O Santuário de Elefantes Brasil (SEB) iniciou os preparativos para transferir o elefante asiático Sandro para Chapada dos Guimarães (a 65 km de Cuiabá), após anos de batalha judicial para retirar o animal do Zoológico Municipal Quinzinho de Barros, em Sorocaba (SP). A chegada está prevista para este mês de setembro, mas dependerá da adaptação do animal à caixa de transporte. Ele será o único macho entre as seis fêmeas asiáticas cuidadas atualmente pela instituição.
A transferência do elefante cumpre determinação do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), julgada em 18 de junho a partir de ação do Ministério Público estadual (MPSP), com o apoio de ONGs de proteção animal, processo que se arrasta desde 2020. Antes de ser acolhido no Quinzinho de Barros, Sandro era utilizado em apresentações circenses; hoje, aos 53 anos, o animal é considerado idoso.
Em coletiva on-line concedida à imprensa, o diretor do SEB, Daniel Moura, e o presidente da instituição, Raphael Bontempi, informaram que a equipe técnica deve chegar ao zoológico de Sorocaba entre os dias 11 e 12 de setembro, juntamente com a caixa de transporte. A partir de então, começa o processo de adaptação de Sandro, que não tem prazo definido.
“Nós estabelecemos uma média de aclimatação de cerca de uma semana, um teto de uma semana. Pode durar menos, pode durar mais; vai depender muito de como esse processo vai acontecer, de como o Sandro vai cooperar, porque é sempre no tempo do elefante, nunca no nosso tempo”, explicou Daniel, que é biólogo.
A caixa de transporte será colocada dentro do recinto de Sandro para que ele se familiarize. “São animais muito curiosos, no primeiro dia eles já exploram cada canto”, disse o especialista. Nos dias seguintes, se o elefante tomar a iniciativa de entrar na caixa, a equipe iniciará os testes de fechar a porta e observar como o animal se comporta. Se ele se sentir seguro, a viagem pode acontecer logo no dia seguinte.
Todo o processo de adaptação será conduzido em conjunto com a equipe técnica do zoológico, que continuará responsável pela rotina do animal. A princípio, o local permanecerá aberto ao público, mas há a possibilidade de a visitação ser vetada caso haja manifestações. Em Sorocaba, parte da população resiste à mudança de Sandro, inclusive o próprio prefeito, Rodrigo Manga. Por essa razão, o MPSP solicitou o acompanhamento policial para garantir que o procedimento ocorra sem tensão.
Segundo Daniel, caso o animal não esteja confortável após 10 dias, uma nova data para as tentativas será marcada; em caso de sucesso, a viagem a Chapada dos Guimarães tem duração prevista de cerca de 48 horas. O especialista admitiu que o traslado envolve riscos, agravados pela idade avançada do animal, mas afirmou que a possibilidade de intercorrências é mínima diante do planejamento e dos cuidados constantes com Sandro.
A caixa de transporte que será utilizada para o traslado do elefante é a maior do SEB, possuindo 5 metros de comprimento, 3,5 metros de altura e 2,5 metros de largura. A estrutura pesa cerca de 10 toneladas, aproximadamente o dobro do peso do animal. Daniel esclareceu que essa proporção é necessária para garantir a estabilidade no caminhão e a segurança da viagem de cerca de 1.500 quilômetros.
O transporte será feito por um caminhão prancha de 24 metros de comprimento, que será escoltado pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) do início ao fim. O animal ficará em pé durante todo o trajeto; no entanto, segundo o biólogo, não há razão para se preocupar porque os elefantes possuem a capacidade de permanecer nessa posição durante dias sem sofrimento.
De acordo com ele, uma caixa maior, que permitisse o movimento do animal, poderia resultar no tombamento do veículo. “Ele não pode girar dentro da caixa. Se um elefante girar dentro da caixa, perde-se o eixo central e pode tombar o caminhão. Então, o elefante só pode ir para trás e para frente na caixa de transporte”, explicou.
Quanto ao conforto do animal, a caixa de transporte possui dois aparelhos de ar-condicionado de grande porte, em razão do período de calor intenso em Mato Grosso. A estrutura também conta com janelas que podem ser eventualmente abertas para a circulação de ar, câmeras de monitoramento, suprimento de água e comida, além de um sistema de coleta para a limpeza de dejetos ao longo do trajeto.
Estão previstas pelo menos seis paradas técnicas ao longo da viagem para os cuidados com o animal. Este número, no entanto, pode aumentar ou diminuir de acordo com as necessidades do elefante.
Segundo o presidente do SEB, o advogado Raphael Bontempi, o custo total do traslado pode chegar a R$ 200 mil. Por isso, a instituição iniciou uma campanha de arrecadação para quem tem interesse em apoiar a causa e ajudar a arcar com os custos.
Saúde debilitada
Daniel Moura informou que, até onde tiveram acesso, o histórico veterinário de Sandro indica problemas odontológicos e articulares, alterações gastrointestinais e estereotipias. Segundo ele, problemas de saúde relacionados tanto à idade avançada quanto à vida em cativeiro.
Ao chegar ao SEB, o próximo passo é, de acordo com o biólogo, o mais desafiador. Sandro passará por uma bateria completa de exames e procedimentos de saúde, muitos dos quais vão depender da confiança que o animal adquirir aos poucos com a nova equipe de cuidadores.
Segundo o zoológico, o elefante alimenta-se atualmente apenas de comida triturada em razão de um problema dentário; contudo, a instituição ainda não apresentou laudos ou exames que comprovem a condição clínica. De acordo com Daniel, no santuário será possível conduzir uma investigação minuciosa para definir se Sandro realmente não tem condições de se alimentar com autonomia.
