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Olga Lustosa Domingo, 04 de Outubro de 2026, 07:55 - A | A

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Olga Lustosa

O peso do afeto para orientar o voto

Olga Lustosa

Rodinei Crescêncio/Rdnews

 Nova arte Olga Lustosa - usar essa

Falar sobre eleições no Brasil, desde os primeiros números, impressionam. Mais de 158,7 milhões de pessoas estão aptas a votar no primeiro turno das eleições de 2026, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), um crescimento de quase 1,5% em relação às eleições de 2022. O eleitorado está distribuído em 5.571 municípios, além de 186 cidades no exterior. Não causa estranheza que chefes de estado estrangeiros estejam anunciando estar de olho nas eleições brasileiras. Há de se observar, sim, com curiosidade, a grandiosa estrutura física que se monta para que as urnas cheguem nas zonas rurais, áreas de difícil acesso e no exterior, onde quase um milhão de brasileiros vão votar.

O motivo que orienta o voto na minha percepção ainda está profundamente ligado à identidade do eleitor, seguindo suas crenças, sua sensação de pertencimento a determinado grupo social ou político e a situação econômica. O cientista político brasileiro Felipe Nunes cita isso no seu livro mais recente, Brasil no Espelho, porém ele estabelece outras razões que orientam o voto, expondo a religião e família como pilares que movem o eleitor brasileiro, aí o engajamento cede lugar a polarização afetiva, onde contribuir com a derrota de um candidato se torna a decisão central no direcionamento do voto, porque o adversário político é tratado como inimigo.

Em Biografia do Abismo, que o professor Felipe escreveu com Thomas Traumann, eles exploram perfis sociais para descrever os revezes causados pela severa divisão política, pela polarização que causa fidelidade cega, inquestionável a determinados grupos políticos. A esse processo deram o nome de calcificação política, uma prática que passa a integrar a identidade do eleitor, impacta suas relações sociais e o afasta da família e de amigos. Em ambos os livros fica a interpretação do peso dos afetos tanto para avaliar as rejeições e pertencimento quanto para fazer a defesa incondicional de um lado.

O desafio democrático é perder o medo e não se deixar cegar pela defesa incondicional e intransigente de um lado.

Em análise na última semana o professor Felipe citou que os eleitores independentes no Brasil estão na faixa d 24% a 36% e eles podem ser o fator decisivo nas urnas, assim como os eleitores que admitem que podem mudar de lado e decidir as eleições com o chamado voto pendular. Momentos finais que antecedem as eleições, o jogo polarizado começa a se fechar com o chamado voto útil, que é uma estratégia de transferir a intenção de voto do candidato da sua preferência para votar em um que esteja liderando as pesquisas.

As paixões fazem parte da democracia. A responsabilidade política deve impedir que a política vire espetáculo ou guerra de torcidas. Nada deve importar mais do que os resultados práticos que a candidatura trará para a sociedade. O voto, por si é a porta de entrada no espaço de participação onde se discute as necessidades individuais e coletivas. O desemprego, saúde, educação, segurança, condições dignas de vida, as prioridades do Estado, dependem das escolhas políticas que fazemos.

O voto, que já ganhou tantos adjetivos e categorizações nas linhas do artigo, também tem caráter defensivo e o medo pode orientar a escolha dos candidatos. O receio de perder benefícios sociais é uma ameaça à renda e segurança de milhares de famílias e isso nada mais é senão uma decisão consciente de proteger as condições materiais da vida, lembrando que no período eleitoral há sempre o risco de sermos orientados por ameaças exageradas ou fabricadas. O desafio democrático é perder o medo e não se deixar cegar pela defesa incondicional e intransigente de um lado. Bom voto a todos!

Há uma boa notícia nacional nas eleições de hoje. 69 mulheres são candidatas 54 cadeiras em disputa no Senado, é o maior número de candidatas das últimas eleições, lembrando que a próxima composição do Senado vai escolher pelo menos 4 cadeiras no Supremo Tribunal Federal. Mato Grosso contribui com o avanço e tem duas mulheres na disputa.   

Olga Lustosa é socióloga e cerimonialista pública. Escreve com exclusividade para esta coluna aos domingos. E-mail: olgaborgeslustosa@gmail.com 

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