Cuiabá, 17/09/2026

Quanto mais duro for o treinamento, mais fácil será o jogo

Rodinei Crescêncio/Rdnews

 Existe uma frase muito repetida no esporte, no exército e em ambientes de alta performance: “Quanto mais duro for o treinamento, mais fácil será o jogo”. Na política, deveria ser igual. Mas, na prática, muitas vezes acontece exatamente o contrário.

Ainda hoje, muita gente encara campanha eleitoral como improviso — algo que vai sendo resolvido no meio do caminho, como se estratégia pudesse ser substituída por reação rápida. Talvez esse seja um dos maiores erros das campanhas modernas, porque eleição não é o momento de aprender; é o momento de executar.

A ilusão da campanha improvisada

Existe um mito perigoso na política brasileira: o do candidato “natural”. Aquele que “fala bem”, “tem carisma” e “cresce sozinho”.

Só que campanhas não são vencidas apenas por talento. São vencidas por preparação.

O problema é que boa parte dos candidatos só começa a pensar estrategicamente quando o jogo já começou. É nesse momento que surgem perguntas como: 

  • “O que vamos postar?”
  • “Qual vai ser o slogan?”
  • “Como responder esse ataque?”
  • “Quem é nosso público?”
  • “Qual pauta vamos defender?”

E quando essas perguntas aparecem durante a campanha, normalmente já é tarde. Campanha exige velocidade — e velocidade sem preparação vira desespero.

 Campanha não é laboratório

Um dos maiores equívocos da comunicação política é tratar a campanha como fase de testes.

Mas campanha não é laboratório. O laboratório é a pré-campanha.

É nesse período que o candidato deveria:

  • testar narrativas;
  • entender percepções;
  • descobrir rejeições;
  • ajustar linguagem;
  • validar pautas;
  • identificar dores reais;
  • fortalecer imagem;
  • construir posicionamento.

Um dos maiores equívocos da comunicação política é tratar a campanha como fase de testes. Mas campanha não é laboratório. O laboratório é a pré-campanha

Quando isso não acontece antes, a campanha se transforma em um ambiente permanente de gestão de crise.

E campanhas que vivem apagando incêndio raramente conseguem construir autoridade.

A diferença entre candidato preparado e candidato ansioso

Existe uma diferença perceptível entre candidatos preparados e candidatos improvisados.

O preparado transmite estabilidade. O improvisado transmite ansiedade.

E o eleitor percebe isso, mesmo sem conseguir explicar racionalmente.

O candidato preparado:

  • sabe qual mensagem repetir;
  • entende qual eleitor quer atingir;
  • tem clareza sobre sua identidade;
  • domina sua narrativa;
  • sabe reagir a ataques;
  • mantém coerência.

Já o candidato despreparado muda de direção toda semana.

Uma hora fala de segurança. Depois vira especialista em saúde. Em seguida tenta viralizar em uma trend, endurece o discurso, depois suaviza novamente.

Ele entra em modo reativo. E comunicação reativa quase sempre gera percepção de fragilidade.

O erro de treinar apenas o discurso

Quando se fala em preparação eleitoral, muita gente pensa apenas em media training. Mas campanha exige muito mais do que aprender a falar bem.

Alguns dos maiores problemas eleitorais não acontecem por falta de fala. Acontecem por falta de preparo emocional e estratégico.

Campanha coloca o candidato sob pressão constante:

  • críticas;
  • ataques;
  • exposição;
  • desgaste;
  • fake news;
  • agenda intensa;
  • vídeos negativos viralizando;
  • pesquisas abalando emocionalmente equipes inteiras.

E quem não treina antes, quebra durante.

Campanhas fortes parecem leves por um motivo

Existe algo curioso nas campanhas bem executadas: elas parecem leves.

As agendas fluem. Os conteúdos parecem naturais. As respostas chegam rápidas. Os vídeos transmitem segurança.

Mas quase nunca isso acontece por acaso.

Existe preparação por trás. Existe repetição. Existe alinhamento. Existe estratégia testada antes. Existe equipe treinada. Existe cenário previsto.

Assim como no esporte, o que parece espontâneo normalmente foi treinado dezenas de vezes.

Treinar campanha é criar resistência

Muita gente acredita que preparação serve apenas para melhorar desempenho.

Na política, ela serve principalmente para aumentar resistência.

Campanha longa não vence apenas quem começa forte. Vence quem consegue sustentar consistência emocional, narrativa e estratégica até o final.

E isso exige preparo.

Os melhores candidatos raramente entram crus

Quando observamos campanhas realmente competitivas, existe um padrão: os candidatos já chegam “prontos”.

Não necessariamente famosos. Não necessariamente ricos. Mas preparados.

Eles já sabem:

  • como querem ser percebidos;
  • quais pautas sustentar;
  • qual linguagem utilizar;
  • quais públicos priorizar;
  • quais erros evitar;
  • quais associações construir.

Eles não entram na disputa para descobrir quem são. Entram para consolidar uma identidade política.

Na política, improviso custa caro

Existe uma romantização perigosa do improviso na política, como se autenticidade significasse ausência de preparação.

Mas autenticidade e estratégia não são opostos.

Os grandes comunicadores políticos normalmente são justamente os mais preparados, porque preparação não elimina verdade — elimina ruído.

O pré-campanha é o verdadeiro campo de treinamento

Talvez o maior erro de muitos candidatos seja enxergar a pré-campanha apenas como espera.

Na realidade, ela deveria ser o período mais intenso de construção.

É nesse momento que se fortalece:

  • posicionamento;
  • narrativa;
  • imagem;
  • equipe;
  • presença digital;
  • relacionamento político;
  • percepção pública.

Quando isso é ignorado, a campanha vira sobrevivência.

E campanhas de sobrevivência raramente conseguem liderar percepção.

Conclusão

Na política, muita gente quer parecer pronta sem ter se preparado.

Mas campanha eleitoral é ambiente de pressão extrema. E pressão não cria estrutura — ela revela.

Por isso, quanto mais duro for o treinamento:

  • mais clara será a mensagem;
  • mais rápida será a reação;
  • mais firme será o posicionamento;
  • mais estável será o candidato.

Porque, no fim, campanhas não são vencidas apenas por quem comunica melhor. São vencidas, principalmente, por quem se preparou antes do jogo começar.

Mariana Bonjour é advogada e consultora política. Escreve com exclusividade para esta coluna às sextas-feiras