“Lá nós temos condições de fazer essas avaliações depois de treinar o Sandro. Só depois da avaliação [veterinária] e do treinamento, quando o Sandro confiar na gente para olharmos a boca dele, é que vamos conseguir dizer se ele tem os dentes íntegros, se tem os dentes parciais e como está a dentição dele, para sabermos se daremos continuidade ou não [na alimentação triturada]”, detalhou.
A aparente dificuldade de alimentação de Sandro é um dos argumentos que o prefeito Rodrigo Manga utiliza para sustentar que o animal deveria ficar em Sorocaba, já que é comum no santuário que os animais adquiram autonomia alimentar. No entanto, Daniel explicou que todos os elefantes que vivem no SEB são alimentados pelos cuidadores de acordo com suas necessidades nutricionais e que a alimentação autônoma é apenas uma possibilidade incentivada.
“Nós conseguimos fornecer 100% da alimentação dele picada, da maneira que o zoológico faz hoje, e ainda assim ele poderá tentar explorar o ambiente, se assim quiser e conseguir. Nós não vamos simplesmente colocar o elefante no local e dizer: 'Boa sorte, vá se alimentar sozinho, vire-se'. Não é isso. Nós damos a oportunidade, mas temos como fornecer tudo diretamente a ele”, esclareceu.
Ao comentarem o estado de saúde do animal, os dois dirigentes do santuário lamentaram os seis anos de processo judicial que atrasaram a ida de Sandro para Chapada dos Guimarães. Segundo eles, esse tempo perdido poderia ter sido dedicado ao cuidado com o animal.
Nova vida
No santuário, Sandro passará por um longo processo de adaptação à nova maneira de viver. No habitat, pela primeira vez na vida, ele poderá circular livremente por uma área de pelo menos 30 hectares, dedicada exclusivamente aos espécimes asiáticos machos, com floresta, lagoas e riachos. De acordo com Raphael Bontempi, o espaço é 300 vezes maior do que o recinto atual no Zoológico Municipal Quinzinho de Barros.
O animal ficará em uma ala separada das outras moradoras: Maia, Rana, Mara, Bambi, Baby e Guillermina. No entanto, terá contato visual constante com as vizinhas e, caso queira, poderá ter contato físico intermediado por uma grade. Daniel explicou que a dinâmica não é muito diferente daquela observada na natureza, em que machos e fêmeas tendem a se encontrar apenas no período reprodutivo.
“E a ideia do santuário não é a reprodução, não é um programa de conservação, então eles vão ter esse contato se eles quiserem pela cerca, mas se eles não quiserem chegar perto não vão ser obrigados. A gente dá autonomia, eles que vão escolher”, disse.
Imbróglio judicial
A transferência do elefante Sandro foi solicitada pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP), que alegou que o animal vive em condições de isolamento desde a morte de sua companheira, a elefanta Haisa, ocorrida em 2020, o que vinha comprometendo sua saúde física e emocional.
Embora a Prefeitura de Sorocaba já tivesse recorrido de decisões anteriores argumentando que o animal é bem assistido por uma equipe qualificada e que a viagem de longa distância ofereceria riscos, magistrados do TJSP julgaram o caso em junho deste ano e decidiram pela transferência baseando-se em um laudo pericial judicial e em recentes fiscalizações de órgãos federais.
Segundo a perícia técnica, o atual recinto do zoológico carece de espaço e infraestrutura mínima para a manutenção da espécie. Um dos pontos mais críticos destacados foi a falta de um brete de contenção, o que impede a realização de exames laboratoriais periódicos no animal, que já possui idade avançada.
A situação de Sandro agravou-se com a recente emissão de um Auto de Infração Ambiental pelo IBAMA, em setembro de 2025. O órgão federal aplicou uma multa diária ao município em razão das condições. "A cada dia que o espécime é mantido nestas condições, a cada dia ele está submetido a maus-tratos", apontou o Relatório de Fiscalização do ICMBio citado no processo.
Em decisão do dia 27 de agosto, um dia antes do anúncio feito pelo SEB, o TJSP rejeitou, por unanimidade, mais um recurso da prefeitura. No recurso, a administração municipal alegou entraves burocráticos e orçamentários relacionados à Lei de Licitações, apontou riscos no transporte decorrentes do estado de saúde de Sandro e defendeu sua permanência na cidade, mencionando um projeto de reforma do recinto avaliado em R$ 3,65 milhões.
Contudo, o relator do caso, desembargador Paulo Ayrosa, pontuou que os laudos periciais judiciais foram conclusivos sobre a viabilidade e a segurança do deslocamento. O magistrado também ressaltou que as melhorias prometidas pelo município não saíram do papel desde o início das apurações, em 2020.
Conforme o acórdão, a responsabilidade técnica e financeira pelo transporte interestadual caberá primariamente ao próprio Santuário de Elefantes Brasil, ficando o Município de Sorocaba encarregado de fornecer suporte integral e de arcar com os custos apenas de forma subsidiária.
A decisão fixou o prazo de 45 dias para o cumprimento da medida, sob pena de multa diária de R$ 2 mil, limitada ao montante de R$ 300 mil, deixando eventuais ajustes de cronograma operacional para serem avaliados na fase de cumprimento de sentença.
Entre na comunidade do Rdnews no WhatsApp e acompanhe as notícias em tempo real; Acesse















valfredo 03/09/2026
absurdo um santuário de elefantes no mato grosso
1 comentários