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Polícia Sábado, 03 de Março de 2018, 15:00 - A | A

Sábado, 03 de Março de 2018, 15h:00 - A | A

Poder Paralelo

Traficando drogas e punindo os pequenos delitos, CV atua em pelo menos 26 bairros

Facção criminosa que surgiu no Rio de Janeiro já tem filial em Mato Grosso e desafia polícias Militar e Civil

Bárbara Sá

Ostentando poder de fogo e tentando fazer, em alguns casos, justiça com as próprias mãos e enfrentamento direto às forças de segurança pública, o Comando Vermelho (CV) é uma realidade mais do que nunca, conhecida pela população da Grande Cuiabá. A facção criminosa atua em praticamente todo o Estado.

Rdnews

Quadro comando vermelho

 Levantamento feito por Rdnews mostra bairros de Cuiabá e Várzea Grande onde o Comando Vermelho atua no tráfico de drogas e impõe suas próprias leis

Na Capital e em Várzea Grande atuam assiduamente em pelo menos 26 bairros. A força é tão grande que nestas áreas é a lei deles que impera e quem descumprí-la é punido duramente. Enfim, a contar pelos muros pintados, a facção está comandando boa parte os bairros das duas maiores cidades de Mato Grosso.

Com ordens de “não aos estupros, roubos a caguetagens e mortes por coisas banais”, o poder paralelo do CV tem mostrado cada vez mais força, e quando punem um suspeito de algum crime, gravam e enviam os vídeos aos seus familiares, o que muitas vezes os impedem de denunciar, por medo de se tornar mais um alvo ou por simplesmente não ter a quem recorrer.

É justamente neste ponto em que a sociedade se divide, entre agradecer por menos um bandido, estuprador ou espancador ser punido publicamente como no ditado popular “olho por olho, dente por dente”, ou em ficar com medo sem saber o que se esperar dessa violência gratuita. Não é possível estipular as cifras que a organização vem movimentando em Mato Grosso, tanto com tráfico de drogas, como com armamentos e outros delitos. 

Estima-se que o faturamento do CV nesses últimos cinco anos em Mato Grosso quadriplicou. A facção domina o tráfico de entorpecentes nas cadeias mato-grossenses. Nas ruas, quem quer vender drogas tem de comprá-las do CV ou pagar um "aluguel" para continuar dono da boca. Os bandidos batizados pelos líderes e os simpatizantes costumam pagar mensalidades.

O delegado titular da Gerência de Combate ao Crime Organizado (GCCO) responsável pela investigação, Diogo Santana, esclarece que a delegacia continua realizando o trabalho de acompanhamento das organizações criminosas com frequência.

“No caso aqui em Mato Grosso, o Comando Vermelho que mostra maior articulação. Então estamos constantemente desempenhando um trabalho de inteligência no sentido de identificar quem são os integrantes do grupo e desarticulá-los levando a prisão”, explicou.

Poder Paralelo

Com a onda do “salve geral”, nome da justiça com as próprias mãos praticada pelo CV, as imagens das agressões estão circulando com mais frequência desde o segundo semestre do ano passado. O apurou que a cada duas semanas a facção libera pelo menos cinco vídeos.

O último foi divulgado na manhã desta sexta (2), e foi supostamente gravado em uma casa no bairro Jardim Florianópolis. A gravação mostra dois supostos infratores pedindo desculpas por terem roubado no bairro. Após o pedido, eles são espancados por pelo menos cinco bandidos.

Os gritos são horríveis e os jovens ficam com costas dilaceradas. Mas quando os integrantes da facção escutam a sirene da Polícia Militar, fogem e entram na casa de uma moradora, que fica desconfortável e chega a pedir para que não se escondam na residência, mas em vão.

Questionado sobre os apoios que o CV vem recebendo de parte da população por várias punições no emprego de suas leis, o delegado Diogo Santana passa algumas orientações. “Isso para a Segurança Pública é um absurdo, pois entendemos que a única justiça que existe é a do Poder Judiciário. Não acreditamos nesse poder paralelo fazendo justiça. Não acreditamos nele e isso não pode ser aceito pela sociedade de maneira alguma”, afirma.

Sobre os vídeos que continuam sendo divulgados pelo CV, mostrando que cada vez mais está comandando a Grande Cuiabá, sem medo dos órgãos de segurança pública, Diogo Santana ressalta que a Polícia Civil vem executando o seu trabalho e exemplificou que os corpos decapitados nas imagens que circularam no início da semana passada foram identificados.

“O caminho que nós encontramos é trabalhar por inteligência forte e identificar quem são os componentes e enfraquecê-los. Mas sabemos que não é possível acabar com uma facção como o CV, mas o nosso trabalho é contínuo no sentido de enfraquecê-lo e mostrar a força policial”, pontua.

