Advogados chegam para 3º dia de júri e apostam em absolvição de trio por homicídio de Roberto Zampieri
Tribunal do Júri entra em seu possível último dia nesta quinta, com debate entre defesa e acusação
Em entrevistas concedidas na manhã desta quinta-feira (01), momentos antes do início do terceiro - e possivelmente último - dia de julgamento dos réus Antônio Gomes da Silva, Hedilerson Fialho Martins Barbosa e do coronel do Exército, Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas, pelo homicídio do advogado Roberto Zampieri, ocorrido em dezembro de 2023, os advogados de defesa declararam acreditar na absolvição de seus respectivos clientes.
João Aguiar/Rdnews
Os advogados Sarah Quinetti, Igor Lopes, Nilton Ribeiro e Jayme Rodrigues, respectivamente
Francisco Arruda e Igor Lopes, responsáveis por representar Hedilerson, apontado pelo Ministério Público como contratante e dono da arma utilizada no assassinato, reforçaram que o depoimento do réu confesso Antônio Gomes da Silva, indicado como executor do crime, não compromete a situação de seu cliente. Igor Lopes chegou a afirmar que Hedilerson teria sido enganado por Antônio.
"Ele foi enganado, ele não tem treinamento militar, é um professor [de tiro]. Eu não tenho a expertise de um atirador, mas os professores são unânimes: a arma não guarda esses registros, ela esfria", argumentou o advogado após ser questionado se Hedilerson não saberia que sua arma havia sido utilizada.
A tese foi reforçada por Francisco Arruda, que afirmou, novamente, o não envolvimento de Hedilerson com o crime e pontuou que seu cliente chegou a usar a arma no outro dia. "Volto a repetir: nada, absolutamente nada, que comprove o envolvimento dele, tanto prévio, quanto após a morte. Tanto é que, depois que aconteceu o fato, ele não sabia da situação e utilizou a arma no outro dia da competição. Uma pessoa em sã consciência nunca faria uma situação dessa, utilizar uma arma, fazer um registro de uma arma, até com todas as burocracias que tem no aeroporto", ponderou.
Josi Dias/TJMT
O réu Hedilerson Fialho Martins Barbosa, apontado pelo MP como intermediador do crime
Francisco comentou também que será tratado, durante o júri desta quinta, uma possível situação de tortura que teria sido sofrida por Hedilerson com o objetivo de fazê-lo confessar.
Para Jayme Rodrigues e Sarah Quinetti, advogados responsáveis pela defesa de Etevaldo Caçadini, apontado como o financiador do crime, o veredicto é esperado com "muita tranquilidade". Os profissionais reforçaram, também, a tese de não envolvimento do coronel com o crime. Quando questionado sobre Antônio Gomes da Silva, Jayme citou a mudança repetida no depoimento do réu e argumentou sobre o pedido de exame de insanidade da defesa.
"Ele [o Antônio] mudou quatro vezes o depoimento. A própria defesa entrou com um pedido para o doutor Zé Mauro, primeiro para fazer um exame de insanidade mental, querendo cingir [rodear, cercar, apertar] o julgamento, porque achou que ele não estava bem das faculdades mentais. Ora, eu não posso levar em consideração o depoimento do Antônio se a própria defesa acha que ele não está bem mentalmente. Então, para mim, é um depoimento que saiu do nada e conseguiu chegar em lugar nenhum", apontou.
Rodrigo Moura / TJMT
O réu Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas, apontado como o financiador do crime, segundo a denúncia do MP
Por último, o advogado Nilton Ribeiro, representante de Antônio Gomes da Silva, voltou a afirmar que o réu veio a Cuiabá para "fazer justiça" e frisou a teoria de que seu cliente é um fiel combatente à corrupção.
"Mesmo nessa insanidade dele, tem uma sanidade ímpar de combate à corrupção. E ele diz que veio a Cuiabá para combater a corrupção. E ele faria de novo. Hoje, os jurados de Cuiabá vão decidir algo inédito, que talvez mude, influencie, até o resultado das eleições para presidente. Saindo de Cuiabá, o combate à corrupção. Isso mostra o quê? Algo muito maior que o caso Zampieri", disse o advogado.
