Cuiabá, 17/09/2026

Aparecer ou permanecer? Eis a questão

A maior ilusão da comunicação política moderna

 

Rodinei Crescêncio/Rdnews

 

Nunca foi tão fácil aparecer na política. Hoje, qualquer liderança com um celular na mão consegue publicar vídeos diariamente, comentar acontecimentos em tempo real, participar de trends, reagir a polêmicas e produzir uma sensação constante de presença.

A tecnologia democratizou a comunicação. O acesso ao eleitor ficou mais simples. A velocidade aumentou. O alcance também. Mas existe um problema silencioso nisso tudo: aparecer demais não significa construir relevância.

Na verdade, em muitos casos, significa exatamente o contrário. A política contemporânea vive uma espécie de crise de excesso. Excesso de falas, excesso de opiniões, excesso de vídeos, excesso de personagens tentando disputar atenção ao mesmo tempo. E quando todos tentam aparecer o tempo inteiro, poucos conseguem realmente permanecer na memória das pessoas.

Esse talvez seja um dos maiores dilemas do marketing político atual: O político quer aparecer, mas o eleitor quer confiar. E confiança não nasce da frequência, nasce da coerência.

 A lógica da visibilidade imediata

As redes sociais mudaram completamente a forma como a política se comunica.

A política contemporânea vive uma espécie de crise de excesso... Quando todos tentam aparecer o tempo inteiro, poucos conseguem realmente permanecer na memória das pessoas

Durante muito tempo, a comunicação institucional era mais controlada, mais formal e mais distante. Hoje, o cenário é oposto. O político é pressionado a mostrar bastidores, rotina, opinião instantânea, vida pessoal e posicionamento sobre tudo o que acontece.

Criou-se uma cultura da presença contínua. Se não posta, parece ausente. Se não comenta, parece desconectado. Se não aparece, parece irrelevante.

E é justamente aí que muitos mandatos começam a cometer um erro estratégico grave: transformar comunicação em apenas ocupação de espaço.

O problema é que ocupar espaço não significa ocupar a mente do eleitor.

Existe uma diferença enorme entre:

  • ser visto;

  • ser lembrado;

  • e ser associado a algo forte.

A maioria consegue ser vista. Poucos conseguem ser lembrados. Raríssimos conseguem construir associação. E associação é o que realmente sustenta uma liderança política no longo prazo.

 O excesso de exposição pode enfraquecer a autoridade

Existe uma crença equivocada de que quanto mais o político aparece, mais forte ele se torna. Nem sempre. A exposição sem intenção pode banalizar a imagem pública.

Quando a comunicação perde profundidade e passa a existir apenas para alimentar algoritmo, o político corre o risco de virar apenas mais um produtor de conteúdo. E conteúdo sem identidade é descartável.

O eleitor até pode assistir um vídeo, mas isso não significa que ele criou confiança. Aliás, muitas vezes ocorre o contrário: o excesso de aparições gera desgaste antes mesmo da consolidação da reputação.

Isso acontece porque autoridade não nasce da quantidade de falas.
Nasce do significado delas. As pessoas não lembram de tudo o que um político publica. Elas lembram da sensação que aquela liderança transmite ao longo do tempo.

Por isso, líderes fortes costumam ter algo muito claro:

  • um posicionamento reconhecível;

  • valores consistentes;

  • uma narrativa coerente;

  • e uma percepção estável.

O eleitor precisa entender rapidamente quem aquela pessoa é e isso não se constrói tentando falar sobre tudo ao mesmo tempo.

 Permanecer exige coerência

A política é um jogo de repetição. Não repetição vazia, mas repetição estratégica.

As grandes lideranças políticas da história não se tornaram memoráveis porque apareciam muito. Elas se tornaram memoráveis porque sustentavam mensagens claras durante muito tempo.

O eleitor precisa conseguir associar automaticamente um nome a alguma ideia, causa, comportamento ou entrega. Isso é posicionamento. E posicionamento não é slogan. Slogan muda em campanha. Posicionamento permanece.