Enquanto isso, a organização continua crescendo e ganhando novos adeptos e deixando os seus rastos visíveis pelas periferias. Ao longo de duas semanas, o visitou vários bairros controlados pelo CV e constatou que, sem medo, os integrantes deixam suas marcas por vários muros, inclusive com muitos recados.

No Ribeirão do Lipa, na avenida principal, próximo a uma universidade particular, o recado em vermelho é grande. Além de proibir os assaltos, a facção referência a Rogério Lemgruber, um dos fundadores da organização em 1970.

O conversou com um ex-integrante do CV, que pediu para não ser identificado, uma vez que foi punido duramente após implorar para deixar a organização.

“Quando comecei a roubar, meu sonho era participar do Comando Vermelho. Os caras são fortes, se ajudam e se importam com a população carente. Eles estão onde o governo não está. Mas, confesso que isso sai bem caro. Não é fácil entrar, mas é humanamente impossível sair sem que você não passe por um castigo. Eu fui castigado, quase morri, mas consegui chegar em quem poderia me autorizar a sair. Fui castigado com tiros, foi gravado e meus pais viram. Não recomendo que um jovem tente entrar. A realidade é dura”, afirmou.

Ele destaca que para sair não teve a quem recorrer e pedir ajuda, o que inclui os policiais, devido aos tantos crimes que já cometeu. “Já furtei, roubei, bati, explodi caixas eletrônicos, entre outras coisas, então p... não dá. O jeito é se curar com ajudas que tenho e seguir a vida escondido”.

Ressalta ainda que, é possível ver em vários bairros as siglas do CVLRMT, com a inserção do LR, iniciais Rogério Lemgruber, conhecido no Rio de Janeiro como Bagulhão ou Marechal, traficante de renome no mundo do crime.

“Nestes lugares o tráfico impera. Por isso quem comete infrações que podem trazer com maior frequência as policias aos bairros são punidos”, contou.

Bairros Controlados

Conforme apontam as investigações, o Comando Vermelho é a maior facção e mais organizada de todos os grupos criminosos. Atualmente não se tem mais o número estimado de integrantes. Até 2016, era de pelo menos 2,5 mil. Mas com o crescimento da chamada “mancha vermelha” dominando e controlando os bairros, é possível estipular que o número tenha quadriplicado.

O Jardim Florianópolis, área periférica da Capital, é um dos bairros em que o Comando Vermelho controla, onde também está terminantemente proibido assaltos, uma vez que os integrantes não querem a polícia circulando pelas ruas, atrapalhando o comércio de drogas e outros atos ilícitos. Assim como dizem não quer que a população desfavorecida seja oprimida pelas forças de segurança pública.

“Quando comecei a roubar, meu sonho era participar do Comando Vermelho. Os caras são fortes, se ajudam e se importam com a população carente. Eles estão onde o governo não está. Mas confesso que isso sai bem caro”

Já no bairro Paiaguás, eles controlam quem entra e quem sai a partir das 22h. A reportagem fez uma visita neste horário, e o carro foi parado por três homens que perguntaram de onde viemos e o que queríamos na área. Após a explicação de que seria uma entrega de objetos, o veículo foi autorizado a passar.

No Jardim Vitória, onde foram mortos dois integrantes do CV, Kelves Gonçalves da Silva acusado do sequestro da empresária Milene Falcão Eubank, e de atirar no investigador Sidney Ribeiro dos Santos, e o comparsa Jean Pierre, a ação do grupo criminoso é evidente. "Inclusive os moradores ajudam. Para se ter uma ideia, além daquela submetralhadora 9mm, que foi encontrada com eles no esconderijo, no bairro ainda tem mais quatro delas", contou o ex-integrante.

tentou conversar com alguns moradores do bairro, mas ninguém aceitou tocar no assunto. Disseram não ter ouvido ou visto a ação da Polícia Civil no último dia 27.

"Ao invés de falar sobre o Comando Vermelho, deviam era cobrar assistência dos governantes. Aqui não temos nem asfalto, não olham para nós", lembrou a fonte.

Mesmo com a transferência Sandro da Silva Rabelo, conhecido como “Sandro Louco”, considerado o fundador da franquia em Mato Grosso, foi transferido para o presídio federal de Catanduvas (PR), o CV continua crescendo. Além do controle nos bairros em Cuiabá e Várzea Grande, a facção tem comandado o tráfico de drogas nas fronteiras entre Mato Grosso e a Bolívia.

