Cuiabá, 15/10/2026

Ex-moradores estão em barracos, na casa de parentes e em alojamentos

Davi Valle

Produtor Gaúcho Feio cobra água e luz em terras entregues pelo Incra

Bem humorado, de riso fácil e empreendedor, Arcides Zinigane, o Gaúcho Feio, tenta reconstruir a vida. Um dos produtores expulsos da gleba Suiá Missu, seu Gaúcho, como gosta de ser chamado, é uma das 97 pessoas, de um total de 273 cadastradas, que foi assentada pelo Incra em uma área próxima a Alta Boa Vista. 

Todas receberam uma extensão de 1 hectare que, para o agricultor, é insuficiente para tirar o seu sustento. Mesmo assim, Gaúcho não perde o ânimo. Conta que já plantou mandioca, arroz, milho, cana-de-açúcar, batata, amendoim, melancia e vassoura. Ele tem também, no quintal, uma vaca leiteira. Um ano e 3 meses após a consolidação da “expulsão”, decorrente de decisão da Justiça Federal no final de 2012, a situação na região ainda é delicada. Acontece que, até agora, o governo federal não cumpriu a promessa de, pelo menos, assentar, por meio do Incra, as famílias que se enquadram nos critérios da reforma agrária.

Davi Valle

Gaúcho Feio mostra com orgulho abóboras plantadas em área recebida do Incra

Por enquanto, estão cadastradas 273, mas o número pode ser maior. Conforme o prefeito de Alto Boa Vista Leuzipi Domingues Gonçalves (PMDB), algumas pessoas, por conta da situação traumática que passaram, tiveram medo de fazer o registro. Deste total, 97 estão na mesma condição de Gaúcho, numa terra pequena e sem o mínimo de infraestrutura. 

Eles não têm acesso a luz, água e nem mesmo à casa prometida pelo Incra. Assim, moram em barracos ou casas de madeira com telhado de palha, construídas sobre o chão batido. Maria dos Remédios, 54 anos, uma das ex-moradoras, reclama que foi “enganada”.

Davi Valle

Ex-produtora Maria dos Remédios diz que foi enganada pelo Incra

Isso porque o Instituto de Terras teria prometido dar início às obras de construção das residências em 90 dias, o que não aconteceu. “A gente vive aqui porque não tem para onde correr”, desabafa. Ela revela que já sofreu assédio para “negociar” sua terra, mas que quer mesmo é produzir. “Não tenho minha terra para negócio”.

Maria explica que hoje tem uma horta e cria galinhas para se sustentar. Com a venda, tem um lucro que varia de R$ 50 a R$ 70 por mês. Reclama que não planta mais porque a terra não é muito boa e “encharca” quando chove.

Conforme o superintendente do Incra em Mato Grosso, Salvador Soltério de Almeida, em relação ao projeto Casulo, em que as 97 famílias foram enquadradas, o processo burocrático está bastante adiantado. Ele lembra que, assim que houve a desintrusão, foi feito o cadastro de todas as pessoas, mas que várias se recusaram.

Ressalta que foram aplicados R$ 254 mil para abertura da estrada e realizado o mapeamendo da área industrial, comercial e urbana do local. "Liberamos também R$ 3,2 mil por família, como crédito inicial". Neste caso, 92 foram contempladas. As demais não recebaram por não estarem na área ou por falta de documentação. "Estamos quase passando para a prefeitura".

De todo modo, outro avanço, conforme Salvador, ocorreu nesta semana. Acontece que o Incra encontrou uma área de 11 mil hectares para outros 176 cadastrados, que ainda aguardam pela criação de um assentamento. O superintendente assegura que, nesta terça (15), solicitou autorização do governo federal para viabilizar a área escolhida.Em relação às casas, Salvador justifica que as 97 foram enquadradas no Plano Nacional de Habitação Rural. Desde então, o Incra estava organizando a parte burocrática acerca da construção. A documentação, segundo ele, se encontra no Banco do Brasil e a tendência é que as obras comecem o mais rápido possível. A implementação de energia elétrica depende da liberação de recursos por parte da Eletronorte. E serão inseridas dentro do pacote de 5,7 mil ligações previstas para o Estado. Já a água, conforme o Incra, ficou a cargo da secretaria estadual de Cidades que, até agora, não deu início às obras. A pasta estadual, por sua vez, garante que a responsabilidade é da Funasa.

 

Alojamentos

Davi Valle

Luzia Gonçalves e João Machado mostram casa que dividem com mais 6 pessoas. Ex-moradores da Suiá Missu, eles querem retornar para as suas terras

Enquanto alguns sonham com a casa, a ser construída pelo Incra ou por terras para serem enquadrados na reforma agrária, outros querem retornar para suas antigas propriedades ou serem indenizados. Por enquanto, eles seguem instalados em “alojamentos”, casas alugadas, onde chegam a morar 3 famílias, e/ou vivem de favor nas residências de amigos e parentes. Eles estão espalhados em Alto Boa Vista, São Félix sdo Araguaia, Confresa, Porto Alegre do Norte, Bom Jesus do Araguaia, Serra Nova Dourada e em cidades de Goiás.

Estão nesta situação o casal João Machado e Luzia Gonçalves. Eles estão entre os moradores que reocuparam a área no início do ano, mas foram expulsos pela Polícia Federal.  João conta que chegou à região em 1995 por ter esperança na agricultura. 

Lembra que no quintal tinha cana-de-açúcar, banana, mandioca e gado. Também cuidavam de 500 cabeças de rebanho arrendado. Expõe que tinha uma vida estabilizada e hoje sobrevive com a aposentadoria, que mal dá para pagar o aluguel. “Antes o lema era plante que o governo garante. Hoje a gente planta, cria e o governo destrói”, desabafa. 

Davi Valle

Gaúcho Feio e Maria dos Remédios, dois dos assentados, mostram plantações de mandioca, maracujá e pimenta em área entregue pelo Incra em projeto Casulo