A campanha presidencial do segundo turno foi marcada mais por ataques pessoais, acusações de corrupção e violência verbal do que pela apresentação de propostas, na avaliação da socióloga e jornalista Olga Lustosa. Em entrevista ao
, ela afirma que a expectativa de uma disputa menos agressiva não se confirmou e que o confronto entre o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) não apresentou sinais de arrefecimento da polarização política no país.
Para Olga, o ambiente eleitoral permaneceu tenso desde o início das candidaturas e a estratégia dos dois grupos foi explorar a rejeição ao adversário, em vez de priorizar o debate sobre os problemas enfrentados pela população. O primeiro debate do segundo turno, realizado pela Band, exemplificou esse cenário, com acusações envolvendo corrupção e familiares dos candidatos. “As propostas foram vencidas pelos ataques, predominaram os ataques”, avalia.
A socióloga ressalta que a escalada de agressividade já era prevista por analistas políticos desde o primeiro turno. Na avaliação dela, a violência política não diminuiu, mas mudou de forma, concentrando-se em xingamentos, acusações, ameaças envolvendo familiares e denúncias sem comprovação.
Olga considera que a estratégia pode ter sido um erro das duas campanhas, especialmente diante do eleitorado que ainda não havia definido seu voto ou que se absteve no primeiro turno. Segundo ela, esse segmento tende a demonstrar menor disposição para se envolver em discussões marcadas por agressividade e acusações de corrupção.
Cansaço
Após anos de disputas eleitorais marcadas pelo confronto entre lulismo e bolsonarismo, Olga identifica sinais de desgaste da população com a polarização. Para ela, o cansaço não se limita aos candidatos, mas alcança a própria discussão política.
A socióloga, porém, pondera que esse fenômeno convive com uma contradição: mesmo diante do desgaste, alternativas políticas não conseguiram despertar interesse suficiente para romper a concentração da disputa entre os dois principais campos. “Há um cansaço hoje, eu percebo, não só com relação a discutir os candidatos. Há um cansaço para se falar sobre política”, afirma.
Na avaliação dela, esse esgotamento reduz a disposição das pessoas para ouvir opiniões divergentes e diminui a tolerância ao debate, sem necessariamente se converter em mudança de voto.
Desinformação
Outro ponto analisado por Olga é a utilização da inteligência artificial (IA) nas campanhas eleitorais. Segundo ela, houve preocupação excessiva com a possibilidade de uso da tecnologia para manipular conteúdos, especialmente por parte das assessorias jurídicas dos candidatos, mas o emprego da ferramenta ficou aquém do que se previa.
Há um cansaço hoje, eu percebo, não só com relação a discutir os candidatos. Há um cansaço para se falar sobre política
A socióloga atribui parte desse resultado à atuação dos órgãos de fiscalização eleitoral e às medidas de controle sobre conteúdos produzidos artificialmente. Ela cita como exemplo a repercussão de um vídeo exibido em uma reunião do PL, com imagem e voz do ex-presidente Jair Bolsonaro recriadas por inteligência artificial, que acabou retirado do ar e resultou em punição ao partido, conforme seu relato.
Para ela, o receio de sanções levou as campanhas a adotar uma postura mais cautelosa. O espaço que se imaginava que seria ocupado pela IA, contudo, acabou preenchido por práticas tradicionais de desinformação. “Em vez de termos investido na IA, o processo de marketing e de criação dos candidatos preferiu continuar trabalhando e apostando na desinformação barata”, pontua.
Ela cita a circulação de informações falsas, recortes de declarações antigas, imagens editadas e legendas enganosas como recursos que continuaram presentes na disputa. Para Olga, essas estratégias demonstram que a manipulação da informação não depende necessariamente de tecnologias sofisticadas para influenciar o ambiente eleitoral.
Reta final
Às vésperas da votação, Olga considera que as últimas horas de campanha são decisivas, mas oferecem pouco espaço para corrigir estratégias que se mostraram equivocadas ao longo da disputa. Com a redução das atividades políticas e o encerramento da campanha, os candidatos já não teriam tempo suficiente para reorientar o debate.
A socióloga lamenta que temas diretamente relacionados às preocupações cotidianas dos brasileiros tenham ficado em segundo plano, enquanto ataques pessoais e acusações dominaram a disputa.
Para ela, o principal saldo do segundo turno é a permanência de um país dividido, sem que os candidatos tenham conseguido construir um ambiente de maior pacificação política.
“É uma pena que vamos para a urna com essa sensação de que, não importa quem ganha, continuaremos vivendo uma situação política polarizada e violenta”, conclui.
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