Investigações apontam que ataques aos bancos e caixa eletrônicos no interior do Estado também seriam a mando do CV, uma vez que precisam de mais dinheiro para adquirir armamentos. No interior, as cidades onde o Comando Vermelho também está ganhando força são Rondonópolis, Sinop, Nova Mutum e Lucas do Rio Verde.

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Álbum de fotos

Gilberto Leite

Criminosos deixam marca da facção em muro no residêncial Nova Canaã

Gilberto Leite

Muro pichado pelo Comando Vermelho no Jardim Esmeralda, em Várzea Grande

Gilberto Leite

Jardim Glória, em Várzea Grande, também é contabilizado como território por membros da facção

Gilberto Leite

Nem ginásio do Jardim Imperial de Várzea Grande escapa das pichações dos criminosos

Gilberto Leite

Miniestádio do Jardim Imperial de Várzea Grande também é marcado pelos criminosos

Gilberto Leite

Rua sem infraestrutura no Jardim Vitória sofreu com tiroteio promovido pelos criminosos do CV

Gilberto Leite

Local onde grávida de 7 meses foi encontrada morta, nas proximidades da Ponte de Ferro, em Cuiabá

Gilberto Leite

Pichação do Comando Vermelho no bairro Mappin, em Várzea Grande

Gilberto Leite

Bandidos marcam território no Novo Paraíso, em Cuiabá

Gilberto Leite

Integrantes da facção criminosa deixam ordem em muro no Ribeirão do Lipa, em Cuiabá

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joaquim 09/03/2018

Há expressões agressivas, ofensas e/ou denúncias sem provas. Queira, por gentileza, refazer o seu comentário

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nilton 06/03/2018

inoperância total do Estado abre espaço para grupos justiceiros

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José Marcondes Muvuca 05/03/2018

Parabéns pela reportagem. Apresentando dados e informações relevantes. Estendo à equipe envolvida!

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Wagner 05/03/2018

Ex; México. Em 2006 o então Presidente Felipe Calderón ,declarou guerra ao narcotráfico . Resultado ; agora em 2018, em torno de 300.000 pessoas mortas, e milhares de soldados viciados em cocaína ,e corrompidos .Prenderam 112 dos 122 chefes de cartéis , e o que aconteceu? Agora são centenas de pequenos chefes ,pois o tráfico foi pulverizado ,e perdeu-se o controle totalmente. Com certeza ,Exército , estardalhaço , não são remédios para o grande mal do ser humano. Nos EUA ,adorado pelos ingênuos côxas ,morrem 59.000 pessoas por overdose em 1 ano ,mais que a guerra do Vietnam em 8 anos. PS- os EUA com 5% da população mundial ,consomem 64% de todas as DROGAS do mundo !!! Sociedade DOENTE !!!

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alexandre 05/03/2018

infelizmente o Estado falhou, tem ilhas de excelencia dentro da segurança pública, mas a ROTAM prende, o juiz solta, quando a população confia mais na bandidagem, pra manter a paz, do que no Estado, tem coisa errada, fora a quantidade absurda de PM pra segurança do Judiciário...

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Keops 04/03/2018

Ou acaba com isso agora no comeco, ou Cuiabá e VG se tornaram igual ou pior que o Rio de Janeiro. Apoio a ideia do Deovaldo. Junta todas as forcas milatares e policiais para elimanar esses marginais organizados.

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Márcio lima 04/03/2018

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Paulo 04/03/2018

Para se tornar uma guerra civil não vai demorar

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Deovaldo 03/03/2018

Dai lhes pergunto, fazemos igual o exército no Rio de Janeiro, os batalhões do exército estão ociosos, pq não fazer uma operação usando os mesmos para liquidar com a vagabundagem aqui em MT.....temos o 9 BCE,,,,,44bim,,,,,13 brigada,,,,peca e pm,,,,,pronto,,,,fuzilamos a bandidagem em uma operação homérica.....não está vindo dinheiro da união para a segurança ,,,,invista agora ,,,,,exército e a inteligência atuando juntos,,,,,acabaríamos com a bandidagem , mas sem cadeia e sim bala na cabeca

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roger almeida 03/03/2018

No Rio de Janeiro começou assim a 40 anos atrás, e sempre esse papo de que a policia ta trabalhando com a inteligência!!!!!(não conseguem nem bloquear celular nos presídios), deu no que deu, na verdade a população abandonada pelo poder público não acredita mais no Estado ou na polícia, vejamos daqui a 20 anos no máximo se nossos bairros da periferia não se transformarão em verdadeiros bunkers das facções com armamentos ate de artilharia anti aérea, como no Rio de Janeiro.

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Adriano 03/03/2018

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11 comentários

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