ARTIGOS

Sábado, 19 de Outubro de 2019, 06h:53 | Atualizado: 19/10/2019, 07h:08

Luiz Henrique Lima

O cidadão e o torcedor

Luiz Henrique Lima

Luiz Henrique Lima

Há quem concorde com o lugar-comum, muito repetido nesses tempos, de que fazer uma crítica a determinada declaração ou iniciativa na área de políticas públicas significa que o seu autor está “torcendo contra” o município, o estado ou o Brasil. Apela-se para “torcer a favor”, silenciando toda reflexão crítica. Ora, ser cidadão não é igual a ser torcedor e ser torcedor não é igual a ser cidadão. Ambas facetas podem coexistir dentro do mesmo indivíduo, mas as suas características são bem distintas.

Eu, por exemplo. Ninguém é perfeito, reza o ditado. Quem me conhece, sabe que sou um torcedor apaixonado do Flamengo. Para alguns, esse é mais um dos meus múltiplos defeitos. Para outros, é a minha única qualidade.

Minha paixão pelo Flamengo veio do meu pai e do meu avô e já foi transmitida aos meus filhos. Ela é compartilhada com minha esposa e irmãos e com muitos milhões de brasileiros. Não tem rigorosamente nada de racional. Paixões existem para serem vividas, não para serem explicadas.

Posso falar o mesmo de muitos amigos que cultivam paixões semelhantes por clubes rivais. Ao final de cada jogo ou campeonato, as brincadeiras e provocações se multiplicam, sempre com bem-humorado exagero, em que são maximizadas as virtudes do seu time e as falhas do adversário. A lógica do torcedor é não ter nenhuma lógica, a não ser a de celebrar o seu time de coração.

A lógica do cidadão é diferente. Como cidadão, não cultivo nenhuma paixão ou ojeriza especial por qualquer agrupamento político. Identifico-me com causas e propostas, não com personalidades. Às vezes, pode haver uma concordância ou divergência maior com alguma liderança, mas em regra tento ser guiado pela racionalidade

A lógica do cidadão é diferente. Como cidadão, não cultivo nenhuma paixão ou ojeriza especial por qualquer agrupamento político. Identifico-me com causas e propostas, não com personalidades. Às vezes, pode haver uma concordância ou divergência maior com alguma liderança, mas em regra tento ser guiado pela racionalidade.

Assim, na hora de votar, nem sempre sigo a tradição do meu pai, que nem sempre seguia a do meu avô. E quase sempre divirjo de um ou mais dos meus irmãos. A vida inteira torcemos juntos, mas como cidadãos cada um tem as suas escolhas e elas são respeitadas.

Creio que a maioria dos brasileiros não se sente obrigada a escolher sempre os mesmos candidatos. Não é incomum a pessoa votar em determinado partido e na eleição seguinte deixar de votar e fazer outra opção, seja porque não ficou satisfeita com o seu desempenho, seja porque imaginou que uma alternativa seria melhor. Isso não é comportamento de torcedor: é de cidadão.

Ninguém imagina que, ao assistir um jogo, um torcedor troque de camisa e passe a torcer pelo adversário. Mas conheço cidadãos que mudaram os seus votos ao acompanhar um debate ou uma campanha eleitoral. Não são vira-casacas. São pessoas que buscam refletir e encontrar a melhor opção para o futuro, conforme as suas convicções e valores.

Para o cidadão consciente, o fato de não ter apoiado o vitorioso em determinado pleito não o impede de aplaudir medidas que considere positivas para a coletividade. De igual forma, se  seu preferido venceu, isso não significa que estará imune a críticas, caso cometa erros - e quem não os comete? Sem críticas, a gestão não se aprimora. Um verdadeiro democrata sabe distinguir o elogio da lisonja e a crítica da ofensa.

Tratar o cidadão como torcedor, censurando-lhe o comportamento crítico, significa reduzir o debate público ao nível dos gritos-de-guerra de torcidas organizadas. Quem o faz, não percebe que essa confusão embute um risco.

