir para impedir a vitória do outro. O cientista político brasileiro João Areal Neto, pesquisador da Universidade de Mannheim, na Alemanha, estudou a fundo a polarização, o partidarismo e o comportamento do político brasileiro e publicou artigo intitulado: “Eles - sem nós: a identidade política negativa e a polarização afetiva no Brasil”. O argumento central é que a polarização encontra abrigo, sobretudo em contextos em que a política é estruturada por forte ideologia, identificação partidária ou apego ao grupo político, com espaço para o crescimento da identificação negativa, que aumenta imensamente à aversão aos líderes adversários e aos eleitores do outro lado.

No Brasil, a polarização reside no antipetismo e no antibolsonarismo. E não adiantou outros partidos tentarem furar a bolha e apresentar outros candidatos. O cidadão fingiu que não viu. A divisão, até inconscientemente lhe interessa e a outros atores, além dos dois polos eleitorais que se acusam e motivam a divisão. É impressionante, mas a rejeição ao adversário mobiliza mais que a adesão ao próprio lado. Na avaliação de João Areal, a hostilidade ao grupo adversário pode ser mais forte do que a identificação positiva com o próprio grupo e o medo do outro vencer vira o maior capital eleitoral para as argumentações e tentativas de convencimento, para virar voto.

As divergências e a polarização persistente dos campos progressistas e conservadores estão calcificadas em hostilidades e ressentimentos

Procurei, todavia não encontrei nenhum artigo de opinião publicado falando em reconciliação após a apuração e desde 2018, na eleição presidencial vence aquele que consegue convencer o eleitor que o adversário representa risco maior.

Pelos números de uma pesquisa da Indexa, uma minoria intensa e barulhenta ocupa o debate, enquanto 69% dos brasileiros afirmam que não se enquadram no perfil de polarização estrita, embora os níveis da divisão sigam perfilados: 46% dos eleitores afirmam não votar em Lula (PT) de forma alguma e 44% que declaram o mesmo sobre Flávio Bolsonaro (PL). Ou seja, em números quase idênticos um lado teme o avanço do outro.

E quando a eleição gira em torno de personalidades, há menos debate e as agendas econômicas, de segurança, moradia, ações sociais ficam à margem das discussões e até algumas das muitas decisões institucionais correm o risco de serem analisadas levando em consideração o grupo que será beneficiado ou prejudicado. As eleições definirão quem governará o país, mas das urnas, sairá um Brasil dividido, ressentido e talvez com um lado cansado de enxergar no outro uma ameaça.

Em termos gerais, há possibilidades e exemplos de países que reorganizaram as forças políticas em torno do candidato que venceu as eleições, pela governabilidade sem traumas e para o fortalecimento da democracia, porém, isso não deve ocorrer no Brasil, em curto tempo, porque as divergências e a polarização persistente dos campos progressistas e conservadores estão calcificadas em hostilidades e ressentimentos e quanto mais apertado for o resultado, mais difícil será o lado derrotado aceitar.

A CNBB se posiciona sobre a votação do segundo turno, dizendo que na democracia, cada voz importa e cada voto expressa o valor inviolável de cada pessoa humana. Esperamos que cada cidadão vote de modo responsável, na busca do bem comum.

Olga Lustosa é socióloga e cerimonialista pública. Escreve com exclusividade para esta coluna aos domingos. E-mail: olgaborgeslustosa@gmail.com

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