Cuiabá, 17/09/2026

Quando uma candidatura deixa de existir, a democracia também perde

maravilha

Rodinei Crescêncio/Rdnews

 

A decisão do União Brasil de apoiar a candidatura de Otaviano Pivetta ao Governo de Mato Grosso, abrindo mão da candidatura própria do senador Jayme Campos, certamente será lembrada como um dos acontecimentos políticos mais importantes deste período pré-eleitoral.

Naturalmente, cada partido tem autonomia para definir seus rumos. Convenções existem justamente para isso. Faz parte da democracia que as legendas construam alianças, façam cálculos eleitorais e decidam qual projeto pretendem apoiar.

Mas o episódio também desperta uma reflexão que vai muito além da estratégia de uma sigla. Ele nos faz pensar sobre o valor da pluralidade.

A democracia floresce quando diferentes projetos disputam espaço diante da sociedade. Não porque todos tenham a mesma qualidade, mas porque é justamente a comparação que permite ao eleitor exercer seu julgamento

Tenho defendido há anos que comunicação política não pode ser analisada apenas pela ótica dos candidatos. O centro de toda discussão deveria ser sempre o eleitor. É ele quem justifica a existência da política e é para ele que partidos são criados, campanhas são realizadas e governos são eleitos.

E, olhando por essa perspectiva, uma pergunta inevitavelmente surge: quem ganha quando uma opção deixa de estar disponível para o eleitor?

Vivemos um tempo em que boa parte da política passou a tratar eleições como operações matemáticas. Antes mesmo da campanha começar, multiplicam-se as articulações para reduzir riscos, consolidar alianças e construir o caminho eleitoral mais seguro possível.

Sob a lógica partidária, isso faz sentido. Sob a lógica da democracia, nem sempre.

A democracia floresce quando diferentes projetos disputam espaço diante da sociedade. Não porque todos tenham a mesma qualidade, mas porque é justamente a comparação que permite ao eleitor exercer seu julgamento.

Quando há mais candidaturas competitivas, há mais debates, mais entrevistas, mais confrontos de ideias, mais necessidade de explicar propostas e mais pressão para apresentar soluções concretas.

Acima de tudo, há mais respeito pela inteligência do cidadão, que deixa de receber uma escolha previamente simplificada e passa a exercer, de fato, o direito de decidir.

Nenhuma candidatura deveria ser considerada um problema para a democracia apenas por representar concorrência. Ao contrário. A concorrência é uma das maiores virtudes do regime democrático.

Na iniciativa privada, ninguém defenderia um mercado com apenas um fornecedor. Sabemos que a competição melhora produtos, reduz acomodação e estimula inovação.

Na política acontece algo semelhante. Quando existem diferentes lideranças disputando a confiança da população, todos são obrigados a estudar mais, ouvir mais, explicar melhor e entregar mais. Quem mais ganha com isso nunca é o candidato, é o eleitor.

Por isso, sempre me preocupa quando o debate público começa a ser reduzido antes mesmo de chegar às ruas.

Não estou discutindo nomes. Não se trata de afirmar que Jayme Campos seria o melhor candidato, nem de dizer que Otaviano Pivetta não reúne condições para governar Mato Grosso. Essa não é a questão. O ponto central é outro.

Sempre que uma candidatura competitiva deixa de existir antes da disputa eleitoral, desaparece junto uma oportunidade de comparação. E a comparação é um dos pilares da democracia.

O eleitor não escolhe apenas pessoas. Ele escolhe projetos, prioridades, estilos de liderança e formas diferentes de enxergar o Estado. Quanto menos alternativas chegam até ele, menor tende a ser a riqueza desse processo de escolha.

Existe uma frase muito conhecida que diz que democracia é o governo da maioria. Eu faria apenas um complemento: a democracia também é o direito da minoria de apresentar suas ideias, disputar espaço e convencer a sociedade.

Esse direito não existe para beneficiar candidatos, existe para proteger o eleitor. Porque campanhas passam, alianças mudam e partidos se reorganizam, mas o precedente que fica é outro.

Toda vez que reduzimos as opções disponíveis ao cidadão, reduzimos também uma parte do debate que poderia ajudar a construir decisões mais conscientes.

Talvez alguém argumente que esse sempre foi o funcionamento da política. E é verdade, mas nem tudo o que é comum deveria deixar de ser questionado.

Quanto mais candidatos preparados disputam o voto popular, mais argumentos precisam ser apresentados, mais escrutínio acontece, mais transparência é exigida e mais difícil se torna vencer apenas pela força das estruturas partidárias.

No fim das contas, não é uma candidatura que fortalece a democracia, é a possibilidade de escolha.

Uma eleição nunca deveria ser lembrada apenas por quem venceu, também deveria ser lembrada pela qualidade das alternativas que ofereceu ao eleitor.

E quanto maior for essa pluralidade, maior tende a ser a força da própria democracia.

  Mariana Bonjour é advogada e consultora política. Escreve com exclusividade para esta coluna às sextas-feiras