Entra ano, sai ano, e Mato Grosso ainda figura como um dos estados mais violentos em relação à segurança da mulher. Apenas no primeiro semestre de 2024, foram registrados pela Polícia Civil vinte casos de feminicídios, uma estimativa de mais de duas mortes por mês motivadas pela violência de gênero. Conforme os dados, nesses primeiros seis meses, 100% dos casos resultaram em inquéritos policiais e, em 17 ocorrências, os suspeitos foram presos. No entanto, outros três casos seguem com os supostos autores foragidos.
Apesar da baixa porcentagem de casos sem punição para o autor do crime, ainda há muitas famílias que sofrem a dor do luto e anseiam por justiça. É o caso da família do jornalista Rogério Adriano Duroure da Silva, que, em julho de 2022, perdeu a irmã Silbene Duroure da Guia, de 40 anos.
Montagem
Silbene Duroure, que foi assassinada a facadas, e o marido, Gilson Castelan, suspeito de ser o autor do crime
Silbene foi assassinada a facadas em Várzea Grande e o principal suspeito do crime, segundo as investigações da Polícia Civil, é o marido dela, Gilson Castelan de Souza, que está foragido. Em entrevista ao
, o jornalista - conhecido como "Cabeça de Urso" - afirmou que a família vive hoje mergulhada no sentimento de revolta porque o suspeito foi identificado desde o princípio e mesmo assim não se encontra atrás das grades.
“Sabíamos desde sempre que tinha sido o Gilson Castelan de Souza. Na época, a família foi atrás, mas, infelizmente, até hoje, nenhuma notícia. Eu acho que por se tratar de família humilde, as investigações não foram efetivas na procura dele. Quantos feminicídios já aconteceram em famílias famosas de Cuiabá, já foram solucionados e os elementos presos?”, questiona Rogério.
“Na época, a família foi atrás, mas, infelizmente, até hoje, nenhuma notícia. Eu acho que por se tratar de família humilde, as investigações não foram efetivas na procura dele”
Rogério Duroure, jornalistaO jornalista conta que a situação é ainda mais angustiante porque, recentemente, ficou sabendo de informações sobre o paradeiro do suspeito, o que enfatiza o sentimento de impunidade.
“Não tivemos informações de nada. Eu vou lá na delegacia, mas parece que eles arquivaram o processo, não acham nada. Eu recebo informações de onde ele está e vou atrás. Mas a Polícia parece que não faz nada. Minha família não é a única esperando justiça. Tem que olhar para os crimes que acontecem contra as pessoas mais humildes também”, desabafa.
“Como homenagem, colocaram o nome da minha irmã em uma sala da UPA Morada do Ouro, mas isso não ameniza a morte da minha irmã. Estamos até hoje sabendo que esse crápula está solto”, completa o jornalista.
Sobre a atuação da Polícia Civil, a delegada Judá Marcondes, titular da Delegacia Especializada de Defesa da Mulher de Cuiabá, defende o processo de investigação e ressalta o alto índice de resolutividade.
“A Polícia Civil apresenta a solução através dos inquéritos, nos quais os suspeitos são indiciados. Aqueles que porventura não foram presos ou estão foragidos, entram para o setor de captura da Polícia Civil e serão presos, podem ter certeza. São empenhados todos os recursos possíveis, é uma questão de prioridade”, destaca.
Crime anunciado, mas sorrateiro
Segundo Judá Marcondes, o feminicídio é um crime anunciado, uma vez que é o último estágio da violência doméstica. Antes de morrer, a mulher é vítima de ameaças, manipulações e agressões físicas e verbais. No entanto, presa no ciclo da violência, não consegue pedir ajuda e se desvincular do agressor.
“O feminicídio é um crime anunciado. Acontecem diversos crimes de violência contra mulher dentro do ciclo de violência e, nesses episódios, é que se está anunciando o feminicídio. O controle excessivo, o ciúmes, tudo isso anuncia esse comportamento nocivo. Mas a sociedade ensina as mulheres a não perceberem esses fatores de riscos”, explica a titular da DEDM.
“A violência psicológica está mais presente em vítimas de feminicídios do que a violência doméstica, porque é um agente facilitador, porque é sutil e impede a mulher de perceber que está sendo levada à morte”
Delegada Juda MarcondesEntre as ações de violência que precedem o feminicídio, a delegada destaca a violência psicológica.
“A violência psicológica é sutil e sorrateira, de forma que a mulher não percebe. Ela é um agente facilitador das outras violências, inclusive do feminicídio. Fizemos uma análise dos feminicídios de 2023 e averiguamos que 70% das mulheres que sofreram feminicídios foram vítimas de violência psicológica e uma parcela considerável não tinha sofrido violência física. Ou seja a violência psicológica está mais presente em vítimas de feminicídios do que a violência doméstica, porque é um agente facilitador, porque é sutil e impede a mulher de perceber que está sendo levada à morte”, conclui a delegada.
Agosto Lilás
Agosto Lilás é o mês de conscientização pelo fim da violência contra as mulheres, instituído como mês de proteção às mulheres em homenagem à Lei Maria da Penha.
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