Após 3 dias de júri, trio é condenado a 68 anos pela morte de Zampieri
O Conselho de Sentença acolheu a tese do Ministério Público e reconheceu Antônio como executor, Hedilerson como contratante e dono da arma e Caçadini como financiador do crime
Antônio Gomes da Silva, Hedilerson Fialho Martins Barbosa e Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas, foram condenados pelo Tribunal do Júri de Cuiabá, na madrugada desta sexta-feira (02), a 68 anos, 8 meses e 30 dias de prisão pelo homicídio do advogado Roberto Zampieri. O crime ocorreu na noite do dia 5 de dezembro de 2023, no bairro Bosque da Saúde, na Capital, próximo ao escritório da vítima. O julgamento durou três dias.
Antônio foi condenado a 21 anos 10 meses e 15 dias de prisão; Hedilerson, a 25 anos; e Etevaldo, a 21 anos 10 meses e 15 dias anos. Os três foram considerados culpados por homicídio qualificado por promessa de recompensa, uso de recurso que dificultou a defesa da vítima e emprego de arma de uso restrito. Antônio teve uma pena menor, pois confessou o crime, enquanto Caçadini foi devido ao fato de ter mais de 60 anos.
Rodrigo Moura / TJMT
Antônio Gomes da Silva, Hedilerson Fialho Martins Barbosa e o coronel Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas
O Conselho de Sentença acolheu a tese do Ministério Público de que Etevaldo foi o financiador do crime; Hedilerson o contratante e dono da arma; e Antônio o executor do assassinato. A denúncia narra que Etevaldo teria pago R$ 40 mil para Antônio executar o crime e este foi auxiliado por Hedilerson, que teria emprestado a arma de fogo.
A decisão cabe recurso.
Julgamento
O Tribunal do Júri teve início nessa terça-feira (29). Antônio, Hedilerson e Caçadini são os primeiros réus acusados pelo crime a encararem a Justiça.
No primeiro dia de julgamento, foram ouvidos o delegado da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), Nilson Farias, o delegado da Polícia Federal, Marco Bontempo, e a testemunha, José Marcos Marini, amigo de Zampieri.
Nesta quarta, foram ouvidos Antônio, que confessou ter matado o advogado e disse que, caso tivesse "recebido a tarefa" de matar o desembargador aposentado Sebastião de Moraes Filho, também teria o executado.
Hedilerson foi ouvido antes do coronel. Ele disse que teve a confiança traída por Antônio e negou ter emprestado ao executor a arma utilizada no crime. “Eu não acreditei que ele tinha usado a minha arma. Ele traiu a minha confiança. Ele se aproveitou de uma certa confiança que eu tinha com ele. Apesar de não sermos amigos íntimos, é normal dividirmos um quarto de hotel quando você trabalha com a pessoa", disse.
Josi Dias/TJMT
Já o coronel do exército negou participação na execução e afirmou estar sendo usado como “bode expiatório”. “Acho que estão tentando arrumar um bode expiatório. Porque eu realmente, não tenho nenhuma razão, nenhuma necessidade. Alguma coisa está acontecendo, para que seja colocado meu nome e o de algumas pessoas neste processo”, dispara.
Ao final do segundo dia, a defesa de Antônio pediu a suspensão do julgamento e o desmembramento do processo para que o réu seja submetido a um incidente de insanidade mental. O requerimento foi prontamente negado pelo juiz José Mauro Nagib Jorge.
Ao negar, o magistrado afirmou que o interrogatório realizado nesta quarta não apresentou sinais de comprometimento da integridade mental do réu, que demonstrou fala coesa, compreensão das perguntas e das consequências de seus atos, além de orientação no tempo e no espaço.
"O interrogatório não deixa dúvidas sobre a integridade mental do acusado. Durante o interrogatório, ele demonstrou fala coesa, compreensão das perguntas, das consequências inclusive das suas ações, manteve condições claras espaciais e temporais, e não apresenta sinais concretos de desorganização mental”.
Já no terceiro dia, durante as considerações finais, a defesa de Antônio sustentou que o réu teria agido movido por uma suposta revolta contra a corrupção. Os advogados argumentaram que ele “queria matar os corruptos” e relacionaram a motivação do crime a um sentimento de insatisfação da população brasileira com casos de corrupção no país. A defesa também alegou que Antônio seria inimputável e pediu a realização de exame de insanidade mental.
Os advogados de Hedilerson reafirmaram a tese de que o réu teria sido enganado por Antônio. Segundo a defesa, Hedilerson veio a Cuiabá para participar de um campeonato de tiro e chegou a dividir um quarto de hotel com Antônio, mas negou que tenha emprestado a arma utilizada no assassinato.
A defesa do coronel Caçadini, por sua vez, voltou a negar qualquer participação dele no crime. Os advogados afirmaram que Caçadini conhecia Hedilerson por meio da Frente Ampla Patriótica e que tinha pouco contato com Antônio, buscando afastá-lo da articulação do homicídio.
O crime
No dia 5 de dezembro de 2023, o advogado Roberto Zampieri deixou o escritório em que trabalhava e, ao entrar no seu veículo, um Fiat Strada, foi surpreendido pelo assassino. Os agentes policiais informaram que foram disparados cerca de 10 tiros na direção do advogado. Nas gravações, obtidas por meio de câmeras de segurança de empreendimentos da localidade, é possível ver que o assassino cometeu o crime com o rosto descoberto, usando uma caixa para abafar o som, e que ele fugiu a pé.
Reprodução
No detalhe, a vítima Roberto Zampieri
A execução de Zampieri desencadeou uma série de investigações contra um lobista e desembargadores do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), acusados de negociarem a venda de sentenças com o advogado executado. O crime contra Zampieri não tem relação com o lobista ou desembargadores afastados, mas foram descobertos devido as análises do celular do advogado pós-execução.