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ENTREVISTA ESPECIAL Sábado, 19 de Agosto de 2023, 07:47 - A | A

Sábado, 19 de Agosto de 2023, 07h:47 - A | A

Tráfico humano inicia com promessa milagrosa, alerta coordenadora do Netrap

Coordenadora de núcleo fala sobre "bandeiras vermelhas" que devem ser observadas para ajudar vítimas

Kethlyn Moraes

 

Annie Souza/Rdnews

maria jose garcia joaquim raio x

Entre janeiro de 2020 e abril de 2023, Mato Grosso registrou cinco ocorrências de tráfico de pessoas, de acordo com os dados do Observatório de Segurança Pública (OBS). No entanto, a coordenadora do Núcleo Estadual de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas (Netrap) da Sesp, Maria José Garcia Joaquim, afirma que esses dados são muito maiores e não condizem com a realidade. A coordenadora também explica que os casos de tráfico humano em Mato Grosso começam sempre com propostas milagrosas de uma vida melhor e que é preciso ficar alerta para as ‘bandeiras vermelhas’.

Confira, abaixo, os principais trechos da entrevista
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Annie Souza/Rdnews

Maria Jos� Garcia Joaquim, coordenadora do N�cleo Estadual de Enfrentamento Netrap

Qual é o cenário em Mato Grosso em relação ao tráfico de pessoas e quais as circunstâncias em que mais acontecem?

Atualmente, o que mais ocorre são essas promessas “milagrosas”, de empregos melhores e realização de sonhos que, na verdade, acabam na prostituição. Acontecem mais com adolescentes e jovens. Há também os casos de crianças, de exploração infantil e de garotos que são aliciados para serem jogadores de futebol e são conquistados pelo sonho. Com esses convites, acreditam que a vida vai mudar. Esses aliciadores costumam pagar um ‘dinheirinho’ para a vítima enquanto ela ainda está em sua cidade, por exemplo, R$ 3 mil, para se manter até o dia do embarque. Geralmente, ostentam luxo, que mostram uma possível vida de sucesso. Chegando lá, as vítimas se deparam com um cenário totalmente inverso. A primeira coisa que eles pegam é o passaporte da pessoa. Aí você já fica na mão deles. Depois, cobram gastos e taxas para tudo. E tudo em euro, o que deixa a dívida astronômica. Quando não conseguem pagar, multas são cobradas. Esses jovens ficam então endividados, ficam alojados em locais precários, muitas vezes têm que trabalhar 24 horas por dia, independentemente de estarem doentes ou não, é uma situação delicada, que sempre começa com propostas atrativas, do ‘dinheiro fácil’, do sonho realizado. E pela situação em que as vítimas se encontram, aceitam, acreditando que terão uma vida melhor.

Geralmente, nesses casos, as vítimas têm muita dificuldade para conseguir sair da situação?

“As vítimas não costumam contar para os pais ou familiares, pois ficam envergonhadas por estarem naquela situação, em um país estranho, sem o passaporte, endividadas, se prostituindo”

Maria José Garcia Joaquim

Sim. Atendemos uma denúncia recentemente de um aliciamento na Itália. A irmã de uma cafetina brasileira, que mora na Itália, aliciava meninas aqui em Cuiabá, com essas propostas atrativas. Quando elas chegavam lá, se tornavam escravas, com dívidas em euro, ou seja, não teriam condições de pagar nunca. Para conseguir que as meninas permanecessem na Itália, a cafetina arrumava rapazes italianos de baixa renda para atuarem como se fossem namorados dessas jovens de Cuiabá, fazendo um convite oficial para elas morarem lá, assim conseguindo o visto provisório. Quando chegavam lá, a situação era bem diferente do que vendiam, mas as meninas não conseguiam sair dela. E os aliciadores alegam que as vítimas sabiam o que estavam indo fazer. Fizemos esse trabalho, passamos para o serviço de Inteligência da Polícia Civil e Polícia Federal, que culminou em uma operação. A cafetina foi presa e a investigação está em andamento. As meninas foram libertadas.

