DESTROÇOS DE SUIÁ MISSU

Sexta-Feira, 18 de Abril de 2014, 07h:15 | Atualizado: 18/04/2014, 09h:21

Suiá Missu se torna cidade fantasma; igrejas são demolidas e sobra o cristo


Enviada Especial a Alto Boa Vista e São Félix do Araguaia

mapa_1

 Acima, localização da região de dipusta entre índios e não índios, entre Alto Boa Vista e São Félix

Quem caminha pelas ruas do Distrito Estrela do Araguaia (Posto da Mata) que, até dezembro de 2012, abrigava escolas, 98 comércios, 6 igrejas e 2,4 mil casas vê apenas destruição e vazio. A impressão que se tem é de que estamos adentrando numa cidade fantasma que antes fazia parte do perímetro urbano de dois municípios: Alto Boa Vista e São Félix do Araguaia. 

Davi Valle

escola Boa Esperança

Parque da Escola Boa Esperança, na Suiá Missu, onde 238 crianças estudavam

No local, onde foi à escola Boa Esperança, sobraram apenas entulhos e o parquinho onde 238 crianças, antes, brincavam descontraídas. Agora, no lugar dos risos, o que se ouve é apenas o vento que circula entre os brinquedos abandonados. Ao total, nas 2 unidades educacionais (2 municipais, sendo que uma cedia salas para a rede estadual), 820 alunos estudavam. “Saudade, aqui só tem mágoa”, desabafa a vice-prefeita de Alto Boa Vista, Irene Maria Rocha (PSD), que também era uma das moradoras da gleba Suiá Missu.

Agora, sem os prédios, o governo estadual constrói uma unidade em Alto Boa Vista e o prefeito Leuzipi Domingues Gonçalves (PMDB) alugou duas salas para abrigar os alunos que não puderam ficar nas escolas já existentes. A reportagem do Rdnews percorreu as ruas onde transitavam mais de 3867 pessoas, 1.533 na zona urbana e 1284 na rural, conforme último levantamento feito pela secretaria de estadual de Planejamento, em 2007. Pelo caminho encontramos vestígios dos moradores, como geladeiras, fogões e carteiras escolares.

Davi Valle

caixa dá água

Caixa d' água continua em "pé"

Entre as poucas coisas que seguem intactas está uma caixa d’ água, uma antena de telefonia móvel, um silo abandonado e o cristo (símbolo da localidade). Alguns viviam no local desde a década de 1970, quando o Posto da Mata ainda era a fazenda Suiá Missu, também conhecida como a fazenda do papa e que, conforme os produtores, chegou a ser considerada uma das maiores do mundo.

A maioria, no entanto, fixou raízes entre 1992 e 1994, quando parte das terras foram loteadas e vendidas. Eles sustentam que compraram as propriedades e que, por isso, têm direito a retornar para o local ou serem indenizados.  “Teve gente que não carregou nada com medo das bombas”, lembra Irene.

Davi Valle

Autopeças Moto Califórnia

Autopeças Moto Califórnia onde estavam abrigados os ex-moradores da gleba Suiá Missu antes da segunda desintrusão realizada pela PF no final de março

Depois, completa: “mais uma vez o sonho do povo foi destruído”, ao observar os destroços da segunda desintrusão, realizada no no final de março. Já o Ministério Público Federal, na ação que culminou na desintrusão, ressalta que antes que se pudesse formalizar a providência indicada, ou seja, a criação da reserva indígena determinada pelo ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso (PSDB) “centenas de posseiros, comandados por políticos locais contrários à causa indígena, que compete ao MPF defender, invadiram a referida fazenda, numa extensão de mais ou menos 1600.000 hectares e lá se encontram fazendo cercas, desmatamentos e construções apressadas", diz trecho da ação.

Impasse

Davi Valle

Local onde ficava Escola Suiá - Foto: Davi Valle

Irene Maria Rocha (PSD) mostra onde era escola Suiá

Os moradores haviam retornado à área no início deste ano e, após nova decisão da Justiça Federal, a União determinou que a Polícia Federal os retirasse mais uma vez da Gleba Suiá Missu, área que hoje pertencente a reserva indígena Terra Indígena Marawaitséde, dos índios Xavantes.

Estavam num galpão de uma oficina mecânica e em casas de lona com telhados de palha que começavam a ser feitas, aos poucos. No final de março, entretanto, tudo foi destruído.

