FRONTEIRA DO MEDO

Sexta-Feira, 11 de Maio de 2018, 08h:15 | Atualizado: 13/05/2018, 19h:03

Como é a vida na rota do narcotráfico e do contrabando no limite Brasil-Bolívia mapa


Enviada Especial à fronteira Brasil/Bolívia

Gilberto Leite

Na fronteira

 Estrada de chão, mata às margens, um posto de fiscalização. Este é o cenário na fronteira entre o Brasil e a Bolívia. Caminho conhecido pelo narcotráfico

Na manhã do dia 25 de abril deste ano um avião bimotor decolou de uma pista clandestina na Bolívia em direção ao Brasil. Em questão de segundos, piloto e co-piloto receberam sinais da Força Aérea Brasileira (FAB) para pousar mas não obedeceram a ordem. O primeiro tiro foi dado em vão. Destemidos, insistiram em prosseguir, recebendo o segundo alarde, mas também não obedeceram. A FAB então deu o tiro de misericórdia e abateu a aeronave suspeita, que cruzava a fronteira Brasil-Bolívia entrando em céu mato-grossense.  Em pane, o bimotor fez pouso forçado no coração do Pantanal.

Local hostil, rodeado por água, matas e animais selvagens. Por dois dias, policiais federais e do Grupo Especial de Segurança na Fronteira (Gefron) caçaram o avião, que acabou sendo resgatado com 500 quilos de cocaína pura. O grau de pureza da droga impressionou os militares. Algo nunca visto em Mato Grosso.

Comprada na Bolívia por R$ 7,5 milhões, seria levada à São Paulo para abastecer os negócios da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). Na revenda, valeria mais de R$ 10 milhões. À espera do produto, usuários brasileiros e também europeus de alto padrão. Mais de uma semana depois, não há informações se o piloto e o comparsa conseguiram nadar até as margens e fugir pela mata pantaneira. Este é o relato de um dos crimes mais comuns na região: o narcotráfico aéreo.

Para apurar de perto a realidade da fronteira, a equipe do viajou por mais de 800 km. Saiu de Cuiabá e foi até Porto Esperidião, uma das 28 cidades que ficam no limite entre os países. De lá foi ao posto do Avião Caído, depois para o Corixo, seguiu para Cáceres, até San Matias, já na Bolívia.

Mário Okamura

Arte Gefron

Mapa, acima, mostra cidades que fazem fronteira e vilarejos onde moram pessoas  de baixa renda. Muitas famílias em condições de absoluta miséria

 Trata-se de uma região extensa com grande variedade de paisagens. Para percorrê-la, tem que passar por áreas urbanas, comunidades rurais ou por desertos inóspitos, de densa floresta. São 750 km de fronteira seca e mais 230 alagada. O local é cheio de estradas vicinais e trilhas conhecidas como "cabriteiras".

 A fronteira não é somente palco do tráfico e de crimes. Também comemora crescimento do setor agrícola, a criação de gados e o cultivo de soja. Tem áreas campeãs em produtividade.

O contraste socioeconômico é visível em vilas cortadas por assentamentos e fazendas. Moradores vivem em rincões tão distantes e em alguns casos esquecidos por políticas públicas e sobrevivem isolados na simplicidade, pobreza e com o narcotráfico batendo à porta.

O traço da população é indígena, mas é visível a mistura de raças, das culturas e das línguas.

 O trajeto

Gilberto Leite

Na fronteira

 Reportagerm viaja mais de 800 quilômetros acompanhando atuação do Gefron de MT

A reportagem viajou com apoio do Gefron de Porto Esperidião até o primeiro posto policial, por cerca de 80 km de estrada de chão, passando por fazendas e enfrentando muita poeira até o posto intitulado Avião Caído, que fica a exatamente 6 km da fronteira com a Bolívia entre as fazendas Lagoa Verde e Totora. O local ganhou este nome e é famoso por ter uma carcaça inteira de um avião em suas terras.

Moradores da região contam que o acidente ocorreu na década de 70. A aeronave de médio porte decolou do país vizinho com drogas e tentou pousar no local, que antes tinha pistas de pouso. Não conseguiu. Teve problemas mecânicos, mas ninguém ficou ferido. Quando adquiriu o local, o dono da fazenda, Paulo Pinto, manteve a carcaça em sua área. Ele representa um símbolo contra o tráfico de drogas. O fazendeiro é parceiro do Gefron, e foi homenageado pelo grupo, pelos trabalhos prestados.