Os dados do observatório apontam apenas cinco casos de tráfico humano em Mato Grosso nos últimos anos. Esse número condiz com a realidade ou há uma subnotificação?

Existe uma subnotificação. Os números no observatório não aparecem e não chamam a atenção que deveriam. Por isso, hoje a Secretaria Estadual de Segurança Pública (Sesp) está criando um sistema de notificação de crime de tráfico. Os números corretos, condizentes com a realidade, devem impactar inclusive na disponibilidade de recursos para o combate ao crime.

Para chegar a esses casos investigados as autoridades dependem de denúncias?  

Sim, os casos chegam por denúncias, de diversas formas, por delegacia, Ministério Público, no hospital, comunidade. Depois, o trabalho é focado nesse resgate. Primeiro damos a assistência e focamos em tirar a pessoa desse ambiente. Tem que ter o cuidado, ter certeza, porque se fazemos uma ameaça de ir até o local e depois a equipe não vai, a situação pode piorar, as vítimas podem sofrer uma represália, sofrer maus-tratos. Então, temos que resgatar, localizar familiares, fazer o acolhimento.

Annie Souza/Rdnews

Maria Jos� Garcia Joaquim, coordenadora do N�cleo Estadual de Enfrentamento Netrap

E o que acontece depois desse resgate e da libertação da vítima?

É um trabalho longo, primeiro é feito o acolhimento, principalmente psicológico, porque as vítimas chegam muito vulneráveis. Algumas não têm roupa, não comem bem, estão doentes, estão depressivos, esgotados. Então cuidamos do estado de saúde, mental, psicológico e físico dessa pessoa. A vítima é acompanhada por psicólogos e assistentes sociais. Depois, fazemos a reinserção na família, no mercado de trabalho, na nova vida. Estamos também viabilizando um contrato para um espaço para acomodarmos essas pessoas de forma temporária, como um hotel, em boas condições, para que o resgatado fique em segurança. Estamos estudando esse contrato para que o local exista e esteja disponível, porque uma denúncia e um resgate podem acontecer a qualquer momento. Além disso, temos trabalhado a capacitação de profissionais no interior do estado que multiplicadores, para que tenham um olhar mais sensível e possam identificar possíveis casos, além de conscientizarem sobre o tráfico de pessoas.

Como alguém pode identificar o tráfico de pessoas, como reconhecer que é vítima ou conhece alguém que pode estar sendo?  

O tráfico humano é todo tipo de agenciamento, aliciamento, recruta, transporte, transferência, compra, alojamento ou recebimento de pessoas, por meio de ameaça ou uso da força, de rapto, de fraude, de engano, do abuso de poder ou de posição de vulnerabilidade, com a finalidade de remover órgão ou parte do corpo, submeter ao trabalho condições análogas escravos, ou submetê-las a qualquer tipo de servidão ilegal ou exploração sexual. O crime também pode ser caracterizado pela prática de dar ou receber pagamentos ou benefícios para obter o consentimento para uma pessoa ter controle sobre outra pessoa, para o propósito de exploração.

Annie Souza/Rdnews

Maria Jos� Garcia Joaquim, coordenadora do N�cleo Estadual de Enfrentamento Netrap

Quais são os sinais que uma vítima pode dar aos familiares e amigos próximos?

Geralmente, ela (vítima) para de ter contato com a família, conta que está tudo bem, mas começa a dar versões e falas contraditórias, a história começa a ter ‘bandeiras vermelha’. Apesar disso, as vítimas não costumam contar para os pais ou familiares, pois ficam envergonhadas por estarem naquela situação, em um país estranho, sem o passaporte, endividadas, se prostituindo. Então acabam decidindo vencer por si só, querem dar conta daquilo, e acabam se afundando ainda mais.

E qual é o alerta que as pessoas devem ter?

Desconfiar das propostas milagrosas.  Ter um olhar mais sensível para o que as pessoas estão passando. Infelizmente, as pessoas só costumam enxergar quando o caso acontece muito próximo ou dentro da família? Então é preciso sensibilidade para ver que aquela pessoa ela está sendo enganada e está em risco.

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