É justamente por isso que alguns políticos conseguem atravessar crises, mudanças de cenário e até períodos fora dos holofotes sem desaparecer politicamente. Porque eles construíram algo muito mais forte do que alcance: construíram significado.

Quando existe clareza de identidade, a comunicação deixa de depender apenas da frequência. O político passa a ocupar um espaço emocional e simbólico na cabeça das pessoas.

 A política da ansiedade

Um dos grandes problemas da comunicação atual é que ela passou a funcionar na lógica da ansiedade.

Existe uma sensação permanente de urgência:

  • responder rápido;

  • postar rápido;

  • viralizar rápido;

  • crescer rápido;

  • reagir rápido.

Mas reputação política não é construída na velocidade do feed. Reputação é construção lenta.

Aliás, talvez uma das maiores maturidades estratégicas na política seja entender que nem toda oportunidade de aparecer vale o desgaste de se expor.

Hoje existe muito político confundindo movimento com construção.

Estão sempre em movimento:

  • postando;

  • reagindo;

  • gravando;

  • comentando;

  • participando.

Mas sem necessariamente consolidar uma imagem forte. E comunicação sem direção gera apenas ruído.

 O eleitor mudou

Outro ponto importante é entender que o eleitor também ficou mais crítico.

A hiperexposição política criou um fenômeno curioso: quanto mais acesso as pessoas têm aos políticos, mais rapidamente percebem incoerências.

Hoje o eleitor identifica quando:

  • a fala parece artificial;

  • a humanização é forçada;

  • a emoção parece ensaiada;

  • o posicionamento muda conforme a conveniência;

  • e a comunicação existe apenas por estética.

A era digital aproximou o eleitor da política, mas também aumentou o filtro de autenticidade. Por isso, permanecer exige muito mais do que performance, exige verdade percebida.

E percepção, na política, é tudo.

 Quem aparece muito nem sempre permanece

A história política brasileira está cheia de exemplos de lideranças que surgiram rapidamente, dominaram redes sociais, ocuparam debates públicos e desapareceram pouco tempo depois. Isso porque atenção não garante permanência.

A política recompensa menos os que apenas conseguem viralizar e mais os que conseguem construir confiança acumulada.

E confiança é construída em quatro pilares:

Coerência

O político precisa parecer a mesma pessoa ao longo do tempo.

Clareza

O eleitor precisa entender rapidamente o que aquela liderança representa.

Consistência

Não adianta comunicar forte por um mês e desaparecer depois.

Entrega

Nenhuma estratégia de comunicação sustenta ausência completa de resultados.

 Comunicação política não é sobre quantidade. É sobre associação.

Talvez o maior erro da comunicação política moderna seja acreditar que presença digital é apenas frequência de postagem. Não é. Comunicação política é construção mental.

Toda liderança forte ocupa um espaço específico na cabeça do eleitor.

Quando alguém fala:

  • segurança;

  • educação;

  • municipalismo;

  • combate à corrupção;

  • desenvolvimento;

  • proximidade;

  • firmeza;

  • renovação;

alguns nomes vêm automaticamente à mente. Isso não acontece por acaso, é resultado de repetição estratégica ao longo do tempo.

O verdadeiro objetivo da comunicação política não é apenas fazer o eleitor lembrar que você existe, é fazer o eleitor associar sua existência a algum significado claro.

No fim, a pergunta permanece

A política contemporânea criou especialistas em aparecer, mas o futuro provavelmente pertencerá aos que aprenderem a construir permanência.

Porque algoritmo entrega alcance, mas só coerência entrega confiança. E confiança continua sendo a moeda mais valiosa da política.

No final, talvez a pergunta mais importante da comunicação política seja exatamente essa: Você quer apenas aparecer? Ou quer permanecer? 

Mariana Bonjour é advogada e consultora política. Escreve com exclusividade para esta coluna às sextas-feiras