Neste posto, entre as duas fazendas, quem tentar atravessar, tem parada obrigatória. No local, a reportagem foi recebida por três policiais militares, além do soldado Thalisson Paiva, do Gefron, com o parceiro dele, o cão Bart. O soldado conta como é feito o trabalho em equipe dos dois.

“O Bart trabalha comigo há um ano e seis meses. É uma importante ferramenta. Nos auxilia bastante nos trabalhos de buscas aos entorpecentes. Só o fato do cão estar presente causa um grande impacto, e com isso o trabalho de repressão ao tráfico fica ainda melhor na área de fronteira, principalmente por este posto ser bem próximo à Bolívia. Temos um fluxo grande de passagem de moradores. Mas ficamos atentos, pois sempre tem os que aproveitam para tentar atravessar com ilícitos”, explica o soldado que atua no Gefron há cinco anos.

Gilberto Leite

Na fronteira

 Gefron trabalha em região cheia de entradas para trilhas clandestinas, as chamadas cabriteiras. São estradas sem asfalto e pouco habitadas por moradores

Nesta área é possível ver o tráfego de bolivianos a cavalo indo e voltando de suas terras, uma vez que o posto fica a 6 km do limite entre os países e a 14 km de San Matias. Nenhum dos três cavaleiros abordados pela reportagem aceitou conversar.

A mais 90 km, fica o vilarejo identificado como Clarinópolis. Na Bispo Ribeiro, avenida principal do local, não existe asfalto. A estrada de terra abriga um bar, casas simples e igrejas. Em frente há uma congregação evangélica. A reportagem avistou um morador, de cerca de 30 anos de idade, vestido com uma camisa do time São Paulo, assentado em um banco, fumando o seu cigarro, despreocupado com o tempo. Também não aceitou conversar, apenas respondeu um “oi” ríspido e manteve os olhos firmes na direção do tenente-coronel José Nildo e o sargento Vitor que acompanhavam o .

Galeria: A vida na fronteira Brasil-Bolívia

Na rua lateral de frente à igreja católica mora o aposentado mineiro Sebastião Ferreira Souza, 62 anos. Ele  bateu um papo com a reportagem. Relatou que mora na vila há pelo menos 20 anos, que o local começou a ficar tranquilo a partir de 2003 quando o Gefron iniciou os trabalhos na fronteira.

Com a chegada da polícia, muita gente sentiu a escassez do dinheiro, porque o tráfico movimentava e alimentava os moradores. Muitos comerciantes quebraram

“Antes entrava muito carro roubado, contrabandos e drogas por muitos caminhos. Com a chegada da polícia, isso deu uma amenizada. Muita gente, não somente nesta área como em outras sentiu a escassez do dinheiro, porque o tráfico movimentava e alimentava os moradores. Muitos comerciantes quebraram, mas ganhamos em segurança”, afirmou.

Isso é evidente nos números. Para se ter uma ideia de 2003 até abril deste anos o Gefron, calculando os valores apreendidos entre moedas nacional e estrangeiras de origens ilícitas, apreendeu quase R$ 16 milhões em dinheiro.

Um pouco mais a frente, em Corixo, uma escola fica a 100 metros do segundo posto do Gefron. Uma área totalmente rural, onde estudam 20 crianças entre quatro e 10 anos. Destas cinco são bolivianas, segundo a professora Renata Monise Alves, 30 anos.

“As aulas são das 12h às 16h. Temos um ônibus da prefeitura de Cáceres que busca e leva as crianças. Moro a 7 km daqui, em uma chácara. Até o ônibus vir buscá-los, eles ficam aqui brincando, jogando futebol”, detalhou.

A educadora relata como é o dia-a-dia de ensinar crianças tão longe das oportunidades e em meio aos perigos que as drogas representam. “Elas sabem o que acontece. Nas aulas conversamos sobre o tráfico, damos o exemplo de uma família que a polícia prendeu, um casal e três filhos com cápsulas de cocaína no estômago. As crianças tinham entre sete e 11 anos. É realmente complicado, mas mostramos como esse mundo é perigoso”, ponderou.