No futebol, a torcida não perdoa a falha do goleiro ou o erro do atacante que desperdiça um pênalti numa decisão. Mesmo apaixonado pela camisa, o torcedor vaia impiedosamente os atletas que julga indignos de vesti-la. E dois meses de maus resultados são suficientes para demitir um treinador.

Transferir essa dinâmica para a gestão pública não é recomendável. Teríamos maior rodízio de governantes do que o de treinadores na Série A. Ademais, o torcedor não entra em campo, enquanto na democracia é o cidadão quem tem o maior poder e responsabilidade de escolha.

Melhor não misturar os papéis, deixando o cidadão exercer o seu espírito crítico e o torcedor vibrar com o seu time favorito.

E viva o Flamengo!

Luiz Henrique Lima é Conselheiro Substituto do TCE-MT. E-mail: luizhlima@tce.mt.gov.br

Postar um novo comentário

Comentários

  • Comente esta notícia

Despesas e o uso eleitoreiro de CPI

marcelo bussiki 400 curtinha   Buscando visibilidade pela reeleição em ano eleitoral, alguns vereadores da Capital, vergonhosamente, usaram e abusaram de dinheiro público para promoção pessoal na esteira da CPI do Paletó. A tendência é do relatório paralelo que pede afastamento do...

Sorriso incentiva 40 projetos culturais

ari lafin 400 curtinha   A seis meses de concluir o mandato, o prefeito de Sorriso, Ari Lafin (foto), estabeleceu, dentro do Plano Municipal de Cultura, o "PROMIC - Festival da Cultura 2020" para contemplar 40 projetos cujos valores somam R$ 340 mil, envolvendo artes visuais, artes cênicas, cultura popular, música, audiovisual,...

Quase R$ 2 mi para o Lucas Protegida

binotti 400 curtinha   A Prefeitura de Lucas do Rio Verde, sob Luiz Binotti (foto), contratou, por R$ 1,9 milhão, um consórcio formado pela Rocha Comércio de Equipamentos, que ficará com a maior "fatia" de R$ 1,4 milhão, e a Airplates Tecnologia da Comunicação, com R$ 521,7 mil, para desevolver o...

Silêncio sobre operação e elo com MBL

ulysses moraes 400 curtinha   O deputado de primeiro mandato Ulysses Moraes (foto), que deixou o DC e se filiou ao PSL, coordenador em Mato Grosso do Movimento Brasil Livre (MBL) e chamado por muitos de paladino da moralidade, mesmo sendo bastante ativo nas redes sociais, não usou a internet para comentar a operação da...

Nomes do DEM para vereador de VG

pablo 400 curtinha   O DEM do casal Jayme-Lucimar, senador e prefeita, respectivamente, é dono da maior bancada na Câmara de Várzea Grande, com sete dos 21 vereadores. Destes, cinco já estão trabalhando projeto de reeleição, sendo eles Gisa Barros, que era do PSB; Valdemir Bernadino, o Nana; Pedro...

Flerte com candidato de outro partido

selma arruda 400 curtinha   Apesar de estar filiada ao Podemos, a ex-senadora Selma Arruda, que teve o mandato cassado por crimes eleitorais e deixou a cadeira neste ano, continua flertando com o pedetista, empresário e vice-governador Otaviano Pivetta, que não demonstra mais tanto ânimo para continuar com o projeto de disputa...

MAIS LIDAS

ENQUETE

facebook whatsapp twitter email

Em Cuiabá, o prefeito suspendeu a decisão de implantar rodízio de veículos entre placas pares e ímpares devido à Covid-19. Mas quer debater a ideia. Você concorda com rodízio?

concordo

discordo

tanto faz

não sei

Não se trata de pesquisa eleitoral, mas de um mero levantamento de opiniões de leitores do RDNews e do Blog do Romilson, com participação espontânea dos internautas. Resultado sem valor científico.