O erro estratégico que faz políticos desaparecerem
Rodinei Crescêncio/Rdnews
Existe um padrão silencioso na comunicação política brasileira — e ele explica por que tantos candidatos, mesmo com estrutura, recursos e tempo de exposição, simplesmente não conseguem se fixar na mente do eleitor.
Eles falam muito, mas não dizem nada que seja só deles.
A cada eleição, a cena se repete: discursos bem-intencionados, pautas relevantes, promessas alinhadas com o que a população espera… e, ainda assim, uma sensação de repetição.
Como se todos estivessem disputando o mesmo espaço com as mesmas palavras. E, na prática, estão.
“Educação de qualidade.”
“Saúde digna.”
“Combate à corrupção.”
“Mais oportunidades.”
Nenhuma dessas bandeiras está errada. Mas todas têm um problema estratégico grave: não diferenciam ninguém.
E, em comunicação política, o que não diferencia… não posiciona.
E o que não posiciona… desaparece.
O equívoco central: confundir presença com relevância
Muitos políticos acreditam que comunicar bem é estar presente.
Publicar com frequência, aparecer em agendas, comentar temas do momento. Mas presença não é sinônimo de relevância.
Você pode estar todos os dias na frente do eleitor e, ainda assim, não ocupar nenhum espaço real na mente dele.
Porque relevância não nasce do volume.
Nasce da clareza de associação.
Quando alguém ouve o nome de um político e não consegue associar imediatamente a uma ideia, uma causa ou uma dor específica… esse político ainda não existe, estrategicamente.
Mensagem única não é estética. É território
Existe uma confusão recorrente entre slogan e mensagem.
O slogan é a parte visível. A mensagem é a estrutura invisível.
O slogan pode ser trocado a cada campanha. A mensagem deveria sobreviver a todas elas.
Mensagem única não é uma frase bonita. É um território mental.
É aquilo que, ao longo do tempo, vai sendo ocupado de forma consistente até que se torne automático.
Não exige esforço do eleitor.
Não precisa de explicação longa.
Não depende de contexto. Simplesmente vem.
Se você precisa explicar demais quem você é… é porque ainda não construiu essa mensagem.
O erro mais comum: querer ser tudo ao mesmo tempo
Existe uma lógica intuitiva, mas equivocada, que domina a comunicação política:
“Se eu falar de tudo, eu atinjo mais gente.”
Na teoria, parece inclusivo. Na prática, é diluição.
Quando um político tenta abraçar todas as pautas, ele perde nitidez. E política é, antes de tudo, um jogo de percepção.
Quando alguém ouve o nome de um político e não consegue associar imediatamente a uma ideia, uma causa ou uma dor específica… esse político ainda não existe, estrategicamente
O eleitor não escolhe quem “faz de tudo”. Ele escolhe quem representa algo com clareza.
Porque, no momento da decisão, ele não está comparando currículos. Ele está buscando atalhos mentais.
E o cérebro humano funciona por simplificação.
Subnicho: a decisão estratégica que exige coragem
É aqui que entra o conceito mais negligenciado — e mais poderoso — da comunicação política: o subnicho.
Todo grande posicionamento nasce de um recorte.
Não basta dizer: “eu defendo a educação”.
Isso é amplo demais. Genérico demais. Compartilhado demais.
A pergunta estratégica é: qual parte da educação só você decidiu ocupar?
- Educação técnica para jovens fora da universidade
- Permanência estudantil no ensino superior
- Alfabetização na primeira infância
- Educação em regiões rurais e interiorizadas
Percebe o movimento?
O tema continua grande.
Mas o recorte cria identidade.
E identidade gera reconhecimento.
Escolher um subnicho não limita. Organiza
Existe um medo recorrente:
“Se eu focar demais, vou perder alcance.”
Mas o efeito é o oposto.
Sem foco, você até alcança mais pessoas. Mas não se torna relevante para nenhuma.
Com foco, você pode começar menor — mas cresce com profundidade.
E profundidade constrói autoridade.
Autoridade constrói confiança.
E confiança constrói voto.
A lógica invisível do posicionamento: repetição coerente
Outro erro comum é tratar posicionamento como uma decisão pontual.
“Definimos nosso posicionamento.”
Como se isso resolvesse o problema.
Não resolve.
Posicionamento não é definição. É construção.
E construção exige repetição.
Mas não qualquer repetição — e sim repetição coerente.
Mesma linha de raciocínio.
Mesma direção narrativa.
Mesma associação sendo reforçada ao longo do tempo.
É assim que o eleitor aprende quem você é.
Não porque você disse uma vez.
Mas porque você sustentou aquilo por tempo suficiente.
O político “completo” versus o político “claro”
Existe uma tentação constante na política: parecer preparado para tudo.
Falar de todos os temas.
Responder todas as demandas.
Mostrar domínio geral.
Mas o eleitor não escolhe o mais completo.
Ele escolhe o mais claro.
Aquele que ele entende rápido.
Aquele que ele consegue explicar para outra pessoa.
Porque, no fim, a decisão política não é técnica. É perceptiva.
O teste da mensagem única
Existe uma pergunta simples — mas extremamente reveladora:
- Se alguém tivesse que explicar você em uma frase, qual seria?
E mais importante:
- Essa frase serviria para outros candidatos?
Se a resposta for sim… você ainda não encontrou sua mensagem.
Porque mensagem única, por definição, não pode ser compartilhada.
A disputa real não é por votos. É por espaço mental
Antes de conquistar o voto, o político precisa conquistar algo mais escasso: um espaço na mente do eleitor.
E esse espaço não é infinito.
Ele é limitado, competitivo e altamente seletivo.
Em um cenário de excesso de informação, quem vence não é quem fala mais — é quem ocupa um lugar claro.
Conclusão: o risco não é rejeição. É irrelevância
Na política, existe um medo constante de rejeição.
Mas, estrategicamente, existe algo mais perigoso: a indiferença.
O político que gera rejeição ainda é lembrado.
O político genérico é ignorado.
E o eleitor não vota em quem ele ignora.
Por isso, construir uma mensagem única não é um detalhe de comunicação.
É uma decisão estratégica central.
É escolher um território.
Assumir um recorte.
E sustentar isso com consistência.
Porque, no fim, não vence quem fala melhor.
Vence quem é lembrado com clareza.
Mariana Bonjour é advogada e consultora política. Escreve com exclusividade para esta coluna às sextas-feiras