De acordo com o governo federal, 12 imóveis, que ainda existiam no Posto da Mata, um posto de gasolina, lojas comerciais e residências, foram destruídas, porém, de acordo com os produtores, o estrago foi maior.

Irene relata que 6 igrejas (evangélicas e católica) foram derrubadas desta vez. “Tinham ficado de pé, mas, agora, vieram com uma pá carregadeira e tudo foi para o chão”, afirma.

Davi Valle

Lorival Peres

Lorival Peres, na frente de sua antiga casa, conta detalhes sobre a desintrusão

O casal Lorival Peres de Souza e Divina Oliveira de Souza, 77 anos e 66 anos, respectivamente, foram os últimos a terem a casa destruída pelas forças federais. Moradores reclamam da truculência da PF que, segundo eles, utilizou 3 bombas de efeito moral para obrigá-los a deixar o local. Reclamam que estavam com uma criança pequena em casa, passaram mal e foram retirados de ambulância . “Bomba é coisa esquisita, fizeram um absurdo”.

Estavam no Distrito há 12 anos e tinham uma propriedade de 116 alqueires com 1,5 mil cabeças de gado. Eles perderam tudo e hoje moram numa espécie de alojamento com mais 5 pessoas, em uma casa alugada. Divina lembra que, na primeira desintrusão, tiveram que vender o gado a preço de “banana” e fiado. “Numa hora você tinha tudo e na outra nada”, reclama Divina.

Hoje, vivem apenas com o dinheiro da aposentadoria. “Mas não dá para nada, o dele vai pro remédio e o meu vai para o aluguel e estou costurando para os outros para sobreviver”, pontua Divina. Agora, cobram a devolução das terras e/ou indenização. “A Justiça do nosso país está desacreditada. Só bandido tem vez”, reclama Lorival. Já Divina reforça que, além do prejuízo financeiro, a situação tem provocado a morte de pessoas, desesperadas com a situação, e um crescente número de divórcios. 

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Veja, abaixo, imagens da desintrusão na Suiá Missu

Galeria de Fotos

Credito: Vestígios dos ex-moradores - Foto: Davi Valle
Credito: Casa de Lorival e Divina antes da demolição
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Credito: Cristo que fica na entrada do Posto da Mata - Foto
Credito: Casa de Lorival e Divina, última a ser demolida -
Credito: Destroços do Posto da Mata - Foto: Davi Valle
Credito: Onde ficava casa de José Inácio - Foto Davi Valle
Credito: Igreja Assembleia Madureira - Foto: Davi Valle
Credito: Escola Suiá - Davi Valle
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Credito: Local onde ficava Escola Suiá - Foto: Davi Valle
Credito: Posto de Combusível e restaurante - Davi Valle
Credito: Autopeças Moto Califórnia - Foto: Davi Valle

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Comentários (1)

  • joao | Quarta-Feira, 08 de Junho de 2016, 20h13
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    0

    Joao Cruz lula e dilma na demoliçao da cidade do posto da mata em mt foi um sucesso...apoiado pelo pt...sera..................familias... crianças... recem nascidos jogados fora de suas casas...se uma familia mora mais de seculo desprava...o mato ... formam suas propriedades..criam os filhos... os netos...os bisnetos...com a força derramando o suor que lutam colhendo o fruto da terra .. na sobrevivencia tirando o sustento.da .terra que os proprios indios xavantse reconhecem que ali nao e lugar deles....homens honestos...trabalhadores que sempre ajudaram a construir o pais atraves lutas... cade o reconhecimento dos direitos adquiridos...se o proprio governo federal nao reconheceu como terras indigenas levando e executando o projeto luz para todos ..terras nacionalizadas , escrituradas..e reconhecidas legalmente pelo incra..e que tambem .nunca foram devolutas...e que ja estao desbravadas... terra indigina tem que ser terras indigenas e com mata virgem..tai a desqualificaçao social e da má aplicaçao da legislaçao...nunca vai existir uma adapitaçao indigena ...num local desapropriado no habitat indigena..como vai pescar, caçar..comer frutas nativas e raiz..num lugar desbravado proibido a caça e pesca..num lugar desbravado a mais de cem anos...que nem sequer existe condiçoes de sobrevivencia..de um ser sem nacionalidade...

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