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Segunda-Feira, 06 de Abril de 2020, 16h:13 | Atualizado: 06/04/2020, 16h:13

Christiany Fonseca

Duelo: vida X economia

Christiany Fonseca

Christiany Fonseca

A maior pandemia da história foi a gripe espanhola que durou de janeiro de 1918 a dezembro de 1920. Foi uma pandemia do vírus influenza incomumente mortal. Cerca de 500 milhões de pessoas foram infectadas, um quarto da população mundial na época. Estima-se que o número de mortos chegou a 50 milhões, tornando uma das epidemias mais mortais da história da humanidade.

No Brasil não foi diferente. A gripe espanhola em nosso país, afetou até mesmo Rodrigues Alves, que venceu a eleição presidencial em 1918, porém não tomou posse porque foi acometido pela doença e acabou falecendo em janeiro de 1919. Estima-se que a gripe espanhola no Brasil tenha causado a morte de 35 mil pessoas.

Trago algumas comparações entre a gripe espanhola e o Covid-19. Folhetins e jornais impressos na época também orientavam o isolamento social como forma de prevenção. Bastante questionada a orientação, elevou exponencialmente o número de contaminação e de mortos na época. Rio de Janeiro e São Paulo foram os estados que mais sofreram nessa pandemia, ainda sim, ela chegou em todas as localidades do país. Esse questionamento não vem sendo diferente hoje, aqui na nossa Capital tivemos até uma carreata contrariando e repudiando as medidas que estão sendo adotadas para prevenir que essa patologia se alastre.

Uma outra variável importante é que tanto a gripe espanhola, como a Covid-19 não escolhem quais classes sociais “vão atacar”, pelo contrário, em 1918 tivemos o óbito do presidente eleito, Rodrigues Alves, e agora em 2020 já tivemos a perda de um prefeito do Piauí, Antônio Nonato, sem contar, que até mesmo o presidente do senado, Davi Alcolumbre, também teve teste positivo para a doença - se curou.

Nesse caso, travar uma queda de braço limitada e maniqueísta, no qual de um lado do pólo está a vida e do outro lado do pólo está a economia, é o mesmo que condenar a morte as duas alternativas. Eu diria que uma depende da outra para se manter, ou seja, são interdependentes entre si.

gripe espanhola

Sem a vida, a derrocada da economia é certa, já que ela depende da mão de obra do trabalhador, no qual os dividendos desse trabalho retornam para estrutura do mercado. Sem a economia, não conseguiremos prover e dar manutenção a vida. E aí chegamos no paralelo apresentado por Fukuyama em 1992: “Será o fim da história?”

Respondendo ao autor e a você leitor, não acredito que seja o fim da história. Democracia e vida, caminhando lado a lado com economia de mercado seria a melhor combinação ao alcance das nossas mãos, e somente nesse sentido que a história chegaria ao seu fim.

Infelizmente esse modelo econômico e político não será “abraçado” por todos. Cada país irá traçar o seu destino. Alguns já deram demonstrações que o altruísmo mútuo não será possível. Vimos como os EUA estão se posicionando quanto a exportação de materiais de saúde que são essenciais nessa pandemia.

Para contermos essa pandemia, atitudes e interesses individuais deverão ficar de lado em prol da coletividade. Serão tempos difíceis para todos. A pressão e o medo pela perda da vida, não pode estar equiparada a pressão e o medo pela fragilização da economia. Esse não é o momento de forçar a população a fazer uma escolha entre a perda da vida ou a perda do emprego, causando com qualquer uma das escolhas o sentimento de culpabilização do povo. Isso pioraria mais esse estado de medo, de isolamento e de incertezas e poderá resultar num caos permanente para todos.

Travar uma queda de braço limitada e maniqueísta, no qual de um lado do pólo está a vida e do outro lado do pólo está a economia, é o mesmo que condenar a morte as duas alternativas

Christiany Fonseca

A perda da vida deixaria de ser somente pela doença e passaria a ser também pelos dilemas sociais e financeiros que provavelmente ainda iremos enfrentar.

Não estou dizendo que essa situação é fácil de ser aceita e compreendida. Provavelmente sairemos dela sem muitas explicações, mas com muitas cicatrizes. Cicatrizes essas que não serão apenas de um grupo específico.

O Covid jogou para todos os grupos sociais, sem exceção, a responsabilidade de como venceremos essa crise, mas não nos deu nem os caminhos e nem as fórmulas, mas temos um grande aliado em nosso favor, a História.