A polícia prendeu um casal e três filhos com cápsulas de cocaína no estômago. As crianças tinham entre sete e 11 anos.

Bolívia

Ao chegar à Bolívia, é nítido ver que a miséria leva boa parte dos moradores a serem coniventes com o narcotráfico. Muitos trabalham diretamente no esquema; outros ganham a vida simplesmente auxiliando quem está atrás de cocaína.

Após a travessia do marco da fronteira, tem um ponto de táxi, com três motoristas. Eles atendem tanto bolivianos que querem chegar até  Cáceres, como recebem e levam brasileiros até San Matias.

A pobreza é tão impressionante quanto as trágicas histórias vividas por pessoas que se propõem a engolir cápsulas de cocaína, compara a poconeana Jociane da Silva Oliveira, 30 anos. A mato-grossense é casada com um boliviano. Mora há 5 anos a 100 metros do marco da fronteira, na Bolívia. “O terreno é do meu esposo e foi mais viável morarmos desse lado”, justifica.

Ela que tem três filhos, sendo dois meninos em idades de 8 e 11 anos e uma menina de 5, conta que as crianças estudam na escola do Exército, que fica a pouco mais 20 metros de onde moram.

“Meu marido vende água no posto de fiscalização do Gefron. Aqui onde estamos é tranquilo e seguro. Mas em San Matias, a 7 km daqui, as coisas são feias. Tento proteger e conversar com meus filhos. Há alguns anos uma colega minha foi presa, ela precisava muito de dinheiro e o filho de cinco anos tinha morrido. Aproveitou e colocou drogas no corpo dele. A polícia pegou e ela foi presa. Histórias como essa sempre ocorrem por aqui, é triste”, lamenta.

Gilberto Leite

Na fronteira

 Comandante do Exército boliviano, tenente-coronel Luz Mabel Calahuanca destaca parceria

A caminho da sede do Exército em San Matias a fiscalização é feita por dois soldados. Antes de levantarem a barreira para os veículos e motos passarem, conferem a documentação. É nítido que a fiscalização feita por policiais brasileiros é muito mais minuciosa.

A comandante do Exército boliviano a tenente coronel Luz Mabel Calahuanca, 26 anos, em entrevista ao , destacou a parceria com o Gefron. Contou como é feita as fiscalizações para a entrada no país e frisou que a polícia de Mato Grosso é quem faz o trabalho pesado contra o narcotráfico.

“Nós acompanhamos quem entra e quem sai, olhamos e controlamos as mercadorias da população de San Matias, o que não é muito. Estamos aqui para resguardar a fronteira e colaborar com as leis do governo. Uma vez que temos que acompanhar qualquer produto que entra e que sai da Bolívia, essa é a nossa principal missão”, explica.

Questionada sobre a violência e o tráfico de drogas na fronteira, ela avalia que a situação melhorou, desde dezembro de 2015, quando o presidente Evo Morales militarizou San Matías, considerado um município perigoso. Fez isso após uma série de assassinatos, parte deles relacionados à violência do narcotráfico. Conforme diz, o Exército conta com 17 homens trabalhando na fiscalização. 

“Atualmente nesta área está bem tranquilo. Quase não temos denúncias de assassinatos desde quando estou aqui. As pessoas que estão visitando a cidade têm buscado mesmo turismo e descanso, então não estamos tendo muitos problemas. Não temos visto cocaína nas fiscalizações, mas é também porque o Gefron atua fortemente nesta área, o que facilita o nosso trabalho”, elogia.

Apesar dos avanços, de volta para casa, fica a certeza de que o narcotráfico transformou cidades, vilas e assentamentos da fronteira em alguns dos lugares mais perigosos de Mato Grosso, a até mesmo do Brasil.

