Bióloga refuta perícia, diz ter freado para não acertar vítimas e lamenta: Minha vida acabou
Caso aconteceu em frente à boate Valley, na Avenida Isaac Póvoas, em Cuiabá, em dezembro de 2018
Em interrogatório durante Tribunal do Júri nesta terça-feira (23), a bióloga Rafaela Screnci da Costa Ribeiro, de 41 anos, refutou o laudo pericial e alegou ter freado o carro antes de atropelar Hya Girotto e matar os estudantes Ramon Alcides Viveiros e Mylena de Lacerda Inocêncio. O caso aconteceu em frente à boate Valley, na Avenida Isaac Póvoas, em Cuiabá, em dezembro de 2018.
Com a voz embargada, a mulher se negou a responder às perguntas da promotora do Ministério Público e respondeu apenas aos questionamentos feitos pelo advogado de defesa, Rodrigo Gracelle, e pela juíza da 1ª Vara Criminal de Cuiabá, Mônica Catarina Perri Siqueira, que preside a sessão.
Rodrigo Moura/ TJMT
Durante o relato, ela afirmou que no dia do atropelamento havia ido a uma festa, onde não ingeriu bebida alcóolica, tendo seguido para o Malcom Pub por volta das 1h30, onde teria ingerido quatro cervejas. Segundo Rafaela, a quantia a fez passar mal na boate porque ela já estava há muito tempo sem se alimentar, mas disse não se recordar de ter vomitado - fato atribuído à Rafaela na época em que o acidente era investigado - e negou ter interagido com o gerente da boate, que supostamente teria tentado impedi-la de dirigir.
De acordo com a bióloga, que estava a caminho de casa, por volta das 5h, o semáforo em frente à Valley estava aberto e com aglomeração de pessoas, o que a teria feito mudar da faixa direita para a esquerda, que estava supostamente livre.
"Saí da boate, fiz esse caminho, quando estava na faixa da direita, vi uma aglomeração de pessoas. O semáforo estava aberto, a pista obstruída por pessoas. Quando estava me aproximando, pessoas começaram a se mover e a única faixa livre era a da esquerda", afirmou, salientando que também havia carros parados na pista.
Rafaela disse que não viu as vítimas antes de atingi-las e, ao contrário do que aponta a perícia, tentou frear e desviar - sem sucesso. Conforme o perito criminal Henrique Praeiro de Carvalho, que também foi ouvido no júri, a bióloga teve 120 metros para enxergar os estudantes e frear antes de atingi-los. O laudo ainda apontou para ausência de marcas de tentativa de frenagem antes do atropelamento, apenas depois.
A bióloga ainda salientou nunca andar acima dos limites de velocidade no trânsito, afirmando respeitar as leis, "tanto que nunca tive problemas com multa", afirmou. A versão, porém, é diferente do que aponta a perícia, de que no dia do acidente ela seguia a 54 km/h em uma avenida cujo limite é de 50 km/h.
Questionada, Rafaela afirmou não ter fugido após o acidente e se aproximado das vítimas para tentar ajudar, mas diz que foi cercada pelas pessoas que estavam no local e a mandavam embora. Segundo o relato, ela entrou em desespero e ficou em choque quando viu a vitima Hya Girotto.
Chorando bastante, a ré disse que teve a vida destruída após o acidente. "Minha vida acabou após esse fato. Sou uma morta viva, eu morri", afirmou, salientando que o caso repercutiu em sua vida profissional, onde "esquecem de me julgar como profissional, como se esse acidente me definisse". Atualmente, a bióloga atua como professora na rede municipal.
No âmbito da vida pessoal, ela relatou que não casou e nem teve filhos. "Que vida eu tenho desde então? Sou vista como um monstro nessa cidade. Que vontade eu tive de sair e viver? Nenhuma", relatou.
"Eu não sou um monstro, eu não sou um monstro. Eu nunca, em hipótese alguma, sairia de casa para fazer mal a algum ser vivo. Se tivesse algo que eu pudesse ter feito pra mudar isso, eu teria feito. Quatro familias foram destruídas. Eu acabei com minha família, ninguém tem paz, ninguém tem vida", afirmou em interrogatório.
O júri popular da bióloga Rafaela Screnci segue pela tarde desta terça-feira (23) com a fase de argumentação do Ministério Público e da defesa. A expectativa é de que o resultado do julgamento ocorra ainda hoje.
Reprodução
Myllena Inocêncio e Ramon Alcides morreram após serem atropelados em frente à Valley; única sobrevivente, Hya Girotto ficou com sequelas permanentes
O caso
O acidente aconteceu em 23 de dezembro de 2018, quando Myllena Inocêncio, 22 anos, Ramon Alcides, 25 anos, e Hya Girotto, então com 25 anos, saíam da boate Valley, na Avenida Isaac Póvoas, e foram atropelados por Rafaela, que estava embriagada. Myllena morreu a caminho do hospital, enquanto Ramon faleceu horas após ser internado. Hya foi a única sobrevivente, porém teve ferimentos graves que a deixaram com sequelas permanentes.
Em dezembro de 2022, o juiz Wladimir Perri, ex-titular da 12ª Vara Criminal de Cuiabá, absolveu a bióloga, destacando que Myllena, Ramon e Hya assumiram o risco ao usarem a via pública, “violando completamente o princípio da confiança que deve ser observado entre os seus usuários”. Segundo o magistrado, a bióloga errou ao ingerir bebida alcoólica e dirigir, mas este não foi o fator "determinante" para o acidente, e sim, a "imprudência" das vítimas por atravessarem fora da faixa - argumento, aliás, sustentado também pela defesa de Rafaela no julgamento em curso.
No entanto, em julho de 2024, a 2ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Mato Grosso anulou a absolvição e colocou a bióloga de volta ao banco dos réus. No ano passado, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) manteve a decisão do Tribunal de Justiça, determinando que a bióloga fosse submetida ao Tribunal do Júri. A defesa ainda tentou recurso, mas não conseguiu mudar a decisão.
Em abril de 2023, Rafaela recuperou o direito de voltar a dirigir.