Segundo Hegel, a história é um processo dialético. Preciso ratificar o clichê das Ciências Sociais: “Saber da história, para compreender o presente e construir o futuro”. Ainda tenho esperanças que essa máxima possa ser resgatada e reconsiderada para que os erros do passado não se repitam.

A consequência desses erros é definitiva, não permite voltar atrás. Inúmeras vidas perdidas e famílias em todos os lugares sofrendo por seus lutos são o ápice do egoísmo humano, seria um tributo à história humana, marcada pelo “homem que ficou conhecido ao propor seu fim”.

O ano de 2020 poderá entrar para os autos da história, como sendo a pandemia com o maior número de mortos, quiçá somando mais óbitos que a 1ª e a 2ª guerra mundial juntas (espero estar exagerando), já que a gripe espanhola dizimou muito mais vidas que a 1ª guerra mundial.

Não precisamos ser protagonistas desse caos em 2020. Ensejo que possamos nos destacar como a geração que irá valer-se da história, para não repetir os erros de 1918 com a gripe espanhola. Erro cometido a mais de 100 anos atrás.

Que passados 100 anos dessa traumática história, possamos nos rebelar contra os paradigmas que nos forçam a escolher apenas um lado como certo, como se estivesse em nossas mãos dar o veredito final, ou pela vida ou pela morte.

Como o Brasil é considerado o país do futebol, tentarei fazer uma analogia. Escolher pela vida ou pela economia, não trata simplesmente pela escolha de um time, fazer parte de uma torcida e esperar pelo único vencedor.

Espero que nessa partida entre vida X economia, muitas delas fomentadas por interesses unilaterais, não tenhamos apenas um vencedor. Prefiro que todos levem cartão vermelho, sejam expulsos desse jogo desigual, desumano e utilitarista.

Que esse cartão vermelho nos expulse desse jogo cruel e nos leve de volta pra casa, lugar onde devemos estar agora, para previnir a pandemia, ainda que fiquemos com muita raiva. Sabemos que jogadores nunca querem estar de fora de uma partida.

Isso será melhor do que você estar na arquibancada. Lá será um mero expectador de uma partida que não poderá influenciar em nada , somente lamentar ou se alegrar com o possível resultado, porém esse último, se alegrar, será uma condição temporária, já que o novo rival (Covid-19) parece ser muito mais forte e “ainda” conta com mais chances de vitória na partida final, pelo seu histórico de jogos. Veja quantos países (times) afora não conseguiram nem empatar com ele até o momento. Na maioria desses lugares ele tem vencido o time da chave 1, a vida, o que dá mais chances dele vencer o time da chave 2, a economia. Como já disse acima, um depende do outro para sobreviver.

Precisamos de bons técnicos entre os gestores, representantes do mercado e a própria sociedade. Assim poderão conduzir seus jogadores e mostrar quais as melhores táticas para vencer o inimigo. Pra isso, eles precisam saber como eram os jogos desse rival no passado, compreender como ele está estruturado no presente, e construir as melhores estratégias para derrotá-lo.

Fecho esse artigo com um apelo. Gestores, patrões e sociedade, vamos jogar todos no mesmo time. Parem de pressionar o povo a fazer uma única escolha, que não tem um efeito real! Parem de dividir nosso povo em prol da proteção das suas cifras! Parem de tentar nos usar como massa de manobra para defender projetos que não são nossos! Parem de fazer terror psicológico, culpando nosso povo pelos problemas que a economia pode enfrentar e o emprego que podem perdem! Por favor, Parem!

Já não basta viver em isolamento social, longe dos nossos familiares, longe da nossa rotina de vida? Domingo que vem é Páscoa, data que tradicionalmente reunimos nossos familiares, mas como estaremos nesse dia?

Estaremos e deveremos estar em nossas casas. O sentimento de nostalgia com certeza estará presente nessa data, ao mesmo tempo cultivando a esperança que dias melhores virão.

Não quero ver a “história repetir o passado”! Não quero que o COVID 19 supere o número de mortes que a gripe espanhola deixou! Não quero que o COVID 19 deixe uma crise econômica, maior do que a gripe espanhola deixou, ampliando o número de vítimas. As mortes continuavam ocorrendo, já não mais pela doença, mas pela fome que assolou muitos países na época!

A história infelizmente pode se repetir. Não vamos deixar que interesses utilitaristas, defendidos por um pequenos grupo de privilegiados com poderio econômico decida o que deve ser salvo. Mais vidas garantidas, mais pessoas reconstruindo a economia!

Christiany Fonseca é analista política e Professora de Sociologia no IFMT, também é mestre em Educação e doutoranda em Sociologia.

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