Josi Dias/TJMT
Antônio Gomes da Silva, réu confesso do homicídio do advogado Roberto Zampieri
Nilton comentou também que acredita, sim, na absolvição de Antônio Gomes da Silva. "Antônio pode sair absolvido daqui hoje. Pasmem, por quê? Porque eles não querem colocar o quesito da insanidade, porque, se colocarem o quesito da insanidade, Antônio pode ir para um hospital psiquiátrico. Eles não quiseram, ficaram com medo, mas vão ter que se submeter então ao terceiro quesito, que é absolver ou condenar o acusado, e aí não é hospital psiquiátrico, é rua, é casa. A responsabilidade é deles. Eu, de forma muito responsável, pedi que colocassem um quesito específico, para que Antônio fosse submetido a tratamento psiquiátrico. E ele mesmo afirmou que precisa de tratamento psiquiátrico", pontuou.
Josi Dias/TJMT
Julgamento
O Tribunal do Júri teve início na terça-feira (29). Antônio, Hedilerson e Caçadini são os primeiros réus acusados pelo crime a encararem a Justiça.
No primeiro dia de julgamento, foram ouvidos o delegado da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), Nilson Farias, o delegado da Polícia Federal, Marco Bontempo, e a testemunha, José Marcos Marini, amigo de Zampieri.
Nessa quarta, foram ouvidos Antônio, que confessou ter matado o advogado e disse que, caso tivesse "recebido a tarefa" de matar o desembargador aposentado Sebastião de Moraes Filho, também teria o executado.
Josi Dias/TJMT
Antônio Gomes da Silva, Hedilerson Fialho Martins Barbosa e o coronel Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas
Hedilerson foi ouvido antes do coronel. Ele disse que teve a confiança traída por Antônio e negou ter emprestado ao executor a arma utilizada no crime. “Eu não acreditei que ele tinha usado a minha arma. Ele traiu a minha confiança. Ele se aproveitou de uma certa confiança que eu tinha com ele. Apesar de não sermos amigos íntimos, é normal dividirmos um quarto de hotel quando você trabalha com a pessoa", disse.
Já o coronel do Exército negou participação na execução e afirmou estar sendo usado como “bode expiatório”. “Acho que estão tentando arrumar um bode expiatório. Porque eu realmente não tenho nenhuma razão, nenhuma necessidade. Alguma coisa está acontecendo para que seja colocado meu nome e o de algumas pessoas neste processo”, dispara.
Conforme a denúncia do Ministério Público, Etevaldo é apontado como financiador do crime; Hedilerson seria o contratante e dono da arma; e Antônio teria sido o executor do assassinato. A denúncia narra que Etevaldo teria pago R$ 40 mil para Antônio executar o crime. Antônio, por sua vez, teria sido auxiliado por Hedilerson, que teria emprestado sua arma.
Reprodução
Roberto Zampieri, advogado assassinado em 2023 em Cuiabá
Relembre o crime
No dia 5 de dezembro de 2023, o advogado Roberto Zampieri deixou o escritório em que trabalhava e, ao entrar no seu veículo, um Fiat Strada, foi surpreendido pelo assassino. Os agentes policiais informaram que foram disparados cerca de 10 tiros na direção do advogado.
Nas gravações, obtidas por meio de câmeras de segurança de empreendimentos da localidade, é possível ver que o assassino cometeu o crime com o rosto descoberto, usando uma caixa para abafar o som, e que ele fugiu a pé.
A execução de Zampieri desencadeou uma série de investigações contra um lobista e desembargadores do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), acusados de negociarem a venda de sentenças com o advogado executado. O crime contra Zampieri não tem relação com o lobista ou desembargadores afastados, mas foi descoberto devido às análises do celular do advogado após a execução.