Cuiabá, 01/11/2026

Casal se reinventa e planeja filhos e Lua de Mel, enquanto discute acessibilidade

Edilon Carmo

Na saída da celebração religiosa, em Cuiabá, Thuana conduz Arthur na cadeira de rodas e recebe bênção de damas, padrinhos, família e convidados

A igreja estava lotada, flores por todos os cantos e a emoção escorria pelos olhos. O casamento de Thuana Melo Carloni e Arthur Henrique Carloni acabara de acontecer. Na saída da celebração, em Cuiabá, a noiva conduz seu amado na cadeira de rodas. O sorriso vai de canto a canto, ambos felizes ao realizar o sonho acalentado. No retrato, é possível perceber que não sorriem apenas com a boca, mas também com os olhos. Olhos que brilham muito.

Quem não conhece a história, presume que o casal passou por muitas situações difíceis. E realmente passou. Mas as dificuldades fortaleceram ainda mais o sentimento. Eles se conhecem desde a infância em Chapada dos Guimarães. Thuana e Arthur eram amigos, saíam juntos.

Com o tempo, a família de Arthur se mudou para Goiás e ele seguiu para a nova cidade com os pais. Anos depois, quando voltou, Thuana ainda estava por aqui. Eles se viam sempre e, com o tempo, passaram a nutrir um carinho cada vez mais forte um pelo outro.

Arquivo pessoal

Arthur é exemplo de superação que vem da sua própria força e da energia de Thuana, sempre ao seu lado

O primeiro beijo aconteceu em 23 de junho de 2013. A partir daí, Arthur não quis mais se mudar de cidade. Namoraram e, meses depois, resolveram morar juntos. Na mesma data em que selaram o primeiro beijo, decidiram se casar, o que aconteceu no último 23 de junho. Após muitas reviravoltas da vida, oficializaram a união com um sim cercado de familiares, amigos e testemunhas.

O acidente

A reportagem vai rebobinar um pouco essa história. Em 2 de janeiro de 2016, Arthur sofreu um acidente grave em uma de suas viagens entre Goiás e Mato Grosso. O casal estava nas Águas Quentes de Barra do Garças. Enquanto se divertiam, Arthur resolveu dar um salto de bico em uma daquelas piscinas. No salto, ele bateu a nuca em alguma parte da estrutura e teve várias vértebras quebradas. O socorro foi acionado e Arthur, encaminhado para a Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), onde permaneceu por 87 dias.

O diagnóstico não deixava dúvida. Tetraplégico, Arthur ficou sem condições até para comer e beber e sua alimentação era feita apenas por sondas no nariz.

“Foi muito difícil, eu me tornei um corpo completamente diferente. Sem fazer nada, eu só conseguia mexer os olhos. Disseram à minha família que eu iria ficar para sempre em uma cama, vegetando e que estavam gastando dinheiro na UTI à toa”, relata destacando o pessimismo dos médicos.

Arthur também se recorda que, durante a internação, havia dois horários de visita e Thuana nunca falhou com a pontualidade. Todos os dias, ela se fez presente durante a manhã e fim de tarde para acompanhar suas melhoras.

Quando saiu do hospital de Cuiabá, parte da família de Arthur que reside em Brasília o encaminhou à Rede Sarah de Hospitais de Reabilitação, uma referência para pessoas com lesões na medula. “Lá vimos que nossa vida seria diferente, mas ainda assim poderia ser normal. Estamos aprendendo tudo de novo, em uma série de adaptações, sobre novos movimentos e sobre o meu corpo. Hoje me alimento sozinho, tomo banho e muitas outras coisas”, explica Arthur.

“Em Brasília, descobrimos um hospital de primeiro mundo, de forma gratuita e com muitas burocracias, mas que foi essencial para o tratamento e para receber as informações que não tínhamos aqui”, completa Thuana comparando a diferença nos tratamentos.

O casal jovem, que gosta de sair e se divertir, criou a página Thuana e Arthur no Facebook , onde relata dificuldades de acesso e locais que já investem em acessibilidade.

Casal sobre Rodas

Foi com o intuito de dividir as informações e se distraírem nas horas vagas, que o casal criou também no Instagram o perfil @casalsobrerodasbr. Ali eles começaram a escrever sobre a rotina e resultados de todos os tratamentos, bem como sobre procedimentos comuns, além de curiosidades da vida a dois. “Sempre que postamos algo, muita gente quer conversar. Queremos ajudar outras pessoas a entender algo, por que tivemos dificuldades no início. Pra nós foi difícil, principalmente pela falta de informação. Quem sabe isso possa ajudar quem precisa”, diz Thuana.

Arthur ainda desabafa que a falta de informação pode prejudicar não apenas quem passa por algum processo de tratamento, mas toda a sociedade, inclusive que não sabe lidar com a situação e o trata com diferentes formas de preconceito. “Quando fomos experimentar o meu terno para o casamento, perguntavam para ela: como é que ele gosta? É como se eu não estivesse ali. Continuo tendo meus gostos. Se antes eu gostava de algo como futebol ou qualquer outra coisa, vou continuar gostando. Tenho uma lesão medular e não na cabeça”, relata.

Aos poucos, a adaptação tem sido cada vez maior à nova vida. Antes, era preciso reunir pelo menos três pessoas para tirar Arthur da cadeira de rodas, mas hoje, Thuana desenvolveu técnicas e ela mesma consegue colocá-lo na cama ou no carro sozinha. “Temos uma vida normal, estamos nos adaptando com essas diferenças. Na vida sexual também tudo ocorre naturalmente, exploramos novos toques e sensibilidades. Mudamos o carinho, o jeito de tocar”, confessa Thuana.

Arquivo pessoal

Arthur e Thuana criaram, juntos, perfis no Facebook e no Instagram - @casalsobrerodasbr - nos quais discutem acessibilidade por onde passam

Para ter filhos, os dois ainda consideram a ajuda da tecnologia, que pode ser como uma inseminação artificial assim como outros casais procuram em laboratórios. “As relações acontecem, mas o esperma não tem mais a mesma força para fecundar o útero. Futuramente podemos usar dessa alternativa”, explica Arthur.

Lua de Mel

O pai de Thuana passará por alguns tratamentos de saúde e, enquanto ele se recupera, Thuana e Arthur vão tomar conta da empresa. Depois da maratona, devem seguir para Lua de Mel. Entre os destinos possíveis, o mais provável é o Caribe.

“O Caribe, além de lindo, é uma de nossas opções porque lá eles dão toda estrutura para pessoas cadeirantes ou com outras adaptações. Hoje sei que posso contar com uma pessoa, mesmo estando no fundo do poço. Porque a gente nunca espera isso, até que um dia acontece. Temos muitos planos e seremos felizes na nossa vida com todo amor do mundo”, finaliza Arthur.