Postar um novo comentário

Comentários (7)

  • Ana | Sábado, 12 de Maio de 2018, 00h19
    3
    0

    Digite oAdorei ver uma matéria de tamanha qualidade e importância aqui num momento em vende- se sensacionalismo. PARABÉNS RDNEWS!! texto aqui

  • Cel PM RR Leovaldo Sales | Sexta-Feira, 11 de Maio de 2018, 22h27
    3
    0

    Parabéns ao Rdnews pela reportagem que mostra o heroísmo de policiais brasileiros e bolivianos, lutando contra um inimigo, que mesmo a grande potência mundial com a melhor polícia federal do planeta consegue vencer! Tenho muito orgulho de ter, juntamente com alguns companheiros das polícias militar e civil, planejado, criado, construído e coordenado o GEFRON, o maior patrimônio moral e combativo da fronteira...FRONTEIRAAAAAAAAA

  • MAX CAMPOS - INDEA | Sexta-Feira, 11 de Maio de 2018, 18h00
    5
    1

    MATÉRIA E REPORTAGEM NOTA MIL! PARABÉNS A EQUIPE DO RDNEWS PELA BRILHANTE OPORTUNIDADE DE MOSTRAR O BELISSIMO E IMPORTANTÍSSIMO TRABALHO DOS GUARDIÕES DA FRONTEIRA. Fronteiraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

  • Luizão | Sexta-Feira, 11 de Maio de 2018, 14h37
    6
    1

    Mais investimento a esse grupo de militares, tanto no sentido material e humano. Parabéns, pois tem mostrado excelente resultados no combate ao crime organizado na fronteira

  • TATO Giraldelli | Sexta-Feira, 11 de Maio de 2018, 13h28
    6
    1

    Parabéns pela matéria. A Maioria do povo Boliviano são pessoal também de grande humildade são nosso irmãos

  • Keops | Sexta-Feira, 11 de Maio de 2018, 12h37
    6
    1

    Excelente reportagem!

  • Fabiana Mendes | Sexta-Feira, 11 de Maio de 2018, 10h26
    8
    1

    Parabéns, Bárbara! Ótima reportagem!

Matéria(s) relacionada(s):

Oposição tenta vencer pelo cansaço

L�dio Cabral curtinha   A oposição formada pelos deputados Lúdio Cabral (foto), Valdir Barranco - ambos do PT - e Wilson Santos (PT), que decidiu obstruir a pauta da Assembleia enquanto o Executivo não apresentar uma prosposta aos trabalhadores da educação, tentam vencer o presidente...

Boicote à audiência sobre Fethab Milho

Conduzida pelo deputado Ulysses Moraes, a audiência pública na Assembleia para debater a questão do Fethab Milho e a possibilidade de exclui-lo da taxação não aconteceu conforme o planejado por causa de boicote dentro da própria AL. A TV Assembleia, que costuma transmitir ao vivo esse tipo de debate, não o fez. Alegou que uma peça de transmissão estragou. De última hora, mudaram a sessão de local, de um...

UFMT e incompetência administrativa

myrian ufmt curtinha   A considerar as explicações do ministro da Educação Abraham Weintraub sobre corte de energia elétrica da UFMT, a reitora Myrian Serra demonstrou incompetência administrativa em todo processo. São seis faturas em atraso, quatro do exercício de 2018 e duas deste ano. A...

Judiciário destina R$ 3 mi para Bope

carlos alberto 190 curtinha tj   O Poder Judiciário, sob Carlos Alberto (foto), autorizou a remessa de R$ 3,1 milhões para a secretaria de Segurança. Os recursos, arrecadados em ações da 7ª Vara Criminal, vão ser usados na compra fuzis, rifles de alta precisão, submetralhadoras, coletes...

Alerta e preocupação sobre a greve

janaina riva curtinha   Janaína Riva disse nesta 2ª à noite, em sabatina no Emparedado, programa exibido ao vivo pela TV Gazeta Canal 19.1, em Cuiabá, que, numa reunião junto com o colega petista Valdir Barranco e dirigentes do Sintep, perguntou aos sindicalistas que seria mesmo o momento de deflagrar greve na...

Peça de teatro nas escolas cuiabanas

alex vieira curtinha   A Associação Cultural Cena Onze vai faturar neste ano R$ 177 mil da Prefeitura de Cuiabá, após vencer processo licitatório, com o projeto de peças de teatro. Fará apresentação em 30 escolas da rede pública municipal. Em cada espetáculo, está...

ENQUETE

Profissionais da Educação estão em greve há mais de um mês. O que você acha disso?

estão corretos. Devem continuar

discordo. Deveriam voltar às aulas

pra mim, não faz diferença

Não se trata de pesquisa eleitoral, mas de um mero levantamento de opiniões de leitores do RDNews e do Blog do Romilson, com participação espontânea dos internautas. Resultado sem valor científico.