ENTREVISTA ESPECIAL

Quinta-Feira, 28 de Fevereiro de 2019, 13h:31 | Atualizado: 28/02/2019, 13h:48

Filha de passistas e capoeirista, rainha do Carnaval fala sobre preconceito e desejos

Izzy Lima, 39 anos, tem história de dedicação a dança e capoeira e é escolhida rainha da folia em 2019

Rodinei Crescêncio/Arte/Rdnews

Izzy Lima

 

Filha de passistas e membro de família que vive a cultura negra em todos os sentidos, a Rainha do Carnaval eleita em 2019, Izzy Lima, tem muito samba no pé e uma história de tirar o fôlego. Desde criança pula Carnaval fantasiada e na Sapucaí, em 2013, controlou a emoção e fez bonito para representar Cuiabá. Capoeirista e defensora das minorias, ela treina pesado na musculação e garante que não tem segredos de dieta e come muito arroz e feijão para dar conta da rotina movimentada. Com sorriso no rosto e um corpo delineado de músculos, aos 39 anos, ela venceu o concurso – e provocou comentários de todos os tipos. Em entrevista, ela narrou um caso de racismo, e considera o Brasil um país absurdamente preconceituoso, apesar de miscigenado.

Confira os melhores trechos da entrevista:

Izzy, você é ótima dançarina e capoeirista. Como organiza sua agenda e ganha a vida com tantas atividades?

Nunca ganhei dinheiro com dança, faço dela minha arte e dançar é minha vida. Ganho a vida com a capoeira. Cada grupo de capoeira segue sua própria regra de cores, o meu irmão é meu mestre e o nome da nossa associação é "A Dança do Guerreiro". É uma associação filantrópica e direcionada a pessoas que gostam da arte da Capoeira, a única coisa que a gente cobra é uma tacha de inscrição, os alunos ganham a camiseta do grupo e a mãe tem trinta dias para fazer o abada, que é a calça usada para jogar capoeira.

Desde quando se considera uma apaixonada pelo samba e Carnaval?

Desde os dois anos de idade eu sou apaixonada pela dança, meus pais vieram para Mato Grosso em 1973 e ficamos aqui. Eles foram campeões de gafieira nessa mesma época, meu pai era baiano e minha mãe cearense. O samba está não só nas minhas veias, mas na cultura, por meio dos meus próprios pais. Não aprendi a dançar com ninguém, danço naturalmente desde pequena e fui aperfeiçoando com o tempo meus passos em workshops fora de Cuiabá, entre eles, um com a Rainha da Mangueira Evelyn Bastos, em 2013, e assim quanto mais eu procuro conhecimento para mim é muito melhor.

Pela sua rotina, você parece uma apaixonada pela cultura negra, como descreveria isso?

Arquivo Pessoal

Izzy Lima

Além de sambar, Izzy Lima também pratica capoeira em Cuiabá

A cultura negra sempre foi muito próxima de mim, desde a infância – pulo todos os dias de carnaval. Todo ano eu queria uma fantasia diferente, não gostava de repetir e até que um dia minha mãe comprou corda de sisal para fazer uma sainha com braceletes e eu poder pular carnaval. Nesse ano, machuquei meu pé e meu pai me proibiu de pular Carnaval, comecei a chorar, pois mesmo com o pé doendo queria estar lá no meio do povo. Eu disse que se ele não deixasse ir, eu pularia a janela, ele me trancou no quarto. Eu consegui abrir a janela e fui pular Carnaval.

Já passou por alguma situação de racismo sendo uma mulher negra e se fazendo presente em tantos nichos dessa cultura, como o samba e capoeira?

Senti na pele o racismo aqui em Cuiabá, pessoas julgarem a gente pela cor da pele é doloroso e um absurdo. Uma vez, olhando uma vitrine de relógios no shopping, uma mulher me olhou dos pés a cabeça e me perguntou o que estava fazendo ali e eu disse que estava olhando os relógios. Ficou me encarando, entrou e ficou cochichando com alguns funcionários e isso me doeu muito. As pessoas acham que os negros não terem condições de comprar algo, irão roubar. Aqui é o país mais miscigenado do mundo com negros, índios e todos os tipos de etnia, mas é um país preconceituoso. Não é só o preconceito com os gays, mas também com os travestis – e é muito complicado ter que ver esse tipo de situação todos os dias.

O Carnaval costuma ter índices altos de violência e assédio, você já passou por alguma situação complicada?

Já levei muitas cantadas, mas nada que fosse violento. Se alguém me diz algo que eu não gosto, ignoro. Penso que se eu responder, em algumas situações, as coisas pioram. Sou capoeirista e toda arte marcial costuma nos ensinar muito mais a paciência do que ter uma reação violenta. Infelizmente, algumas mulheres passam por situações lamentáveis, acho isso inaceitável e triste. É importante se defender, se necessário, e pedir ajuda.

Como foi a experiência de desfilar na Sapucaí?

Tenho um carinho muito grande pelo samba. Entrei na Sapucaí com a Mangueira para representar Cuiabá e, só de lembrar esse dia, encho os olhos d'água e meu corpo arrepia inteiro (pausa).

É a primeira vez que participa de um concurso destes?

Eu participei em 1999 do concurso pra Rainha do Carnaval, mas não ganhei. Agora, 20 anos depois, conquistei esse título. Quando não fui classificada, não fui agredir ninguém verbalmente ou dizer que o júri estava errado. O ego, algumas vezes, é maior do que o próprio respeito. Agora, quando ganhei, muita gente foi falar mal ou dizer que eu não merecia. Porém, quem conhece a minha história no samba, acredita em mim.

Tem alguma dieta específica ou segredo para manter suas curvas? Teve alguma preparação especial para o Carnaval?

Como comida normal, como todo mundo. Não gosto de nada integral e não me privo de comer o que eu gosto, como muito arroz branco, feijão, carne e amo carne de porco, peixe. O açaí, nem se fala. Pego pesado nos treinos de musculação e também na capoeira, mas isso não é só para o Carnaval, faz parte da minha rotina.

Mário Okamura

confrariadobode

Izzy Lima samba ao lado do Rei Momo Daniel Victor, durante o 3º ensaio da Confraria do Bode, em fevereiro; eles são os anfitriões do Carnaval 2019

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Comentários (4)

  • Rosychelli | Quarta-Feira, 06 de Março de 2019, 17h43
    1
    0

    Parabéns minha querida amiga se colegial. Vc arrasa.

  • Weto Salgado | Segunda-Feira, 04 de Março de 2019, 19h19
    0
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    Grande pessoa primeiramente, Deus deu um dom a ela, humildade, disciplina, respeito. Grande mulher guerreira da Capoeira, do samba, do movimento negro, uma grande rainha que esperou o momento certo pelo seu reinado. Vai brilhar minha amiga, que você merece.

  • Michel Sanches | Sábado, 02 de Março de 2019, 09h30
    0
    0

    Uma grande amiga, uma grande guerreira, uma vencedora!!! Parabéns Izzy!!! Vc merece tudo isso e muito mais!!

  • Ray | Quinta-Feira, 28 de Fevereiro de 2019, 20h21
    2
    0

    Essa menina é exemplo de persistencia...fé e coragem...sempre foi decidida...por mais que eu fale dela...nenhuma palavra chega ao topo do seu carater e coragem

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Concordo - esse Exame tem de acabar

Discordo - bacharel precisa, sim, se submeter ao Exame

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Não se trata de pesquisa eleitoral, mas de um mero levantamento de opiniões de leitores do RDNews e do Blog do Romilson, com participação espontânea dos internautas. Resultado sem valor científico.