Da ponte do rio Paraná a Santarém; projeto de trilhos iniciou há 37 anos
Mário Okamura
História da ferrovia em MT começou na década de 70 e, após quase 40 anos, trilhos chegam a Rondonópolis - acima veja cronologia dos trilhos no Estado
“Um trem não carrega só produtos. Carrega desenvolvimento”, afirma Francisco Vuolo, presidente do Fórum Pró-Ferrovia em Cuiabá e ex-secretário estadual de Logística. Seu pai, o ex-senador Vicente Vuolo (já falecido), foi o grande precursor da ferrovia em Mato Grosso e começou a luta para trazer esse meio de transporte na década de 1970. Ele foi tão importante nesse sentido que hoje a ferrovia que passa pelo Estado tem o nome do ex-senador. Inicialmente ela se chamava Ferronorte, mas em 1997 por meio de um projeto do ex-prefeito de Cuiabá Wilson Santos (PSDB), na época deputado estadual, foi renomeada.
Davi Valle
Francisco Vuolo fala sobre história da ferrovia que leva nome de seu pai Vicente
Francisco Vuolo conta que quando seu pai se elegeu deputado estadual, no início dos anos 1970, o engenheiro Domingos Iglésias Valério conversou com ele sobre a construção de uma ferrovia em MT. “O meu pai comprou a ideia e tornou isso a sua bandeira. Ele era filho de italianos e o meu avô (Francisco Palmeri Vuolo) sempre dizia que um país do tamanho do Brasil tinha a necessidade de ser cortado por ferrovias. Como via que faltava infraestrutura no Estado, ele percebeu que os trens mudariam a nossa realidade e escoariam a nossa produção agrícola, que na época nem era tão grande como hoje”, lembra.
Arquivo Pessoal
Vicente Vuolo e o ex-presidente Ernesto Geisel, que sancionou Lei n° 6.346
Em 1976 o ex-senador conseguiu o sancionamento da lei que incluía no Plano Nacional de Viação um caminho que chegasse até Cuiabá. Em 1978 se tornou senador e virou o presidente da comissão de Transportes, o que intensificou ainda mais a luta pela ferrovia.
O lançamento do edital da concessão veio só em 1989, quando Vicente Vuolo não era mais senador. “Mas nem por isso ele se afastou do trabalho. Era o seu ideal de vida. Ele queria ver tudo encaminhado e pronto”, acrescenta Vuolo. Em 1992 a construção começou.
A parte mais complicada do processo de trazer a ferrovia para MT era a realização de uma ponte sobre o rio Paraná. Com quatro quilômetros de extensão, ela é rodoferroviária e de dois andares, com quatro pistas para carros no andar de cima e trilhos de trem embaixo. Segundo Vuolo, custou R$ 550 milhões e demorou uma década para ficar pronta, sendo inaugurada em 1998. “Na época do governo Fernando Henrique (PSDB) a construção ficou parada por dois anos, acredito que por motivos políticos. O ministro de Planejamento da época, José Serra (PSDB), vetou a verba orçamentária. Mas foi retomada e o meu pai pôde ver ela pronta”, pontua.
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Vicente e filho Francisco. Eles articularam para ampliação da ferrovia em MT
Logo depois, em 1999, aconteceu a inauguração do primeiro trecho da ferrovia em MT, que na época chamava Ferronorte. O terminal de Alto Taquari começou as suas operações naquele ano e em 2001 o de Alto Araguaia. Francisco Vuolo acredita que esse foi um grande marco para o Estado, pois a partir daí o escoamento de produção passou por uma evolução. Ainda mais porque a ferrovia daqui era a mais moderna que existia no Brasil. Em 2001 Vicente Vuolo faleceu, mas nem por isso o seu projeto foi abandonado. Seu filho continua até hoje a luta pela ferrovia.
Depois da abertura em Alto Araguaia, Francisco Vuolo destaca que a ferrovia estagnou devido ao modelo de concessão vigente na época. “Nada mais foi construído. Além disso, a administração dela passava de mãos em mãos e quem assumiu não tinha know-how. Até que em 2006 a empresa América Latina Logística (ALL), a maior do segmento no continente, pegou a concessão”, explica.
De acordo com Francisco Vuolo, para a ALL estava muito confortável estar apenas com esses dois terminais, eles atendiam as suas necessidades. E para subir mais com a ferrovia até Rondonópolis, ela precisaria desembolsar cerca de R$ 1 bilhão, por isso não queria. Em 2007 a ALL foi pressionada a ou construir até o município ou devolver ao governo federal a concessão. O presidente do fórum diz que a empresa cedeu e foi colocado no acordo um termo aditivo para garantir o avanço. Em 2012 foi inaugurado o terminal de Itiquira e em 2013 o de Rondonópolis.
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Ex-governadores, Luiz Fleury (SP), Jayme Campos (MT) e Pedro Pedrossian (MS)
Francisco Vuolo conta que a ALL não tem intenção atualmente de “subir” mais o Estado, por isso, em 2010 fez um marco regulatório com o governo no qual diz que acima de Rondonópolis a construção volta a ser responsabilidade federal. “Por isso hoje dizemos que nos próximos trechos podem vir investidores de fora. Quando prontos, os trens novos terão que passar pelos trechos da ALL pegando uma espécie de pedágio. Isso é ótimo, pois quebrou o monopólio da ALL, o que reduz preços e aumenta qualidade do serviço”, afirma.
Em 2013 aconteceu a contratação dos estudos de viabilidade técnica, econômica e ambiental e do projeto da Ferrovia de Rondonópolis até Cuiabá e de Cuiabá até Santarém (PA). Segundo Francisco Vuolo, em abril os resultados serão apresentados. “Depois disso entra em processo de licitação e assim por diante. E do trecho entre a capital e Rondonópolis a ideia é que tenha também transporte de passageiros”.
Francisco Vuolo salienta que ainda hoje, mesmo com mais de 700 quilômetros de ferrovias no Estado, as pessoas falam que ela é uma loucura, um sonho. “Quando meu pai começou era a mesma história. Debochavam muito. Mas isso só incentivou ainda mais a nossa luta. Já temos vitória”, finaliza.