Um estudo detalhado, municiado com pesquisas e entrevistas feito pelo governo australiano ao longo de 10 anos traz revelações desconcertantes para o governo, para os pais e para a sociedade. “Stop it at the Start” (Pare logo no início) é uma campanha de longo prazo de prevenção à violência contra mulheres lançada em 2016, que recebe atualizações de dados periódicos e são repassados para a sociedade através das campanhas nacionais sobre o tema. A pesquisa examina também as reações de adultos diante dos incômodos narrados por jovens diante de comportamentos desrespeitosos. O estudo e a campanha são casos exemplares de política pública, com base empírica sobre a naturalização do desrespeito e avaliação contínua dos resultados.
As várias fases da pesquisa são voltadas aos meninos e meninas de 10 a 17 anos e a quem os influencia, pais, irmãos, professores, treinadores, para atacar o cerne da violência: o comportamento desrespeitoso. O alvo da pesquisa não é o agressor nem a vítima, mas os adultos que socializam com jovens nessa faixa etária. Segundo a teoria da aprendizagem social de Albert Bandura, professor de psicologia social da Universidade de Stanford, que sustenta que boa parte do comportamento é aprendido observando os outros e as consequências que eles recebem quando praticam atos desviantes. O psicólogo afirma que todo ato de violência contra mulheres começa com falta de respeito.
O Instituto de Criminologia Australiano identificou três reações que impactaram negativamente o governo e especialistas: A tendência dos jovens e dos adultos de procurar na conduta da vítima uma explicação para a violência; minimizar o desrespeito, tratando a violência como algo sem grande importância e dar atenção demasiada ao agressor e suas razões, deixando o que a vítima sofreu em segundo plano.
As fases iniciais do estudo e pesquisas foi no sentido de que as pessoas aceitassem seus papeis de conversar e mostrar aos jovens como agir e construir relações respeitosas. Na fase 5 da pesquisa, divulgada no final de 2025 foi percebido que a conscientização aumentou, porém, houve intensificação de vozes negativas, vindas de todas as partes através da internet mirando o público jovem; a misoginia online (influenciadores da manosfera), minimizando comportamentos desrespeitosos e sendo empáticos com quem os pratica. O psicólogo Alfred Bandura mostrou também que se aprende observando condutas que são recompensadas. Nas redes, a recompensa é visível e imediata: curtidas, seguidores, "respeito", os algoritmos privilegiam o que gera engajamento e, o conflito, a humilhação engajam muito. O agressor é celebrado e vira criador de conteúdo.
A juíza brasileira, da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro, Vanessa Cavalieri disse recentemente que a violência cometida por jovens é uma forma trágica e equivocada de expressar as necessidades não atendidas; a necessidade de conexão humana, de vínculo de afeto, de ser visto e se sentir importante.
Em toda parte do mundo, a família é o primeiro lugar de socialização, é também, o lugar onde cerca de 40% dos jovens brasileiros disseram ter presenciado a mãe ser agredida. O NetLab da UFRJ tem feito mapeamento dos canais misóginos, com discursos e táticas da ‘machosfera’ e afirma que 90% destes seguem no ar, em crescimento de seguidores e conteúdos sobre o ‘valor do homem e depreciação da mulher’.
A fase 6 dos estudos, já foi entregue ao Departamento de Serviços Sociais do governo Australiano.
Olga Lustosa é socióloga e cerimonialista pública. Escreve com exclusividade para esta coluna aos domingos. E-mail: olgaborgeslustosa@gmail.com







