O delegado da Polícia Federal Marco Bontempo afirmou que o desembargador aposentado Sebastião de Moraes Filho foi investigado por suposto envolvimento no assassinato do advogado Roberto Zampieri, ocorrido em dezembro de 2023, em Cuiabá. A declaração foi dada na tarde desta terça-feira (29), durante o primeiro dia do Tribunal do Júri que julga parte dos réus do caso.
Segundo o delegado, a mensagem que o celular de Zampieri recebeu emitida por Sebastião poucos minutos depois da morte levantou suspeita pelo tom de despedida. “Zampieri. Convivemos em harmonia e respeito por maisde 25 anos. Ganhava e perdia nos meus votos e [você] sempre mostrava ser um advogado consciente. Deus o tenha. Que o receba de braços abertos”.
No entanto, Bontempo não soube informar o andamento dessa linha de investigação, já que deixou o inquérito.
TJMT
Delegado Marcos Bontempo, durante depoimento no julgamento que ocorre nesta terça-feira (20) em Cuiabá
Mais informações obtidas pela perícia técnica no celular do advogado, após sua morte, reforçaram a tese de proximidade entre ele e o desembargador. Veio à tona uma série de indícios de um suposto esquema de venda de sentenças no Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) e até mesmo no Superior Tribunal de Justiça (STJ), o que deu origem à Operação Sisamnes.
Segundo o delegado, o fazendeiro Aníbal Manoel Laurindo, denunciado como um dos mandantes da morte, teria ameaçado expor informações comprometedoras do desembargador caso ele não lhe desse uma decisão favorável no processo de disputa pela Fazenda Lagoa Azul, em Paranatinga, avaliada em R$ 100 milhões.
Em conversa pelo celular analisada pela perícia, Sebastião teria compartilhado a situação com Zampieri, já que ele fazia a defesa do rival de Aníbal na disputa pela propriedade. De acordo com Bontempo, o advogado já teria sido vitorioso em um processo semelhante de disputa de terras contra o irmão de Aníbal. O desembargador, então, se declarou suspeito no processo.
Desde 2024, o magistrado é investigado e monitorado por tornozeleira eletrônica. Em 2025, ele foi aposentado compulsoriamente.
O Tribunal do Júri iniciado nesta terça-feira (29) julga o trio Antônio Gomes da Silva, Hedilerson Fialho Martins Barbosa e o coronel do Exército, Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas. Conforme a denúncia do Ministério Público, Etevaldo é apontado como financiador do crime; Hedilerson seria o contratante e dono da arma; e Antônio teria sido o executor do assassinato. A denúncia narra que Etevaldo teria pago R$ 40 mil para Antônio executar o crime. Antônio, por sua vez, teria sido auxiliado por Hedilerson, que teria emprestado sua arma.
Josi Dias/TJMT
Os réus Antônio Gomes da Silva, Hedilerson Fialho Martins Barbosa e o coronel Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas
O crime
No dia 5 de dezembro de 2023, o advogado Roberto Zampieri deixou o escritório em que trabalhava e, ao entrar no seu veículo, um Fiat Strada, foi surpreendido pelo assassino. Os agentes policiais informaram que foram disparados cerca de 10 tiros na direção do advogado. Nas gravações, obtidas por meio de câmeras de segurança de empreendimentos da localidade, é possível ver que o assassino cometeu o crime com o rosto descoberto, usando uma caixa para abafar o som, e que ele fugiu a pé.
A execução de Zampieri desencadeou uma série de investigações contra um lobista e desembargadores do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), acusados de negociarem a venda de sentenças com o advogado executado. O crime contra Zampieri não tem relação com o lobista ou desembargadores afastados, mas foi descoberto devido às análises do celular do advogado pós-execução.
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